Igreja ou ponto de encontro?!?

Considerando a dinâmica que tenho notado na vida eclesiástica em minhas viagens pelo país nos últimos tempos, penso que estamos vivendo hoje um momento que requer profunda reflexão sobre a natureza e a missão da Igreja. Se consultássemos membros comuns das congregações sobre o significado do domingo, do culto, da ceia, a relevância do que é ser parte desse corpo e o próprio significado da Igreja e seu papel no mundo contemporâneo, quais respostas será que poderíamos obter? Ao longo do tempo, aprendemos a reduzir “igreja” ao conceito geográfico de um lugar, dando-lhe um sentido sacramental e sacralizado, como se Cristo tivesse morrido e ressuscitado por tijolos, móveis e equipamentos. Mas, afinal, o que significa “igreja” hoje para um membro ou frequentante? É um ponto de encontro de final de semana? Ocasião em que é possível mostrar nossos carros limpos, roupa nova, o mais novo tablet que adquirimos, ou um lugar em que podemos pedir ajuda a algum médico membro da igreja ou mesmo encontrar alguém para ver como dar jeito em nosso desemprego ou ainda em nosso computador que anda com vírus. Igreja pode ser também um ponto de entretenimento,onde temos boa música (e até com aplausos depois dos fortes acordes finais dos cânticos). Também pode

ser um lugar onde é possível ouvir um bom pregador que até consegue trabalhar com as palavras dando um toque de desafio e carga em nossas baterias pessoais para a gente aguentar a semana ou mesmo levantando temas interessantes. Mas, nessa concepção de igreja, onde é possível encontrar a comunhão entre os irmãos que ultrapassa a presença física e coletiva num templo? Comunhão que se revela pela dependência entre os irmãos, pelo interesse e sensibilidade à vida de cada um e entre todos os

membros da igreja. Muitas vezes nos encontramos no final de semana no templo apenas para trabalho e mais trabalho, um ocupacionismo sem fim em que trabalhamos tanto para a obra de Deus que poderemos estar nos esquecendo do Deus da obra. O trabalho pode se tornar em fim em si mesmo. O domingo, dia de celebração, se torna em dia de agitação, dia de descanso que se torna em dia de cansaço. No final do domingo, não é raro ver os membros irmãos se despedindo apenas desejando uma boa semana, sem haver a real preocupação com a vida. E, assim, cada um tenta sobreviver aos embates da semana como pode, sem, muitas vezes, o amparo de outros irmãos na fé, em oração, comunhão e atenção. Devemos desejar uma igreja em que o final de semana ultrapasse e supere o ponto de encontro, uma igreja viva, criativa, dinâmica, sensível comunidade terapêutica e oportunizadora de convivência e comunhão entre os seus membros e suas famílias, dia a dia como o povo de Deus – o Deus vivo.

Lourenço Stelio Rega é teólogo, eticista e educador. Diretor da Faculdade Teólogica Batista em São Paulo. Mestre e, Teologia e em Educação, Doutor em Ciências da Religião.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita. 
Compartilhe