Culto em família, a busca da vitória

O culto no lar é um espaço precioso para se compartilhar experiências pessoais e bíblicas

O cenário era o Estádio Mané Garrincha, na estreia da Copa das Confederações, em Brasília. Os protagonistas, jogadores decididos a vencer. A estratégia era criar um enredo de parceria e unidade, cujo desenrolar se deu sob o olhar de milhões de espectadores no mundo inteiro que acompanhavam cada momento dessa sincronia: o lance de Marcelo, o toque de peito de Fred, a cruzada de área de Daniel Alves e o passe de Oscar foram fundamentais para Neymar marcar um golaço; para Paulinho dominar a bola e chutar forte marcando o segundo o gol, e para Jô fechar o placar 3 x 0 contra o Japão, nos acréscimos de tempo. A boa performance do time se deu graças a cada atleta, que permitiu que outro da equipe recebesse a bola da vitória, marcando o início da conquista do tetracampeonato no torneio.

Se aplicada à experiência devocional em família, essa partida de futebol poderia explicar por que o culto doméstico é tão importante e como a sincronia do grupo dá oportunidade para que o outro faça o lance certo que abençoará pais, filhos e irmãos; seja com um gol relâmpago aos três minutos do início da partida ou mesmo na prorrogação de tempo do encontro diário ou semanal da família. Neste caso, o cenário é outro. Entretanto, seja num campo de futebol, ao redor de uma mesa, em cima da cama, no sofá da sala ou sobre as almofadas espalhadas no chão, os principais requisitos comuns ao “time” são: unidade, cooperação, compartilhamento, treino, conhecimento das táticas do adversário e determinação pela vitória, que biblicamente representa o destino de cada um.

O culto no lar é um espaço precioso para se compartilhar experiências pessoais e bíblicas, para incentivar os membros da família a superarem dificuldades, para passar ensinamentos que marcarão suas vidas para sempre e para transmitir dicas que levarão toda a família a lances incríveis de conquistas importantes para uma vida de comunhão. Exemplo disso é o lar da publicitária Cristian Lucia Medeiros, que quando criança recebeu a Jesus como seu Salvador dentro de casa, época em que também brincava de culto e igreja com sua irmã, reproduzindo ensinamentos que recebia de seus pais.

“Falar sobre culto cristão no lar é muito emocionante, me faz relembrar momentos únicos na minha vida. Conheci Jesus no meu lar. Meus pais foram os meus incentivadores. Eu fui alfabetizada muito cedo porque queria ler a Bíblia, afinal cada membro da família lia a devocional em um dos dias da semana e, na época, a literatura usada eram os Pontos Salientes. Gostava de pregar e fazia questão de vestir o terno e a gravata do meu pai para transmitir a mensagem. Eu e minha irmã, Silze, éramos responsáveis pela ordem de culto, fazíamos até boletim. Cantávamos hinos do Cantor Cristão, fazíamos momentos de oração, e até a ceia uma vez por mês. Arrumávamos a sala como se fosse a igreja, e o púlpito eram duas cadeiras de madeira bem pesadas que cobríamos com uma colcha. Foram momentos deliciosos em família. Foi assim que eu aprendi a amar o meu Deus e a Sua Palavra. Hoje meus pais, já idosos, fazem a devocional deles pela manhã, e eu faço na minha casa com meu esposo; meus  lhos Matheus e André não dormem se eu não orar e fazer a leitura diária com eles”, narra Cristian.

Por ser um lugar de apoio e encorajamento para rir, chorar, sonhar e crescer juntos, a devoção em família não pode ser reduzida ao culto doméstico formal que tradicionalmente é tão exaltado e pouco realizado, mesmo porque o ritmo urbano impede passar da teoria para a prática, conforme defende o Pr. Gilson Bifano, líder do Oikos, Ministério Cristão de Apoio a Família e pós-graduado em Terapia da Família.

Devoção em família é muito mais que uma reunião em casa, ela se caracteriza principalmente por nosso amor e temor a Deus baseados nas Suas palavras gravadas em nossos corações, e desencadeia para o culto doméstico.

O culto familiar também representa um meio singular de comunicação. A esposa diz coisas e compartilha problemas em oração, como ela nunca seria capaz de compartilhar em qualquer outra circunstância. A oração em conjunto molda as pessoas pelos laços do amor de modo profundamente emocionante. Segundo o pastor Jeremias Pereira, da 8ª Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte (MG), os benefícios da devoção em família são muitos. “O encontro para o culto doméstico proporciona uma oportunidade de cura de corações, um momento de cuidado espiritual do marido com a esposa, da esposa com o marido, dos pais, ou de um dos pais com os  lhos. Um momento precioso em que a família pode se envolver no cuidado por seu pastor e sua igreja ao interceder por eles e também em favor da cidade, dos pobres, dos necessitados, da parentela, dos amigos e da obra missionária”.

Mas qual seria a melhor liturgia para um culto tão íntimo como o da família. O Pr. Jeremias alerta para algumas adaptações. “Não acredito que haja um modelo ou uma liturgia a ser seguida. Varia também de acordo com o caminhar da família. Quando é só o casal é de um jeito. Quanto tem crianças pequeninas, é de outra maneira. À medida que as crianças crescem, elas devem participar. O culto pode ser somente de oração ou louvor ou ter louvor e oração. Pode ser um estudo bíblico, pode ser a discussão de um tema importante para a família. O pai deve liderar de modo geral. Mas se ele não comandar, a mãe deveria fazer isso. Sei de famílias que os pais ainda não se converteram e que  lhos adolescentes ou jovens, já convertidos oram, e fazem um culto devocional com os irmãos e muitas vezes os pais participam e acham muito bom.

Se ninguém cuidar disso, os avôs deveriam fazê-lo. O culto deveria ser realizado pelo menos uma vez por semana com todos os membros da família, se possível. Se não for possível, por causa dos horários desencontrados e pela dinâmica da vida corrida de hoje, sugiro que haja no mínimo oração todos os dias com os membros da família que puderem participar. Quando meus  lhos eram crianças, era dentro do carro, a caminho da escola, a nossa oportunidade preciosa de compartilhar, orar, cantar e memorizar a Bíblia”, conta.

A psicopedagoga e psicoterapeuta familiar, especialista em aconselhamento de adultos e crianças, Euzeni Barbosa Dutra, a afirma que se medirmos o tempo em que temos de contato com o ensino da Palavra de Deus na igreja, não passa de seis horas semanais. “Se levarmos essa prática para dentro de casa, dobraremos esse tempo e a qualidade da devoção, porque o culto público não é suficiente em si mesmo para satisfazer as nossas necessidades espirituais, temos de acrescentar, diariamente essa busca em família”, disse. Euzeni ressalta que o tempo em que os  filhos que ainda estão em formação  ficam debaixo de outras influências é imensamente maior (televisão, jogos eletrônicos, da internet, dos colegas de escola, etc.).

“A cultura dos diversos veículos da mídia está corrompendo os valores morais, princípios bíblicos das nossas famílias, e muitos de nós assistimos a isto, sem reação alguma; vamos engolindo o engodo. Portanto, a importância do culto em família é fundamental para esta guerra que estamos enfrentando, e a responsabilidade de incentivar o culto doméstico é do sacerdote (pai), porém a obrigação de levar a Palavra de Deus aos seus  lhos é de ambos (pai e mãe). Se seguirmos o princípio “Ensina o menino no caminho” (Provérbios 22.6), é para ensinarmos a viverem uma devoção diária e não serem religiosos pegando suas Bíblias somente dia de culto, mas lendo, estudando e acima de tudo praticando os ensinamentos
contidos nela, dentro de casa”, conclui a psicopedagoga.

Segundo o pastor Fábio Antônio Ventura, da Primeira Igreja Batista em Novo Horizonte (Cariacica), com experiência em Ministério de Família, a oração unida é o meio de multiplicar e fortalecer o amor através dos anos. Ele cita registros bíblicos como a família de Noé (em Genêsis 6); a família de Abraão (em Genêsis 12); e Josué 24:15, que faz uma citação de dependência de Deus em seu lar. Outro exemplo maravilhoso de formação do caráter cristão é o que Samuel recebeu através de sua mãe Ana em I Samuel 2. E o que dizer de Deuteronômio 6:6-7, que acolhe instruções para as famílias ensinarem os filhos assentados em casa, ao deitar e ao levantar? “O culto em família contribui indiscutivelmente para a construção de relacionamentos sadios entre os familiares e principalmente com Deus”,  finaliza.

Devoção em família ou culto no lar não são práticas ultrapassadas, mas que precisam ser repensadas e adaptadas à realidade de cada geração, conforme orienta o pastor Jeremias Pereira.“De 1960 a 2013, são mais de 50 anos. A vida mudou. A dinâmica das famílias mudou. Nos anos 60, poucas mães trabalhavam fora. Nos anos 2010 poucas jovens mamães não trabalham fora de casa. Se o cansaço e a correria para ganhar dinheiro, lazer e diversão estiver matando a vida espiritual da família, é vital que os pais pensem seriamente no que é importante e duradouro na vida dos seus  filhos. Na infância e em casa, temos a oportunidade de apresentarmos o plano da salvação através da pessoa de Cristo, chamá-los ao arrependimento e convidá-los a serem discípulos de Cristo. Devemos aproveitar esta rica oportunidade em família”, diz.

O Salmo 133 inicia-se com uma exclamação espontânea de admiração: “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos”, e termina com uma conclusão de grande sentido espiritual. “Ali (no meio dos irmãos unidos) ordena o Senhor a sua bênção, e a vida para sempre”. O ensino é claro: para o Senhor ordenar a sua bênção num dado lugar, as pessoas precisam viver unidas em harmonia fraternal. Então no lar, onde cada membro da família está presente para juntos cultuarem a Deus, ali ordena o Senhor a sua bênção.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

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