Dinheiro sob controle

A maioria das famílias brasileiras está endividada, e poucas se preocupam em fazer um planejamento financeiro. Saber administrar o que ganha é tão importante quanto ter uma fonte de renda

João Batista da Costa e sua esposa, Maria do Carmo, possuem um salão de beleza e estética há 12 anos. Manter o próprio negócio não é fácil, mas o casal tem prosperado seguindo uma receita: organização financeira. “Aqui não tem essa de gastar mais do que ganha; e nem de misturar as contas da empresa com as da família”, diz o empreendedor.

O cabeleireiro, membro da Igreja Batista de Itacibá, Cariacica, orgulha-se de usar o dinheiro com responsabilidade. Ele está na contramão da estatística da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O endividamento das famílias no mês passado foi o maior para um mês de dezembro (62,2%), conforme Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic).

Mesmo que as famílias estejam aderindo a novas modalidades de crédito com prazos de pagamento mais longo, risco e juros menores, como crédito consignado, financiamento habitacional e de veículos, ainda é muito alto o número de famílias que já começam 2014 “com a corda no pescoço”. O endividamento, segundo a CNC, tem sido promovido pelo cartão de crédito (76,4%), seguido por carnês (16,9%) e, em terceiro, por financiamento de carro (12,6%).  Na média do ano de2013, 5,2% das famílias apontaram ter dívidas com crédito consignado; 12,2% com carros e 6,1% com casa.

Segundo o especialista em finanças Jorge Eloy, a principal causa do endividamento dos lares no Brasil é o excesso de consumo. “O apelo é muito grande, e as pessoas são envolvidas pela ansiedade de consumir cada vez mais”. Nesse aspecto, a educação financeira deve ser entendida como necessidade, especialmente considerando a atual conjuntura econômica.

O cenário pode parecer bom para a população, que sente ter maior poder de compra, mas os números apontam para o aumento de inflação, retração de crédito, elevação na taxa de juros e da inadimplência. Comprar é fácil, simples, basta ter dinheiro na mão ou crédito. O complicado é pagar todos os compromissos tais como: contas fixas, variáveis e emergenciais – que chegam de surpresa,  sem avisos antecipados.

Aí começam as dores de cabeça e aumenta o número de endividados. Está na hora de o cidadão brasileiro aprender a tomar decisões conscientes quanto ao uso do próprio dinheiro, observando o que e para que consome, preocupando-se com o planejamento do seu próprio futuro.

Responsabilidade financeira
Para começar a reverter a rotina de dívidas, é preciso pegar o lápis e papel e reunir a família. Equilibrar as finanças é um desafio para a maioria das pessoas, mas é possível. Nessa hora, é importante aprender dicas práticas de economia doméstica para obter um melhor aproveitamento e rendimento financeiro.

A dica de Jorge Eloy é que as famílias abandonem gastos supérfluos e pensem suas despesas de forma anualizada. “Por exemplo: um jantar que custa R$ 50,00 em uma noite representa R$ 350,00 em uma semana, R$ 1.400,00 em um mês, e R$ 16.800,00 em um ano”. É um exercício de percepção do gasto. Não é possível fugir do planejamento. “Ele deve ser acompanhado semanalmente. Em paralelo, as famílias precisam aprender a poupar. Que seja R$ 10 por mês! O importante é começar e, aos poucos, tornar uma prática”, falou Eloy.

Dinheiro não é apenas assunto de pai e mãe. Compartilhar as responsabilidades com os membros da família é uma forma de educação financeira. É assim na casa da empresária Ana Shirley de Amorim Ramos e Edmilson, pais de Gabriela, 18 anos, e Thiago, 14.  “Sempre deixamos nosso filhos a par da situação financeira da família. Os criamos desprendidos de coisas fúteis, não associando qualidade a grifes e objetos de marcas caras. Se for de qualidade e bonito, não importa se não for de grife. Quando eles desejam algo que está fora do nosso alcance financeiro, sempre fazem algo para conseguir o que querem com o próprio esforço”.

Ana Shirley conta que os filhos dão valor ao dinheiro. Gabriela, quando tinha 16 anos, queria um netbook e conseguiu um trabalho temporário de “mamãe Noel” em um shopping durante duas semanas. “Com o pagamento, ela adquiriu o que queria e ficou muito feliz por ter conquistado por si mesma. Thiago junta parte do dinheiro do lanche da escola e vive com uns bons trocados na carteira. Os dois sempre dão um jeitinho”, comemora.

A empresária, que é membro da Igreja Batista da Graça, em Vila Velha, conta que já foi desorganizada financeiramente. “Já fiz gastos desnecessários. Vivia estourando o limite do cartão de credito até o dia que Edmilson o tomou de mim. Depois que aprendi como utilizá-lo, com equilíbrio e dentro do que eu podia pagar, tive meu cartão de volta”. Hoje, a família tem um olhar bem realista sobre as finanças, observando o quanto ganha, o que tem para pagar, definindo sempre o que é prioridade.

O economista e mestre em administração estratégica Winson Richa dá algumas dicas práticas a seguir para uma boa saúde financeira. “Sempre ter um orçamento que contemple minimamente sua renda líquida e suas despesas fixas. Este deve ser, obviamente, superavitário. O que sobra deve ser utilizado para compras extraordinárias e, se possível, poupar um pouco”.

Uso do cartão de crédito: manter o controle de todas as compras feitas em uma planilha ou lista de valores e bens adquiridos, tudo isso deve estar encaixado com seu orçamento. Não entre na armadilha de pagar o mínimo. Evite, ainda, pagar a fatura fora do vencimento, pois os juros são muito altos.

Despesas fixas: manter as contas como água, luz, condomínio, telefone, plano de saúde, gás, por exemplo, sob controle. Ao receber o salário, pague-as imediatamente. Se a pessoa sonha em comprar um carro ou fazer uma faculdade particular: o especialista recomenda que poupe uma parte da renda para planejar a compra. Mas não se pode esquecer das despesas que terá ao adquirir o veículo, como seguro, manutenção e combustível. Para quem planeja ingressar numa faculdade particular, vale buscar financiamentos estudantis antes de tudo.

Cuidado com as artimanhas das lojas: o preço de um produto a prazo e à vista é diferente. Vale verificar se o valor é compatível com o bem desejado e se a parcela cabe no orçamento. A possibilidade de parcelamento permite o acesso a um bem de consumo que a pessoa não poderia comprar à vista, mas é necessário saber se aquela prestação, que vai acompanhar a vida da pessoa por 12 ou 24 meses, cabe no orçamento.

Empréstimo consignado: nesse caso, cabe refletir sobre qual a real necessidade de adquirir esse dinheiro. A dívida que ele vai gerar sai diretamente do contracheque do cidadão, isso significa uma redução do orçamento geral. Vale a pena? “Nunca se endivide por impulso ou para aquisição de bens supérfluos”, lembra Wilson Richa.

No supermercado: um planejamento antes é importante, elaborando uma lista do que é necessário comprar, estipulando o valor que pode gastar, tendo assim o controle para não ter custo desnecessários. Faça também um apanhado de horários que os preços tendem baixar. Procure comprar de uma só vez, quem fica comprando aos poucos acaba gastando mais do que deve.

Como a igreja pode ajudar
A Bíblia ensina que o dinheiro pode ser uma bênção na vida de uma pessoa, desde que se saiba usá-lo. Mas também pode tornar-se a “raiz de todos os males”. O princípio da sabedoria financeira é o ato de dizimar, entregando ao Senhor, conforme Sua Palavra orienta, o que é devido (Malaquias 3.8-11). Entendendo a doutrina do dízimo e observando os ensinamentos de Deus, a pessoa “comerá o melhor desta terra” (Isaías 1:19).

Ao longo da Bíblia, existem 2.350 versículos que abordam especificamente o tema dinheiro. E isso tem despertado as igrejas para a necessidade de tratar mais sobre o assunto, oferecendo orientações para a comunidade. Em muitas igrejas os membros contam com oferta de cursos que mostram a importância de não se utilizar o dinheiro para satisfazer desejos consumistas e o valor de saber administrar o que ganha.

Para Jorge Eloy, as igrejas podem ajudar, e muito, na mudança de cultura consumista. “Elas têm a estratégia de transformar endividados em investidores, principalmente no momento crítico que estamos vivendo. Os cursos são muito bem-vindos”. Para orientar famílias a se organizarem financeiramente e a viverem em paz, foi criado o Crown Financial Ministries (Ministério de Finanças Coroa), em 1975. É um ministério evangélico interdenominacional que já ajudou a mudar a história econômica de 40 milhões de pessoas em todo o mundo através dos ensinamentos financeiros baseados em princípios bíblicos.

Uma dessas famílias foi a do cabeleireiro João Batista da Costa. “O Crown me ajudou muito a entender como Deus quer que administremos nosso dinheiro. Aprendi muito e coloco em prática até hoje os ensinamentos, e tudo tem dado certo. É um curso de reeducação financeira incrível”, falou.

O Crown aborda temas fundamentais para a vida financeira doméstica – A Parte de Deus, Dívida, Honestidade e Contribuição, entre outros. Oministério pretende alcançar 300 milhões de pessoas com os ensinamentos bíblicos sobre finanças até 2015.

Outro ambiente importante para a educação financeira oferecido pelas igrejas é o curso Casados Para Sempre. Ana Shirley e seu marido, Edmilson, aproveitaram a oportunidade e aprenderam muito com o curso; depois viraram coordenadores. “Uma das coisas que aprendemos é sempre mantermos a transparência de como estão as finanças, não poupar o cônjuge de mostrar a real situação financeira, serem um nas decisões quanto a prioridades, discutirem até chegar num consenso”.

Ela conta viver essa experiência em casa. “Conversamos para ver se podemos ou não, eu falo o que acho, aponto os prós e contras e deixo a decisão final com Edmilson, como deve ser”. Como coordenadora do curso que tem ajudado muitos casais, a empresária destaca a importância do planejamento financeiro. “Fica mais fácil até para educar os filhos. Eles veem na rotina da família a dificuldade para se adquirir um bem, a conquista da aquisição por meio do trabalho e planejamento”.

O pastor IvonildoTeixeixa, que possui vasta experiência em finanças à luz da Bíblia, sendo autor de vários livros sobre o tema, lembra que o desequilíbrio nas finanças é uma das principais causas de separação entre casais. “Pesquisas mostram que, em boa parte das vezes, o dinheiro é o motivo das brigas e discussões do casal. Nos casos de divórcio, ele representa até 50% das separações. Normalmente, acontece porque um dos cônjuges esconde a situação financeira da família. Isso gera um desequilíbrio, e o casal começa a brigar. Se separam por dinheiro e no divórcio brigam por ele”.

Segundo o pastor Ivonildo, o casal não pode deixar Deus de fora das decisões financeiras. “O ‘Agora os dois são uma só carne’ vale para as finanças. A comunicação é essencial, além de fazer um planejamento anual, ler bons livros de orientação nessa área, participar de seminários, ouvir pessoas que são bem-sucedidas em administração financeira. O cristão não pode ser insensato no uso do dinheiro”.

As escolhas financeiras impactam tanto a vida material quanto a espiritual. Obedecer os princípios bíblicos é a garantia da conquista de uma vida de paz em todas as esferas, incluindo a vitória financeira.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.  

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