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quinta-feira, 30 maio 2024

Marcelo Aguiar: confiar em Deus é a “vacina” antiansiedade

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Pr. Marcelo Aguiar é formado em teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e em psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo - Foto: Reprodução

“Quando a distância entre a expectativa e a realidade aumenta, aumenta a ansiedade”

Por Carolina Leão

A ansiedade é um tema que vai da ciência à fé, duas esferas que são frequentemente usadas para o homem obter sentido e respostas às suas perguntas. A boa notícia é que, em se tratando de ansiedade, ciência e fé não precisam conflitar. É possível ter uma perspectiva que respeite o diagnóstico trazido pela ciência e ao mesmo tempo permita direção bíblica para sanar dúvidas e romper com determinados “rótulos” socialmente construídos.

Marcelo Aguiar é pastor e psicólogo. Em sua perspectiva de ciência e fé, ele respondeu, com exclusividade à Comunhão, algumas perguntas que lançam luz sobre o tema, levando em consideração seu conhecimento na área, mas também sua perspectiva espiritual sobre o que a ansiedade pode ser e provocar. Desse modo, o entrevistado traz, com fundamentação teológica, conhecimento sobre o que a Bíblia diz a respeito de ansiedade e responde dúvidas que frequentemente permeiam a mente dos evangélicos.

Segundo a OMS, o Brasil é o país com mais ansiosos no mundo – quase 10% da população sofre de ansiedade patológica. Curiosamente, uma pesquisa divulgada este mês pela Global Religion 2023 aponta que 9 em cada 10 brasileiros acreditam em Deus – o maior percentual entre todos os países. Ansiedade seria então sinal de “falta de Deus” e falta de fé?

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Marcelo Aguiar: A confiança em Deus nos ajuda com relação à ansiedade, mas é claro que existem outros fatores. Por isso não devemos apressadamente repreender os ansiosos por falta de fé. Existem formas patológicas de ansiedade, que precisam ser tratadas com medicação e psicoterapia. Além disso, o contexto também é importante. Uma sociedade estressante e insegura contribui para a ansiedade das pessoas. Também podemos afirmar que o nível de ansiedade aumentou bastante com a pandemia.

Sentir ansiedade é pecar? Ou ela nos leva a pecar e por quê?

Marcelo Aguiar: confiar em Deus é a “vacina” antiansiedade
“Pessoas que oram mais possuem a tendência de serem menos ansiosas”

A ansiedade pode ser um pecado. Mas às vezes é um problema de saúde. É por isso que não podemos nos precipitar e sair julgando as pessoas. Ansiedade é pecado quando escolhemos deliberadamente não confiar em Deus e acreditar somente nos nossos recursos. O Senhor não se agrada disso. Ele quer nos livrar desse mal.

Há um ditado que diz que “prevenir é melhor do que remediar”. Porém a Bíblia traz diversos relatos de cristãos que enfrentaram crises e foram fortalecidos, se aproximaram de Deus e até mesmo viveram milagres; nesse sentido, a crise foi necessária. Então, como identificar até que ponto fugir da crise, preveni-la, é algo bom?

Prevenir é melhor do que remediar, mas não é possível prevenir tudo. É aí que entra a ansiedade. O ansioso quer ter cem por cento de certeza de que nada desagradável acontecerá. Ele quer ter controle de tudo. Isso não existe. Ansiedade é o anseio por controle levando ao descontrole.

Em Filipenses 4:6, lemos: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus”. Seria essa uma fórmula bíblica contra a ansiedade? Orar, suplicar e dar graças?

A oração e súplica com ação de graças nos ajudam a vencer a ansiedade. Pessoas que oram mais possuem a tendência de serem menos ansiosas. Com o avanço da tecnologia passamos a ter controle sobre muitas coisas, e talvez por isso a humanidade tenha passado a orar menos. Mas não se pode ter controle sobre tudo. Essa é a ilusão da tecnologia. E, então, a consequência é a ansiedade.

A ansiedade é considerada por muitos estudiosos como “o mal do século”. Diante disso, podemos concluir que não estávamos “preparados” para enfrentar uma grande influência externa, ou o fator estaria mais relacionado à forma como a geração atual lida emocionalmente com as situações que são inerentes à vida?

O século XXI tem sido chamado de “era da ansiedade”. As pessoas foram estimuladas a esperar mais da vida. Elas se tornaram menos resilientes. Passaram a contar mais consigo mesmas e menos com Deus. Passaram a pensar mais na terra e menos no céu. Ao mesmo tempo, a vida se tornou mais complexa e imprevisível. Convivemos com a violência, as expectativas de popularidade, o desemprego, o divórcio… todo esse contexto é terreno fértil para a ansiedade.

Ainda com relação à geração atual, um dos aspectos que se destacam é que esses jovens estão acostumados com a recompensa imediata, e, se ela não vem, entram em crise. Pais e pastores estariam falhando em instruir os jovens de acordo com o Evangelho e prover uma educação que resulte em adesão verdadeira à fé cristã?

A geração anterior era mais resiliente. Esperava menos da vida e estava mais disposta a dar algo em troca. Crescia em lares estáveis, não era bombardeada com informações e lidava com situações menos complexas. Hoje tudo é mais instável, e por isso podemos dizer que o contexto favorece a ansiedade. Se os pais prometerem aos filhos – e os pastores prometerem às ovelhas – que todas as suas vontades serão satisfeitas, também estarão contribuindo para a ansiedade.

Marcelo Aguiar: confiar em Deus é a “vacina” antiansiedade
“Quando o verdadeiro Evangelho é pregado, estamos recebendo uma ‘vacina’ contra a ansiedade”

Quais os principais fatores ou circunstâncias da época atual que o senhor considera mais ameaçadores ou impeditivos de os cristãos alcançarem a paz prometida por Jesus?

Acredito que hoje as pessoas são estimuladas a ter tudo, a ser um sucesso, a desfrutar a felicidade em doses irreais. Quando a distância entre a expectativa e a realidade aumenta, aumenta a ansiedade. A primeira geração de cristãos conviveu com a perseguição, mas mesmo assim foi instruída a alegrar-se e a não andar ansiosa. Essa percepção mais realista ajudava no equilíbrio emocional e espiritual.

A Bíblia relata que Jesus, ao se fazer carne, passou pelas dores e aflições de estar no mundo, não sendo poupado, não somente na morte, mas durante toda sua passagem aqui, apesar de nunca ter pecado. E há muitas passagens na Bíblia em que as atitudes de Jesus ensinam a descansar mesmo na crise. No entanto, antes de morrer, a Bíblia relata que Ele teve um momento de tristeza: “Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo”. (Mateus 26:38). Com base nessa passagem, podemos dizer que Jesus também “teve ansiedade”? O que podemos aprender com isso?

A tristeza diante da dor é uma reação saudável. Quando Jesus sentiu pavor e angústia no Getsêmani, mostrou que era um ser humano normal. Deus não nos condena por nos sentirmos tristes, ele apenas não deseja que vivamos preocupados em controlar todas as coisas. Jesus deixou tudo nas mãos do Pai, e foi por isso que ele saiu do Getsêmani, corajosamente, para o Calvário.

Se os cristãos também enfrentam crises e ansiedade, qual deve ser o posicionamento adequado da Igreja quando um membro enfrenta uma crise emocional? E, por outro lado, a igreja deve ser realmente um lugar a se recorrer nessas situações?

Quando o verdadeiro Evangelho é pregado estamos recebendo uma “vacina” contra a ansiedade. Quando cultivamos uma vida de oração, geramos saúde emocional e espiritual. Mas em alguns casos a ansiedade precisará também ser tratada por psiquiatras e psicólogos. Deus deixou esses profissionais na terra para abençoar-nos.

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