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segunda-feira, 22 DE julho DE 2024

Fazer psicoterapia: sim ou não?

Cada vez mais crentes têm recorrido a psicólogos e psicoterapeutas para resolver problemas mentais e emocionais. Especialistas defendem que isso não significa descartar Deus como fonte de salvação  

Em janeiro de 2020, um artigo publicado no portal Dois Dedos de Teologia propôs o que foi chamado de “uma resposta cristã” para uma dúvida comum nos dias de hoje: “Todo mundo precisa de terapia?” Mesmo defendendo a necessidade da psicoterapia em alguns casos, a então estudante de Psicologia Larissa Lima observava que, “no imaginário popular, a psicoterapia se tornou um meio de alcançar a ‘felicidade’ ou a ‘autorrealização’, uma forma de ‘autoaperfeiçoamento’ e, levando às últimas consequências, algumas pessoas usam até mesmo o termo ‘salvação’”.

Nesse aspecto, Larissa chegou ao “ponto central” do seu artigo e afirmou que “um cristão não deve defender que todo mundo precisa de psicoterapia”. Segundo o texto, “quando repetimos esse jargão, estamos concordando com a nossa sociedade relativista que diz que há um meio de redenção além de Cristo”.

Mas o tempo passou, a estudante se formou e mudou de opinião. Em recente postagem numa rede social, ela afirmou que “a ideia de que para acreditar na suficiência da Bíblia você precisa rejeitar a utilidade da Psicologia é errada e simplista”.

Agora, Larissa entende que “é possível reconhecer a Bíblia como nosso manual de vida, e, ainda assim, reconhecer a necessidade de uma área do conhecimento ou profissão”.

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Ela também admite, em outra postagem: “Eu já estive do lado de pensar que não precisamos de nada além da Bíblia para nossos problemas da alma, mas, depois, aprofundando mais nos estudos de Teologia, percebi que há espaço nessa vida para a Psicologia, sem que ela atrapalhe a suficiência da Bíblia”.

“O conselheiro bíblico não é um resolvedor de problemas, mas alguém que ajuda a pessoa a organizar a sua história e os desejos do seu coração a partir da história da redenção” - Glalter Rocha, conselheiro e pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil
“O conselheiro bíblico não é um resolvedor de problemas, mas alguém que ajuda a pessoa a organizar a sua história e os desejos do seu coração a partir da história da redenção” – Glalter Rocha, conselheiro e pastor na Igreja Presbiteriana do Brasil

Aconselhamento ou terapia?

O tema, no entanto, ainda pode causar dúvidas entre os crentes. Afinal, nos tempos bíblicos e mesmo na história da igreja, os mais diversos problemas eram tratados na relação com Deus, com oração, leitura da Palavra e aconselhamento com líderes ou amigos cristãos. Hoje, com a popularização da psicoterapia, cada vez mais as pessoas buscam esse caminho para resolver angústias, ansiedades, aflições e até questões morais e éticas.

Também em seu perfil em uma rede social, o pastor e conselheiro Glalter Rocha aponta diferenças entre as diversas linhas de psicoterapias e o aconselhamento bíblico.

Para ele, tanto na Psicologia quanto na Psicanálise, o que importa é o que o indivíduo tem para contar – “o que aconteceu com você, o que fizeram com você, o que você deixou de fazer”. Ele salienta que a história pessoal é muito importante, também, no caso do aconselhamento bíblico, mas a premissa, aí, não é a história do aconselhado, nem a do conselheiro, e sim “a história de Deus, a história da redenção”.

Ocorre que, após a queda, com o pecado de Adão e Eva, o homem perdeu a referência primária, que é Deus, e passou a ser autorreferente. “Então, o conselheiro bíblico não é um resolvedor de problemas, mas alguém que ajuda a pessoa a organizar a sua história e os desejos do seu coração a partir da história da redenção. As respostas que você vai dar ao que ocorreu, ou não, na sua história têm a ver com a história da redenção”, explica Glalter.

O pastor Erasmo Vieira, que atua como psicólogo clínico, comenta que a função de conselheiro é antiga. Ele cita Moisés, que não estava conseguindo atender às inúmeras demandas do povo hebreu, até que seu sogro, Jetro, sugeriu uma distribuição de funções, usando pessoas responsáveis. “E Moisés teve seu fardo aliviado”, diz o pastor, referindo-se à passagem de Êxodo 18. “Competia aos sacerdotes e líderes religiosos a tarefa de cuidar das pessoas, aflitas pelos problemas e doentes da alma e corpo. Não é sem razão que sanar (ter saúde) e salvar (ter a vida) vêm da mesma raiz.”

Fazer psicoterapia: sim ou não?Limites teológicos

De acordo com ele, os sacerdotes – pastores, padres ou líderes religiosos – são como que “obrigados”, pelas exigências do ministério pastoral, a ser conselheiros. O aconselhamento pastoral, entretanto, tem as limitações inerentes ao preparo pastoral, que é teológico. “Esse aconselhamento funciona nas situações comportamentais mais simples, em que as pessoas não manifestam desequilíbrios, neuroses, desajustes funcionais ou comportamentos que põem a vida em risco”, afirma.

Por isso, Vieira pondera que, atualmente, essa função foi delegada a especialistas treinados e formados em academias com o fim específico de tratar da saúde emocional e mental. “E, à medida que as cidades oferecem essa formação, há mais pessoas habilitadas e mais interesse da população em procurar ajuda diante das adversidades”, explica.

Com 42 anos de experiência profissional como psicólogo clínico, Vieira afirma que, da mesma forma como Deus concedeu aos médicos a reponsabilidade de ajuda no aspecto físico, outorgou aos psicólogos o privilégio de ajudar as pessoas em suas problemáticas afetivas e comportamentais. “A dificuldade – por que não dizer preconceito? – em procurar um profissional em saúde mental e emocional está ligada ao constrangimento da pessoa ser taxada como ‘doida, louca’. Na medida em que as pessoas vencem o preconceito e mostram equilíbrio no viver, outras são incentivadas também a buscar o bem da vida através de um tempo com um especialista, nesse caso, o psicólogo clínico”, diz ele.

“O que não se opõe à Palavra pode e deve, sim, ser aplicado para ajudar o ser humano” - psicóloga Débora Fonseca
“O que não se opõe à Palavra pode e deve, sim, ser aplicado para ajudar o ser humano” – psicóloga Débora Fonseca

Sem conflitos ou concorrência

A psicóloga Débora Fonseca também não vê conflitos ou concorrência nessa questão.

“Sendo cristã, partilho da crença de que Deus é Deus e pode intervir quando e como quiser, mas muitas vezes Ele opta por fazê-lo usando pessoas comuns ou profissionais, para cada caso específico. E, sendo essa a decisão dEle, é certo que, se tenho fé nele e desenvolvo minha vida devocional e comunitária, isso me trará mais força e perspectiva para passar por determinados vales”, afirma.

Na opinião dela, ainda há desconhecimento e, consequentemente, uma desvalorização do trabalho do psicoterapeuta.

Isso contribui para o fortalecimento de estigmas, medo, preconceitos e demonização de demandas, o que gera “barreiras intransponíveis para o acesso à ajuda eficaz”.

Por outro lado, Débora acredita que Deus nos encoraja na arte da mutualidade, humildade e interdependência pessoal, livrando-nos do orgulho e da vaidade de não procurarmos ajuda, quando necessário. Ela observa, inclusive, que muitas habilidades aprendidas em formações de aconselhamento pastoral são originárias da Psicologia ou da Psicanálise – que é uma linha da Psicologia. “Então, qual a diferença entre receber algo desse conhecimento numa formação de aconselhamento pastoral, porém não honrar o profissional devido, quando e se é o momento de fazê-lo?”, questiona.

“Não existe concorrência. Deus nos deu inteligência e, a meu ver, o que não se opõe à Palavra pode e deve, sim, ser aplicado para ajudar o ser humano.”

Débora lembra que, não somente na Psicologia, mas em todas as ciências da área de Humanas – Filosofia, Sociologia, Antropologia, Artes etc. – os crentes são confrontados com algum ou muitos aspectos de contradição à fé. “Aliás, até na área de Exatas vemos essa possibilidade, como na discussão sobre universos paralelos da Física Quântica”, acrescenta.

No entanto, ao mesmo tempo em que a Constituição Federal de 1988 garante a liberdade da fé cristã, há limites estabelecidos nos Conselhos de Psicologia, “no sentido de que não cabe ao profissional se utilizar do ambiente de trabalho para induzir alguém à sua crença, seja ela cristã, muçulmana ou de matriz africana. A meu ver, precisa haver sabedoria e bom senso na escolha do profissional”, frisa Débora.

Fazer psicoterapia: sim ou não?Diálogo e saúde mental

A psicóloga destaca que uma fonte para essa escolha é o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC – cppc.org.br), formado por profissionais que atuam sem desrespeito à fé cristã. A igreja também pode se posicionar, “favorecendo o diálogo e a abertura desse importante campo de conhecimento em seu meio”. “A psicoterapia pode ajudar em muitos casos sem riscos de dependência, pois o objetivo de qualquer psicoterapia séria é a autonomia. Autonomia é sinônimo de saúde mental”, salienta.

De acordo com Débora, por meio da terapia o indivíduo adquire a capacidade de lidar com suas demandas pessoais, sem adoecimentos ou vínculos perniciosos. “Quanto à salvação em Cristo, ela não exclui passarmos por aflições num mundo que é enfermo pelo pecado original. Se nosso foco se perde, então penso que nunca tivemos foco!”, afirma.

O próprio Cristo sempre teve atitudes tridimensionais com as pessoas, envolvendo corpo, alma e espírito e, segundo o pastor Erasmo Vieira, qualquer psicólogo de conceito entende essa tripla dimensão. Ele explica que, ainda que estejamos mais interessados na “alma” – daí a palavra psiquê, que é onde encontramos a sede dos comportamentos, desejos, vontades –, as outras duas não podem ser esquecidas. “Elas estão juntas. Unidas e misturadas!”, observa.

Vieira entende que toda psicoterapia se propõe conceder à pessoa uma vida estável, ajustada, duradora e, especialmente, feliz. “Embora a felicidade seja uma escolha do indivíduo, o psicólogo trabalha o terreno para que essas decisões sejam as melhores para a pessoa”, acrescenta. Do ponto de vista cristão, essas escolhas sempre vão ser baseadas nos ensinos, valores e princípios do bem-estar afetivo, social, físico e espiritual.

Presença curadora

Atuando em consultório desde 1982, Erasmo Vieira diz que já enfrentou “de tudo que se possa imaginar”, mas nunca deixou de considerar a presença curadora de Deus na vida das pessoas. Ele assegura que, de acordo com milhares de estudos científicos, a religião bem estabelecida, com princípios e valores, é norteadora do equilíbrio e do comportamento ajustado.

“Naturalmente, entendemos as dificuldades de taxar a cientificidade da psicologia diante do aparato da religião. Com isso, cria-se um clima de repelência, mas é bom lembrar quem mesmo na Medicinam podemos testemunhar isso. Alguns de meus amigos médicos têm muito a contar de casos clínicos em que pessoas são curadas sem quaisquer explicações médicas. Simplesmente como cura divina!”, relata.

Já o Humanismo, na visão do pastor, é o tipo de filosofia que não encontra tanta valorização em todo esse contexto, porque o centro do Universo não é o homem, mas o Criador do homem. “Neste caso, se esse relacionamento estiver ‘em dia’, o relacionamento do homem consigo mesmo e com os outros será encaminhado com menos dificuldades. Porque Jesus Cristo ensina a viver em harmonia, respeito e amor.

O resultado disso é a salvação”, diz Vieira. “Salvação do homem, relacionado aos seus próprios desajustes – inclusive, passando a amar mais a si mesmo –, e com as pessoas, porque a comunhão se torna desejável.”

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