Sociedade ansiosa

“Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber, nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6.25)

Desde a década de 70, venho pensando sobre a velocidade com que as coisas vêm acontecendo. Hábitos de vestuário, estilos musicais e de lazer, dentre outros que faziam parte do cardápio das pessoas, em alguns casos por décadas, passaram a ter uma vida útil cada vez menor. A cada dia, nos tornamos insatisfeitos com o que conquistamos e queremos cada dia mais novidades, em todos os itens do nosso cotidiano.

Chegamos a um ponto da história em que estamos mais propícios a sermos movidos pela mídia. Se a mídia nos informa, nos importamos; se a mídia abandona determinado assunto, nos esquecemos dele. As vítimas da tragédia do Morro do Bumba, em 2010; das enchentes de Nova Friburgo, em 2011, e do mais recente tsunami japonês ainda sofrem as terríveis consequências, mas, em geral, a solidariedade dura enquanto dura a exposição da vitrine midiática.

Corremos atrás das notícias, ficamos tão intensamente imergidos nas coisas que têm afetado o mundo – e, quando falo de mundo, é o mundo todo – e seus respectivos impactos, que não damos conta de que por trás de tudo isso há pessoas estressadas por suas vivências e pelos danos sofridos. Enquanto isso, ficamos estressados pelo volume de informações que não damos conta de digerir.

Os níveis de ansiedade sob os quais a sociedade está exposta estão nos despersonificando e nos coisificando. Estamos ficando mais focados nos aspectos “coisais” e nos esquecemos de que somos os principais agentes e objetos de todo o esforço pela sustentabilidade. Estou me referindo ao ser e aos seus relacionamentos. Se não houver sustentabilidade social, o aspecto ambiental não se sustentará.

O economista chileno Manfred Max-Neef declarou que “nenhum interesse econômico pode estar acima das pessoas” e que “hoje todos nós estamos aqui para servir a economia” e “isso está errado!”. Essa preocupação não vale apenas para governos, empresas ou grupos políticos, nacionais ou planetários, vale para nós, simples mortais, que temos um encargo de projetar a vida para o futuro. E não apenas a nossa, as dos nossos filhos e netos também. Quando Jesus nos falou sobre sal da terra e luz do mundo, esteve falando da nossa responsabilidade pessoal em transformar, moldar, fazer a diferença.

A ansiedade nos tira do foco e nos coloca dentro do turbilhão, nos confunde. Segundo Max-Neef, “muitas vezes somos pessoas bem-sucedidas, mas incompletas. Não é fácil construir um projeto de vida”. Ele afirma que “hoje o mercado é mais importante do que a universidade”. Dá para imaginar que o lufa-lufa, a competitividade, a barafunda de uma rotina reveladora da profunda insatisfação com tudo o que já se conquistou estão substituindo o conhecimento, inclusive aquele que nos leva à intimidade com Deus.

Gosto do tema da sustentabilidade e da responsabilidade social até porque guardam grande sintonia com as Sagradas Escrituras. Al Gore, em suas considerações, nos diz que uma das coisas que o homem pode fazer para ajudar o planeta é desplugar-se. Isso pode representar que devemos nos desconectar dessa correria louca e pensar um pouco em nós mesmos, no que podemos fazer individualmente e em qual seja a vontade de Deus com relação a nós.

Nisso pensai!

João Carlos Marins, pastor e especialista no tema responsabilidade social

Nota: as citações de Max-Neef foram extraídas de www.canalrh.com.br

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