Um novo jeito de ser igreja

Durante toda a história da Igreja, é possível constatar movimentos e iniciativas de discípulos de Jesus em busca de estratégias que privilegiassem relacionamentos e comunhão entre os cristãos, que se reuniam nas casas dos fiéis, a exemplo do que acontecia nas congregações mencionadas no Novo Testamento. Eram tentativas de transformar em vida aquilo que se pregava nos púlpitos da época.

Essa maneira de ser igreja reproduzia o estilo primitivo de vida cristã, que com o tempo ganhou diferentes nomenclaturas: Pequenos Grupos, Células, Grupos Familiares, Grupos de Comunhão, Encontro nos Lares, Igreja Doméstica, Companheiros de Jugo, Koinonia, etc. O modelo mostrou-se tão eficaz a ponto de o Pr. Valdir Stephanini, da Igreja Batista da Cidade da Serra, decidir pesquisar experiências de rebanhos que, ao longo da história do cristianismo, têm adotado essa ferramenta para o funcionamento eclesiástico. Seu estudo resultou na tese de doutorado “Aumento de Membresia ou Reconfiguração Eclesial?”.

Com base no trabalho acadêmico do líder ministerial, a revista Comunhão traz à tona esse tema, com o objetivo de edificar as comunidades religiosas, a partir da divulgação de caminhos apontados no conteúdo desse estudo sobre Pequenos Grupos.

Foi a crise de comunhão pela qual sua igreja passou que levou Stephanini a buscar opções que contribuíssem para uma reconfiguração eclesiástica, permitindo o aprofundamento dos laços entre as ovelhas. Assim, ele se deparou com a proposta dos Pequenos Grupos, que dá bastante ênfase no seguir juntos no ensino pela observação e na prática dos mandamentos de mutualidade. A chave de evangelização utilizada são os relacionamentos interpessoais. Por meio das amizades, os crentes testemunham de Jesus, ganham pessoas e as discipulam.

“Esses Pequenos Grupos se reúnem sistematicamente com o propósito de edificação e cuidado mútuos, além de irem à busca daqueles que precisam ser evangelizados. Nos grupos, enfatizamos o relacionamento e a amizade como estratégias de comunhão e evangelismo”, resume o pastor.

A experiência de uma jovem de 20 anos, que participa de um Pequeno Grupo há três, revela a reconfiguração do jeito de ser e de se compreender igreja. “Se não fosse a célula, talvez nunca tivesse entrado na igreja, por certo preconceito que eu tinha. Mas acho bem importante essa questão do relacionamento, pois estou numa igreja de 2 mil membros e é muito difícil conhecer todo mundo. A célula nos permite ter relacionamento. Lá você pode chorar, rir, falar seus problemas, brigar com alguém, porque as pessoas estão lá para se relacionar. E com o tempo a gente vai adquirindo certa intimidade. E não é só uma amizade. Você cria um elo, uma ligação espiritual. A pessoa conhece, sabe seus problemas, sabe o que você está passando. Você pode ligar e falar assim: ‘Eu estou ruim hoje, preciso de oração. Você pode me ajudar?’. Então, está todo mundo lá.”

A estratégia adotada durante a elaboração da tese sobre Pequenos Grupos em Igrejas Batistas do Estado do Espírito Santo foi investigar até que ponto a inserção desse modelo tem sido utilizada como instrumento para a reconfiguração eclesial ou apenas como recurso para o aumento numérico da membresia. Nessa discussão,

sobressaem-se dois padrões: igrejas em células ou dirigidas por propósitos. As experiências das igrejas batistas em Jardim Camburi e em Morada de Camburi, em Vitória, foram utilizadas como objeto material do estudo. Após entrevistas com 120 membros, concluiu-se que essa é uma poderosa ferramenta de comunhão e evangelização, que supre as necessidades dos indivíduos em estabelecer relacionamentos significativos para sua própria humanização. Entretanto, a reconfiguração de igreja ainda é parcial, pois muitos paradigmas ainda precisam ser quebrados.

“Uma das crises vigentes na sociedade contemporânea é a de comunhão, na qual as pessoas podem estar conectadas em tempo real, mas distantes física e emocionalmente, com dificuldades para desenvolver relacionamentos significativos e duradouros. Isso é particularmente desafiador para a Igreja de Jesus Cristo, sobretudo a partir do momento em que experimenta um crescimento quantitativo expressivo”, analisa Stephanini.

Ele afirma que a Trindade Divina vive e manifesta comunhão em todos os Seus atos, desde a eternidade, passando por criação, história e redenção. O ser humano, feito à imagem e à semelhança do Deus-Trindade, é em sua origem e finalidade vocacionado irrevogavelmente à comunhão.

“Não existe cristão isolado. A fé cristã é essencialmente comunitária. Trata-se de um chamado ao diálogo e a uma participação efetiva na vida eclesial, sobretudo na construção de relacionamentos saudáveis e significantes, que sirvam para saciar a fome e a sede de comunhão profunda que todo ser humano carrega dentro de si, sobretudo quando se encontra com o Deus Trino, que é todo comunhão”, conclui o autor da tese.

O Pr. Joarês Mendes, da Primeira Igreja Batista em Jardim Camburi, pioneira nesse modelo no Estado do Espírito Santo, vê a célula como uma ferramenta extraordinária para que as pessoas tenham comunhão e pratiquem aquilo que a Bíblia orienta fazer, ou seja, chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram (Romanos 12:15). “Não é possível se alegrar com uma pessoa ou chorar com outra encontrando-se com ela apenas uma vez por semana, num ambiente mais formal e engessado como é o de culto”, ressalta Joarês.

Na prática
Foi em um Pequeno Grupo que Douglas Ferreira conheceu, na prática, a experiência da Parábola do Bom Samaritano. “O convite foi mais ou menos assim: ‘Vamos lá, você vai gostar, as pessoas são bem legais, e tem um caldinho de feijão delicioso’. Não resisti ao caldinho de feijão (risos). No primeiro dia, me senti um peixe fora d’água, pois nunca tive contato com a Bíblia. O que mais me marcou foi vê-los orando uns pelos outros e até mesmo por pessoas que eles nem conheciam, ou que tinham pouquíssima intimidade. Isso me despertou curiosidade. E foi exatamente num momento de desemprego e distância da minha família que a ‘minha célula’ me mostrou que eu nunca estive sozinho; pelo contrário, eu tinha ganhado uma família em Cristo. Eles sofreram comigo, oraram por mim e comigo, sempre me mostrando o amor de Jesus. A parti daí, tudo mudou, eu comecei a ler a Bíblia e entender os propósitos de Deus. Descobri o que é estar em paz com o Pai, o que é amar e servir a meu irmão, o que é a Igreja de Cristo. Minha célula me salvou, como o bom samaritano salvou o homem ferido e desconhecido, limpando minhas feridas e me dando de comer ‘a Palavra de Deus’”, conta Douglas.

Essa maneira de ser igreja reproduz a experiência dos cristãos mencionados no Novo Testamento que utilizavam os Pequenos Grupos como base de sua estrutura. A Igreja em Células é uma maneira de resgatar valores do Reino de Deus e práticas das comunidades primitivas. Entretanto, sua inspiração maior está nopastor sul-coreano Paul Yonggi Cho, da Igreja Assembleia de Deus, que no começo dos anos 1970 iniciou um ministério chamado Grupos Familiares, causando grande impacto no crescimento da Igreja Central do Evangelho Pleno, em Seul, com significativa influência em denominações protestantes ao redor do mundo.

Na Igreja Católica também aconteceu algo semelhante. O Concílio do Vaticano II, realizado entre 11 de outubro de 1962 e 8 de dezembro de 1965, propôs a quebra de paradigmas em relação à identidade da Igreja, considerando-a como o povo de Deus.

A eclesiologia de comunhão promovida pelos Pequenos Grupos não é uma estratégia de marketing para a expansão numérica das igrejas. Também não é um privilégio ou especificidade de católicos ou protestantes. Ela pertence ao discipulado de Jesus Cristo, tornando-se critério de julgamento de fidelidade ao Mestre (João 12: 34-35).

A Célula-Mãe
Ao se analisar a caminhada de Jesus de Nazaré, constata-se que dificilmente Ele andava sozinho. Era comum estar cercado de muita gente. A tese “Aumento de membresia ou reconfiguração eclesial?” valoriza passagens bíblicas que sustentam a ênfase no estar junto. O Evangelho de Marcos afirma que o Messias retirou-se com Seus discípulos a caminho do mar, e uma grande multidão, vinda da Galileia, O seguiu (Marcos 3: 7). Nesse caminhar sempre com gente ao redor, Jesus escolheu um grupo de seguidores e andou com eles de maneira ainda mais íntima. Depois subiu à montanha, e chamou a Si os que Ele queria; e eles foram até o seu Mestre. E constituiu 12 para que ficassem com Ele, para enviá-los a pregar (Marcos 3:13-14). Num anúncio sempre relacional do Reino de Deus, Jesus chamou alguns para junto de Si, para o convívio consigo.

A célula-mãe da Igreja foi, portanto, o grupo de seguidores que Jesus tinha no Seu movimento, pessoas marcadas pela convivência e pelo relacionamento de amor. Depois da morte e da ressurreição de Cristo, na experiência que se seguiu ao dia de Pentecostes (Atos 2:1-11), destacou-se igualmente a dimensão comunitária dos discípulos de Jesus. A Igreja tomou consciência de sua existência e experimentou algo de extraordinário em termos de comunhão. O autor dos Atos dos Apóstolos apresenta uma síntese da rotina da Igreja em Jerusalém (Atos 2: 42-47).

O texto destaca que compartilhavam tudo o que tinham, incluindo bens materiais, tempo, talentos, fé, amor e cuidado mútuo. A preocupação era o suprimento das necessidades de cada discípulo. O grupo ainda era pequeno, mas crescia a passos largos, com estrutura simples e funcional. Tratava-se de um movimento que nascia em torno do Cristo ressuscitado e que visava a proclamar a boa-nova do Evangelho para o maior número possível de pessoas.

A Igreja utilizava o templo dos judeus para as celebrações da comunidade toda até o ano 70 d.C., e as casas, como lugar de aproximação e comunhão (Atos 5: 42). Nas cartas paulinas, há uma naturalidade na fala do apóstolo Paulo a respeito dessas comunidades domésticas, evidenciando serem uma prática comum no cristianismo primitivo. Os integrantes das famílias formavam uma pequena comunidade e um ambiente favorável para a adoração e a proclamação da mensagem evangélica. Ele orienta a Igreja de Corinto (I Coríntios 14) em como proceder nos encontros promovidos, que se davam nas casas e em pequenos grupos.

Mas ao longo da história do cristianismo, os processos de oficialização da Igreja alteraram essa realidade, e foram feitas diversas tentativas de recuperação da identidade original, como Pequenos Grupos. Chega-se à marcante realidade das comunidades eclesiais de base, no campo católico, e às igrejas em células, no campo protestante. Stephanini relata que com a institucionalização a Igreja passou a se ver como um fim em si mesma, o que resultou no abafamento dos grupos que se reuniam nas casas.

A hora da transição
Atualmente o grande desafio é o período de transição de uma igreja configurada tradicionalmente nos moldes formais para aquela organizada em células. Nessa fase, é necessário que a iniciativa seja do pastor titular e da diretoria, para que a reconfiguração aconteça sem machucar a igreja e para que o novo modelo de ser igreja seja permanente e não apenas mais uma atividade ou um programa dentro de um sistema antigo.

O Ministério Igreja em Células coloca a célula como a estratégia principal na filosofia de trabalho de uma congregação local. Não é mais um programa; é o coração da igreja.

A Igreja Dirigida por Propósitos descreve seu compromisso em construir a igreja ao redor dos cinco propósitos do Novo Testamento: adoração, comunhão, discipulado, ministérios e missões. A chave de evangelização utilizada pelos dois tipos são os relacionamentos interpessoais. Através das amizades, os crentes testemunham de Jesus, ganham pessoas e as discipulam.

As inúmeras tentativas de transformar em vida o que se pregava nos púlpitos das igrejas da época chegaram até nós. Pastores, líderes, teólogos e historiadores se esforçaram para mostrar que vale a pena “apostar” numa reconfiguração eclesial fazendo a transição de um modelo mais formal para um mais doméstico e fraterno. Afinal, são os relacionamentos que oxigenam a comunhão e atraem novas pessoas para a Igreja de Cristo. Essa é a conclusão do Pr. Valdir Stephanini, da Igreja Batista da Cidade da Serra, na sua importante tese de doutorado.

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