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quarta-feira, 20 janeiro 2021

Família na covid-19: Confinamento, mudanças de valores e reaproximação

Como as relações familiares mudaram durante o período de isolamento por causa do coronavírus

A té o mês de março, a rotina do técnico de enfermagem Marco Aurélio Scardua, de 42 anos, era levar os três filhos, com idades entre 5 e 14 anos, para a escola por volta das 7 horas. De lá, ele seguia para o serviço, buscava-os às 11h e deixava-os com a esposa, que trabalha no horário da manhã e fica com as crianças no período da tarde. “Sempre frequentamos áreas de lazer como praia e parques.

Meu filho pratica futebol duas vezes por semana e vamos frequentemente à igreja”, declara Marco Aurélio, que é diácono da Igreja Presbiteriana do Brasil Água Viva, no bairro de Estrelinha, em Vitória, capital do Espírito Santo.

Entretanto, toda a rotina da família foi mudada com uma nova realidade encarada não só pelos brasileiros, mas também por todo o mundo com a chegada do novo coronavírus. A doença transmitida pelo SARS-CoV-2 alterou as relações humanas, fazendo com que palavras como “Covid-19”, “isolamento social”, “quarentena” e lockdown se tornassem termos comuns em conversas e mensagens compartilhadas na internet.

“Somos muito vulneráveis e precisamos dar mais valor a cada momento que vivemos e à vida que Deus nos deu” – Marco Aurélio Scardua, técnico de enfermagem

Além disso, reuniões de familiares e amigos, festas, encontros e qualquer outro tipo de aglomeração passaram a ser evitados desde que a moléstia foi identificada, pela primeira vez, em Wuhan, na província chinesa de Hubei, no dia 1º de dezembro de 2019.

Caracterizada como uma doença que causa problemas respiratórios semelhantes à gripe e sintomas como tosse, febre e dificuldade para respirar, a Covid-19 teve seu primeiro caso confirmado no Brasil no dia 26 de fevereiro de 2020, em São Paulo. Como forma de prevenção, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde no Brasil recomendam lavar as mãos com frequência usando álcool em gel, evitar tocar o rosto e o isolar-se socialmente.

Valorizando cada momento

Até o momento, mais de 3 milhões de pessoas já foram contaminadas ao redor do mundo desde o primeiro caso reportado em 31 de dezembro de 2019. Para Marco Aurélio, o isolamento afetou as finanças, mas, felizmente, fez com que ele, a esposa e os três filhos ficassem mais próximos. “Gastamos mais tempo em atividades juntos, como leitura, brincadeiras, sessão de filmes, jogos eletrônicos, entre outras. Graças a Deus não fomos contaminados e acredito que o Senhor está no controle de todas as coisas. Somos muito vulneráveis e precisamos dar mais valor a cada momento que vivemos e à vida que Deus nos deu.”

Servidor público na Prefeitura de Vitória, Marco explica que teve de desmarcar muitos compromissos, até mesmo uma ação social que estava programada para acontecer, por causa da quarentena. Os deveres dos filhos têm sido encaminhados por um aplicativo, e a igreja tem funcionado de forma online, transmitindo os cultos pela internet. “O isolamento proporcionou mais tempo em família para lermos a Bíblia, orarmos e meditarmos juntos. Sinto que minha família pós-quarentena vai ficar mais unida e mais forte no conhecimento das Escrituras.”

“Podemos aproveitar este momento para conhecer mais das pessoas que convivem conosco” – Raul Uderman, psicólogo

Para o psicólogo Raul Uderman, com formação em Gestão de Recursos Humanos, este período de quarentena é importante para que as famílias se unam e aproveitem para se conectar mais entre si, algo que, segundo ele, está há bastante tempo em extinção nesta geração. “As famílias precisam estar mais próximas em todos os sentidos e momentos nesta quarentena. Podemos aproveitar este momento para conhecer mais das pessoas que convivem conosco. Vivemos em uma sociedade em que precisamos trabalhar, estudar e, muitas vezes, essas atividades são feitas longe de casa. Devido a isso, o nosso tempo com a família é reduzido drasticamente. Este é o momento ideal para conversar com seus filhos e para que os filhos conversem com os seus pais”, orienta Uderman.

O psicólogo ainda alerta que o medo é um dos maiores sentimentos que as pessoas podem ter neste período de isolamento social.

Por isso, é importante que a pessoa divida e “peneire” o que assiste e lê na internet para que as várias informações sobre a doença não desencadeiem problemas como transtornos e fobias. “Devemos aprender a absorver somente aquilo que nos sustenta psicologicamente e ignorar as notícias e comentários de pessoas que não possuem qualquer conhecimento da situação e só querem alarmar e criar medo na sociedade.

Devemos analisar e acreditar somente em fontes verdadeiras e manter o nosso cérebro e nossas emoções sempre preparadas para quaisquer problemas imprevistos. Devemos ignorar o medo e seguir em frente.”

Reforçando bons valores

Quem tem procurado seguir em frente é a jornalista Janaina Cunha, de 41 anos. Moradora de Belo Horizonte, em Minas Gerais, e frequentadora da Igreja Esperança, localizada na capital daquele estado, ela está em isolamento ao lado da mãe, de 63 anos, e do filho Samuel, de 10. O confinamento, avalia, tem sido ruim, mas, apesar de as dinâmicas terem sido alteradas, os laços familiares estão sendo reforçados.

“Amo o contato, olho no olho, reuniões longas com boa troca de experiências. Com a quarentena, perdi boa parte dos meus clientes e passei as reuniões para o perfil online. Meu filho está agitado, sente falta da escola, dos amigos e dos esportes. Tenho tentando criar uma rotina, incluindo o descanso, senão passo o dia trabalhando e estudando. Minha mãe vai à padaria umas cinco vezes por dia para não enlouquecer.”

Apesar das dificuldades de adaptação por causa da Covid, Janaina garante que sua igreja tem tido um cuidado muito grande com a comunhão e formação cristã através de podcasts e devocionais disponibilizados diariamente no Spotify, além de cultos online e reuniões semanais virtuais com grupos e do contato com os líderes de ministério, o que tem ajudado sua família a atravessar esta fase.

“Por aqui, mudou muita coisa. Amo estar na rua, bater papo e tocar. Não imaginei que abraçar fosse me fazer tanta falta. Além disso, acredito que ficamos mais sensíveis por entender nossa vulnerabilidade. Os bons valores foram reforçados também”, afirma.

Para o pastor Chris Boni, da Igreja Assembleia de Deus Alto do Ipiranga (ADAI), em São Paulo, este período de isolamento social é o momento ideal para que as famílias reavaliem, estabeleçam e fortaleçam os relacionamentos. “A convivência traz à tona problemas mal resolvidos e potencializa-os, mas acredito que, com um pouco de esforço de todos, conseguimos conviver bem e resolver nossas dificuldades. O diálogo é algo que se perdeu em muitas famílias. Pais não sabem o que se passa com seus filhos e filhos nem imaginam o que se passa com seus pais. E esta é a grande oportunidade de criarmos esse elo e nos tornarmos mais próximos. É importante também que as pessoas sejam respeitadas para que cada um tenha seu espaço e consiga viver bem”, aponta.

Palestrante na área da família e professor de cursos para casais e pais, Boni é casado com Suzana e pai de Giovanna, de 16 anos, Sarah, de 10, e de Noah, de 7. Ele explica que tem buscado criar uma rotina para os filhos, desde a hora em que devem acordar até o momento de ir dormir, e, dessa forma, eles passam os dias sem sentir tanto o peso do isolamento. “Incluímos os momentos de refeições também porque notamos que eles estavam bastante ansiosos e buscavam na comida um escape, e isso não é saudável. Com essa rotina, eles têm tempo para tudo e não ficam ociosos o dia todo sem saber o que fazer”, resume o pastor, que também é formado pelo IBC Professional & Self Coaching e atua como analista comportamental.

Um olhar de esperança

Apesar do medo que assola boa parte do mundo – afinal de contas, os números mostram mais de 3 milhões de pessoas contaminadas pelo coronavírus ao redor do planeta –, Chris Boni salienta que prefere enxergar esta situação com um olhar de esperança. Espera que, ao fim desta pandemia, as pessoas consigam viver com mais amor e solidariedade.

“A falta de empatia e amor ao próximo e a falta de cuidado com o meio ambiente e até mesmo com nossa higiene pessoal ficaram muito claras. Que a gente perceba que Deus é soberano e basta uma palavra dEle para tudo mudar. Eu tenho fé em uma sociedade mais piedosa e que haverá um grande avivamento porque o povo percebeu a falta que a comunhão nos faz, que pessoas são importantes para pessoas. Sentimos falta de abraços e talvez isso nos sensibilize mais. Dias melhores virão e espero que eles encontrem pessoas melhores também.”

Quem tem procurado também exercitar esse olhar de esperança é a dona de casa Vanessa Eduardo da Silva, de 41 anos. Morando no Bairro da Penha, em São Paulo, com o esposo, os três filhos e os pais, ela explica que sua família já era bastante unida antes mesmo do início da quarentena, mas este período fez com que os membros percebessem o quanto um abraço e a presença física são importantes. Apesar da loucura que se tornou a rotina, principalmente em relação à vida escolar das crianças, Vanessa busca participar de cultos online, assistir a lives, ouvir seus louvores preferidos e manter uma rotina organizada para todos.

E, como forma de ajudar quem precisa, a dona de casa resolveu convocar todos os integrantes da família para uma missão nobre. “Decidi, neste período, produzir máscaras para doação. Sempre gostei de ajudar, mas percebi que o que temos é muito diante da situação de muitos brasileiros que passam muitas dificuldades neste momento. Podemos fazer muito pelo próximo ajudando, mesmo com pouco, aqueles que precisam.”

Superando a crise

Pós-graduado em Terapia de Família e pastor na Igreja Batista Itacuruçá, no Rio de Janeiro, Gilson Bifano é assertivo ao afirmar que a grande lição possível a se tirar desta pandemia é: devemos sempre aproveitar as coisas boas da vida, como estar com os familiares, especialmente com aqueles parentes idosos, estar mais com os amigos e aproveitar mais a vida. “De repente, as coisas param e ficamos sujeitos a uma enfermidade que pode nos tirar daqueles que tantos amamos. Para a Igreja, eu tenho dito que a pandemia equilibrou o foco. Antes, o foco estava muito no templo. Hoje, o foco está nas casas. É nas casas que as coisas mais importantes acontecem. Mesmo antes da pandemia. Para a sociedade, a pandemia nos sinalizou que somos muito vulneráveis. Que devemos aproveitar tudo de bom que Deus nos proporciona.”

“A pandemia equilibrou o foco. Antes o foco estava muito no templo. Hoje o foco é nas casas. É nas casas que as coisas mais importantes acontecem” – Gilson Bifano, terapeuta familiar e pastor na Igreja Batista Itacuruçá, no Rio de Janeiro

Bifano ressalta que fatores emocionais, financeiros, sociais, espirituais e geracionais determinarão como as famílias vão atravessar este período nebuloso da história humana. “Creio que o momento é gerador de crise. Cada um deve conhecer-se a si mesmo. Na família, devemos compreender que, para um determinado membro da família, um dia pode ser mais difícil do que o outro. Isso é normal. Cada membro deve descobrir a melhor maneira de liberar o estresse e praticar a tolerância, o humor, a espiritualidade. Tudo isso vai ser importante para a família passar bem este período.”

Casado e pai de filhos adolescentes, o terapeuta e educador financeiro Ricardo Bandini ressalta que manter o controle emocional é uma das melhores formas de as famílias conseguiram se adaptar a esta nova configuração social, na qual 12,7 milhões de pessoas estão sem emprego e estimativas apontam que 52% das micro e pequenas empresas poderão fechar suas atividades. “Milhões de brasileiros nunca tiveram educação financeira, formando assim uma nação altamente imediatista e consumista, sucumbindo ao bombardeio do marketing.

As famílias e empresas de um modo geral estão passando por problemas financeiros por não ter poupado para construir a primeira conquista financeira: a reserva de emergência ou financeira, que eu prefiro chamar de reserva de dignidade, pois ela pode ser formada poupando no mínimo 10% dos ganhos ao longo do tempo para ser usada em momentos como este em que estamos vivendo, como um colchão que manteria o padrão de vida da família ou a dignidade.

Outra orientação é buscar novas alternativas de renda. Todos nós temos habilidade e dons e podemos transformar isso em renda. Identifique as necessidades e dores que as pessoas têm e ofereça ajuda. Pode ser consertar vazamentos e computadores, oferecer mentorias, revender produtos, como de limpeza, cosméticos, e vender marmitas fit”, orienta.
Morador do bairro de Paciência, na zona oeste do Rio de Janeiro, Reinaldo Borges, conhecido no meio artístico como DJ Naudão, vive em sua casa com seis pessoas, das quais duas pertencem ao grupo de risco do coronavírus.

Antes do isolamento, cada membro da família tinha um horário totalmente diferente e raramente todos estavam em casa. Agora, quase todas as refeições são em conjunto. Além de cancelar uma tour que faria pela Europa, Naudão suspendeu vários eventos devido ao decreto que proíbe aglomerações.

Membro da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec) no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, o DJ tem se fortalecido espiritualmente através dos cultos online, mas precisou se reinventar para manter as finanças em dia vendendo máscaras de proteção personalizadas. “As contas estão sendo bem controladas e quitadas por termos mais de uma fonte de renda e três de nós, adultos, recebemos o auxílio do governo. Este é um momento de trabalho em equipe, e tenho aprendido que a vontade do Senhor é sempre a melhor lição de todos. Estou sobrevivendo mesmo e estamos contando os dias sem saber quantos dias são”, conclui.

Ainda é cedo para dizer como o mundo vai ficar após o fim desta quarentena. As relações entre as pessoas mudaram e o que virá depois disto segue sendo uma incógnita, mas uma coisa é certa: nada mais será como antes.

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