Eleições 2018: Religião x Política

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Dinheiro e poder levam cristãos a abandonarem valores do Reino quando assumem cargos políticos. O desafio de estar nesse ambiente envolve acordos perigosos pode colocar em xeque a fé e a vida de muitos servos

A seis meses das eleições, quando serão escolhidos os representantes do povo no Congresso Nacional, nos governos estaduais e federal e nas Assembleias Legislativas, começam a aflorar no meio cristão questões que dividem opiniões: o crente deve se envolver com política? É ético fazer campanha dentro da igreja? O líder pode indicar em quem os fiéis devem votar? Como escolher meu candidato? Tudo isso fica ainda mais complicado com os escândalos envolvendo a bancada evangélica vitoriosa no último pleito, que vem causando descrédito à imagem da Igreja. Pastores e líderes espirituais que usam sua influência para formar verdadeiros “currais eleitorais” estão traindo o ministério para o qual foram chamados. Fazem do lugar profético do púlpito eclesiástico um palanque.

Denúncias de corrupção, conivência com a injustiça social, acordos escusos pelo dinheiro fácil e uso de igrejas para crimes de lavagem de dinheiro fazem parte de um histórico que envergonha o cidadão de bem e o rebanho de Cristo, deixando-os perdidos, sem saber em quem votar, em quem acreditar, para onde ir.

Procurador do Estado de Minas Gerais e membro da Primeira Igreja Batista de Poços de Caldas (MG), Guilherme do Couto de Almeida questiona a representatividade da bancada evangélica. “A postura da Igreja é saber isso e cobrar de qualquer um deles como cidadão, e não apenas como Igreja, senão a gente esbarra no problema da laicidade do Estado. Não se pode misturar governo da Igreja com governo secular. Eu sou representado mesmo por aqueles senhores que estão lá? Todas as facções da sociedade estão bem representadas? Eu acredito que não”, afirma.

“A Igreja deve repudiar todo tipo de atitude irregular” – Paulo Cesar Gomes de Oliveira, pastor

Mesmo diante de um quadro duvidoso, o pastor da Assembleia de Deus Vida Abundante em Cariacica (ES), Paulo Cesar Gomes de Oliveira, afirma que a Igreja deve participar ativamente, com lisura e ética, de todos os setores da sociedade, fazendo diferença como sal da terra e luz do mundo, principalmente na política.

“A Igreja deve repudiar todo tipo de atitude irregular, acompanhando de perto e aguardando a decisão da Justiça, tomando o cuidado de não reeleger pessoas, evangélicas ou não, envolvidas em irregularidades. O Brasil está sendo passado a limpo, muita coisa que acontecia em segredo está sendo revelado. Jesus afirmou em Mateus 18:7: ‘Ai do mundo, por causa dos escândalos’. As eleições vêm aí, e vejo que é hora de exercer com isonomia e responsabilidade nosso papel de eleitor e nosso direito de cidadão.” “Os crentes, sobretudo do Rio, elegeram uma bancada evangélica que envergonha o nome de Cristo” – Moisés Alencar, professor

O professor Moisés Alencar, de Brasília (DF), teme que a Igreja eleja crentes na política que abandonem os valores cristãos por uma Igreja de Estado, que vai de acordo com seus interesses mundanos (dinheiro, poder e luxo), deixando de lado o trabalho social de ajudar os mais pobres, cuidado que um bom político teria que focar, seja da direita, seja esquerda. “Ao contrário, nossos crentes, sobretudo no Rio de Janeiro, elegeram uma bancada evangélica que só faz envergonhar o nome de Cristo. Não promoveram o Reino de Deus com seus exemplos políticos e profissionais e com suas vidas”, critica Moisés.

Para ele, os recursos das igrejas devem ser destinados aos mais pobres e às viúvas, a fim de ajudar pais e famílias necessitados dentro das comunidades evangélicas.

Não escolha Barrabás

A Bíblia traz exemplos de profetas, governadores e reis que fizeram a diferença em suas épocas. José no Egito, Daniel na Babilônia, Moisés no deserto, Davi e muitos outros.
O apóstolo Paulo nos adverte em Filipenses 2:15 para que sejamos irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa. Se por muito tempo a Igreja se absteve ou participou de forma tímida e às vezes egoísta da política, agora parece disposta a lutar para promover a mudança que o povo merece e seus filhos e netos esperam.

Mas como devemos estar presentes nas questões políticas de nosso país, em meio a tantos erros? Votar nulo ou em branco seria uma forma de protesto? Pastor e palestrante de Vila Velha (ES), Alex Costa acredita que se esquivar não resolve e piora ainda mais a situação.  Ele destaca que não podemos fechar os olhos, mas que devemos contribuir de alguma forma para melhoria de nosso país, mesmo que seja com pequenas ações.

“Todo cristão deve valorizar seu voto, pois temos homens de Deus no Brasil preparados para ajudar este país a se tornar melhor. Quando uma pessoa vota em branco ou nulo, ela está deixando de exercer sua responsabilidade. É como se dissesse: ‘Lavo minhas mãos’. Seja, porém, o vosso falar: sim, sim; não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna (Mateus 5:37)”, aponta.

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Fontes: Pesquisa Datafolha e levantamento a partir de respostas de deputados eleitos e reeleitos a um questionário apresentado pelo Portal G1 – 2017

Ele reitera o entendimento de que votar nulo ou branco é desprezar o poder da escolha. “Quando vejo um cristão que não valoriza sua escolha através de seu voto, me lembro do cenário bíblico quando Pôncio Pilatos deu ao povo o direito de escolher entre Jesus e Barrabás, e eles escolheram Barrabás. Trazendo para o contexto político atual, vemos o quanto pessoas boas fazem escolhas erradas e colocam no governo aqueles que não deveriam estar”, argumenta o pastor.

Já Guilherme defende esse direito.  “Acho muito legítimo ter o direito de votar nulo ou em branco e não considero isso pecado, porque é a escolha do cidadão. Significa que o eleitor está rejeitando aqueles candidatos que lhe foram apresentados. Quer outros. Um voto de protesto de quem não quer mais essa lista de candidatos que lhe foi apresentada. Não há problema nenhum em votar nulo ou branco, porque é simplesmente a deliberação de uma vontade”, argumenta o procurador.

Moisés lembra que o crente pode fazer campanha, mas não deve dizer que vai optar por fulano porque é cristão nem convencer os outros a votarem em seu candidato por ele ser da igreja. “Tem que ser pelo trabalho e pela proposta do político, e essa proposta tem que ser cuidadosamente verificada para que não conflite com os valores de quem faz campanha, no caso valores cristãos.”

O ensinamento de que todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais (Romanos 13:11) também foi lembrado. “Nosso papel é seguir I Timóteo 2:1-2: ‘Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade’. ‘Quando os justos governam, alegra-se o povo; mas quando o ímpio domina, o povo geme’ (Provérbios 29:2)”, reforçou.

O silêncio dos justos faz com que a injustiça prevaleça. A Igreja pode assumir funções de liderança em centros comunitários, sindicatos, comitês estudantis e organizações não governamentais e cargos políticos, pois cruzar os braços e se omitir diante da injustiça social é pecado (Tiago 4:17).

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“A postura da Igreja é cobrar de qualquer um deles como cidadão, e não apenas como Igreja” – Guilherme do Couto, procurador
Perigo!

O crente precisa estar preparado para o desafio do ambiente político, que muitas vezes envolve acordos, o “toma lá, dá cá”, interesses de poderosos do capital que se confrontarão com as demandas da população, as tentações do poder, do dinheiro, da fama. Lutar pelo bem-estar de todos, pelo meio ambiente e pela vida acima de tudo significa enfrentar forças mundanas. Para Moisés Alencar, o crente político precisa, mais do que qualquer outro crente, de um mestre da igreja que faça discipulado de perto para que este não “caia”.

“Tudo no quarto secreto, sem publicidade. A Igreja deve afastar os políticos que não defendem os pobres, que apoiam a intolerância e ignoram as minorias. Se alguém da Igreja deseja ser um político profissional, que ele não faça da comunidade sua banca de votos.

Que obtenha seus votos fora da Igreja, no meio do povo na qual ele pretende ajudar com sua política, que abandone os trabalhos da Igreja e que seus valores cristãos o guie em oração, jejum e trabalho para fazer assistência e políticas sociais sem fazê-lo em nome da Igreja.”


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