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quarta-feira, 29 junho 2022

Epidemia de diagnósticos infantis ou busca por crianças obedientes?

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A estimativa é que no mundo, 70 milhões de pessoas tenham TEA. Em comparação ao último ano, houve um aumento de 20% nos casos

Por Camilla Vianna 

No último relatório divulgado pela Center of Diseases Control and Prevention (CDC), publicado no dia 2 de Dezembro de 2021, verificou-se que uma a cada 44 crianças é diagnosticada com autismo. A estimativa é que no mundo, 70 milhões de pessoas tenham TEA, sendo dois milhões no Brasil. Em comparação ao último relatório, nota-se um aumento de 20% nos casos; o que gera inquietação e discussão sobre o tema, principalmente no que diz respeito à precedência desses diagnósticos.

Hoje, ao entrar na internet e fazer uma breve pesquisa sobre os sintomas do espectro autista ou déficit de atenção (TDAH), podemos facilmente nos identificar. Ora, o quanto profissionais da área médica também não poderão estar sendo influenciados pela falta de critérios e imediatismo?

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Não se pode negar que as características destes transtornos podem ser facilmente confundidas com situações que fazem parte de qualquer desenvolvimento humano. Crianças agitadas, com altas habilidades ou que apresentam desatenção — justamente por estarem aprendendo as regras sociais e a regularem suas emoções. E o outro lado desta moeda, crianças com baixo rendimento escolar que denunciam a didática falida do sistema educacional atual.

Apesar de que os diagnósticos de TEA e TDAH são demorados e exigem um acompanhamento de meses ou até mesmo anos, muitas famílias e profissionais da educação e saúde mental não estão dispostos a esperar o tempo necessário para um desfecho justo e fidedigno. Além do mais, já não interessa o contexto social e subjetivo em que se vive, já que buscam soluções imediatas para o problema e optam pela medicalização, mesmo que esta via seja prejudicial para o desenvolvimento criativo e autônomo da criança.

Um dado que confirma essa problemática é que atualmente o Brasil está em 2º lugar entre os maiores consumidores de Ritalina do mundo — substância conhecida também como “droga da obediência”. Assim, medicalizar o comportamento é uma forma de monitorar todas as necessidades, demandas e, o mais importante: uma forma de controlar para onde essa criança direcionará sua atenção.

Entretanto, tudo indica que o diagnóstico “express” tem cumprido um efeito apaziguador nas famílias e instituições escolares, trazendo a possibilidade de, enfim, dar nome para o mal-estar. Em contrapartida, permite que essa rede de apoio não seja colocada em questão como também cooperadores do comportamento desviante da criança.

É necessário que as linhas de frente continuem problematizando esse diagnóstico e treinem o olhar para acolher a infância assim como ela se apresenta — com desvios, sintomas e mal-estar, e dessa forma, colaborando para o desenvolvimento saudável e expansivo da criança.

Camilla Vianna é psicóloga e especialista em relação interpessoal e dinâmicas familiares. Graduada em psicologia pela UVV e Mestre em orientação e Mediação Familiar pela Universidade Pontifícia de Salamanca, na Espanha. Atualmente cursa seu Doutorado em Psicologia pela Universidade de Salamanca, também na Espanha.

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