Alison Cerutti e Bruno Schmidt: medalhistas de ouro do ES

Medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Rio 2016, Alison Cerutti e Bruno Schimidt contaram, antes de fazer bonito na Arena de Copacabana, como se prepararam em Vila Velha para chegar até o fim da competição.

*Por Luciene Araújo

Na véspera da viagem para o Rio, onde disputaram os Jogos Olímpicos no vôlei de praia e venceram, Alison Cerutti e Bruno Schmidt (o Mamute e o Mágico, como são chamados) receberam, no dia 28 de julho, o carinho dos fãs durante o último treino em areias capixabas, sob o comando do técnico Leandro Brachola, na Praia da Costa, em Vila Velha. 

A dupla falou sobre a expectativas para o principal torneio esportivo do mundo e sobre seus planos.

Alison Cerutti

Desde a conquista da prata em Londres 2012, como vem sendo a preparação para repetir o resultado do Pan e levar o ouro pra casa?
Há quatro anos eu jogava com Emanuel, que dispensa comentários, exemplo dentro e fora de quadra. Mudei de vida, voltei a morar em Vitória, montamos um centro de treinamento maravilhoso, jogo com um atleta que pensa da mesma forma que eu. A gente evoluiu muito, como time, como pessoa. Estamos muito bem preparados, fisicamente e mentalmente, e isso nos conforta, nos dá a tranquilidade de que faremos nosso melhor em todos os jogos.

Em 2015, a Federação Internacional elegeu você (Alison) como melhor bloqueio e, junto com Bruno, levou o prêmio de melhor dupla. Isso aumenta a cobrança?
Existe sim essa pressão de representar bem nosso país e o Espírito Santo, mas ela é muito gostosa, estamos acostumados. Claro que é um evento único, sonho de todo atleta, mas é preciso tranquilidade. Sabemos que cada partida deve ser jogada como uma final, para que o jogo apareça e a torcida se torne nosso terceiro jogador.

O fato de o vôlei de praia completar duas décadas de participação em Olimpíadas torna o evento ainda mais especial?
Um sabor ainda melhor. Vinte anos depois de 1996, quando tudo começou, representar o Brasil, em casa… momento realmente único.

Quais os pontos fortes desta dupla?
Nosso time é muito bem fisicamente, muito bem mentalmente, e sabe jogar campeonatos grandes. Esses são os três pontos fortes da dupla. A gente gosta de campeonatos grandes, e os resultados historicamente são bons.

A maturidade emocional de perceber quando o parceiro não está no seu melhor dia pesa tanto quanto a preparação física e técnica?
Exatamente. Aos 30 anos já temos essa maturidade porque jogamos com parceiros anteriormente que nos ensinaram isso. Bruno aprendeu com Benjamim, e eu, com Emanuel. Isso nos ajudou muito a fazer a leitura do jogo. O atleta mais velho passa esse ensinamento naturalmente, e hoje já estamos passando aos mais novos. Quando fui jogar com Emanuel, tinha 24 anos, e perguntava tudo para ele. Hoje nossa dupla fala muito pouco e consegue se entender só de olhar. Isso é um diferencial importante dentro da quadra.

Do que foi preciso abrir mão para chegar até aqui?
Nesses últimos três anos, abri mão de muita coisa, de estar mais próximo da família, dos amigos, e não me arrependo de nada. Perdi aniversários, casamentos, mas estou indo para a segunda Olimpíada e, desta vez, para representar meu Estado, meu país aqui no Brasil. Olho para trás com muito orgulho.

Você sempre carrega a bandeira do Espírito Santo. E nas Olimpíadas? Como fará, já que essa manifestação não será permitida?
Se eu pudesse entrar na quadra central no primeiro jogo com a bandeira do meu Estado, certamente faria. Mas tenha a certeza de que, se ela estiver presente na quadra, vai me deixar muito feliz e farei um “coisinha” diferente (risos). Carrego sempre uma bandeira do Brasil e outra do Espírito Santo; olho para elas e me lembro de momentos de luta, vitórias. Isso me fortalece.

Quais os projetos da dupla ainda para este ano e para 2017?
Ser capaz de manter essa estrutura aqui, mesmo diante da crise que o Brasil atravessa, com graves problemas de patrocínio. São 20 pessoas envolvidas, o que demanda um alto custo. Também treinamos quatro meninas que já estão no cenário nacional e mundial. O Brasil precisa continuar com a mentalidade de manter incentivos, criar novos. Esse é o maior legado que a Olimpíada pode deixar aos brasileiros.

Algum outro objetivo especial na lista das metas a serem atingidas?
Quero ajudar muita gente ainda. Existem jovens que podem ter um futuro melhor. Ontem (27 de julho) inauguramos um projeto social, “Grande Sacada”, em Viana, com 400 crianças. Não sei se todos se tornarão atletas, mas tenho certeza de que sairão seres humanos melhores. Se cada atleta fizer um pouquinho, podemos ter um futuro melhor no país. Não é fácil, mas é preciso contribuir com o que for possível. E dentro de quadra quero apoiar a nova geração. Não somos mais uma hegemonia no vôlei de praia, por isso precisamos ter pessoas fortes por trás, e esse é um trabalho que o Emanuel vem desenvolvendo muito bem, para que o Brasil recupere essa hegemonia. 

Qual sua avaliação sobre tantas notícias negativas envolvendo a organização dos Jogos?
Minhas expectativas são as melhores. Em Londres também chegamos com o fantasma do terrorismo, muito se falou na possibilidade de atentado. Acho que serão os 15 dias mais seguros do Rio de Janeiro, a Força Nacional está nas ruas. E quando os Jogos começarem, o espírito olímpico, as disputas, os resultados, passarão a ser o centro das atenções. Vai dar tudo certo, se Deus quiser.

 

Bruno Schmidt

Vocês conquistaram recentemente a etapa croata do Circuito Mundial. Como é celebrar essa vitória às vésperas do Rio 2016?
O circuito mundial foi muito importante para demonstrar a necessidade de estarmos focados na busca pela melhor performance. Não existe mais hegemonia no masculino, nenhuma dupla venceu mais de um Grand Slam; é preciso manter regularidade durante todo o torneio. Trabalhamos muito para chegar à nossa melhor performance este ano. E na Croácia a gente conseguiu isso.

Quais as expectativas para sua primeira Olimpíada?
Estamos vivenciando uma fase competitiva, com países muito fortes, as duas duplas da Holanda, as duas dos Estados Unidos, da Letônia, da Rússia, os dois times da Itália. O cenário é bastante competitivo, com diversas possibilidades para uma final. E o Brasil – com nossa dupla, mais o Evandro e o Pedro – os quatro entrando nessa competição com muita vontade, muito orgulho, alegria de representar o país em casa. O vôlei está atravessando um momento muito interessante.

A certeza de ter a maioria da torcida gritando o nome de vocês alivia ou aumenta a pressão?
Um pouco dos dois. A gente vai sempre se contagiar de forma positiva com aquela arena lotada transmitindo energia, mas o desejo e a ansiedade de buscar o melhor resultado são maiores, e a gente acaba se cobrando mais. Na Olimpíada não dá pra errar. Mas a gente consegue lidar bem com isso e chamar a torcida para jogar junto.

O segredo do sucesso está em cada um perceber o dia ruim do parceiro e puxar a responsabilidade daquele momento?
O vôlei de praia é exatamente isso. Não apenas estar na bola, atacar, fazer ponto, comemorar. Envolve muitos outros fatores. Se fosse apenas a questão técnica, teríamos muitos outras duplas absurdas. A Europa está cheia de jogadores altíssimos, que saltam muito e com muita força física. Mas o vôlei envolve a sensibilidade de perceber a hora de ajudar seu parceiro mais que você mesmo. Graças a Deus nossa dupla tem essa maturidade. Treinamos isso, estamos bem focados no controle emocional, e isso faz a diferença.

O fato de ser sobrinho de Oscar Schmidt, nossa grande referência no basquete, influenciou você a seguir pelo caminho do esporte?
Toda a minha família, desde meus avós, entende a importância do esporte, mesmo que não seja para formar atleta profissional, mas como ferramenta para tornar as pessoas melhores, ensinar valores que você leva pro resto da vida. Para o sucesso profissional, facilita muito o apoio da família, tanto que é bastante comum ver, por trás de atletas que se destacam, famílias que apoiaram esses objetivos, esses sonhos. E estou tendo a felicidade de ter a minha paixão, o vôlei de praia, como profissão. Sou muito grato por isso.

Melhor jogador de vôlei de praia do mundo, melhor defensor, jogador mais ofensivo. Atleta do ano. Quando percebeu que esse “baixinho” poderia ser um gigante?
Não foi fácil (risos). Sempre acreditei em mim e tive muito prazer em jogar, mas nos últimos oito anos pensei em parar três vezes e só não parei porque minha família esteve o meu lado. Meu pai foi o principal incentivador. Então passei a superar as dificuldades e fui me tornando cada vez mais forte em todos os aspectos.

Quanto tempo foi necessário o “paitrocínio”, antes que pudesse viver do esporte?
Até hoje ainda tenho apoio em determinadas situações. E a falta de patrocínio quase me fez parar. A ausência de políticas públicas é o maior entrave para resultados melhores. Agora o Governo faz de tudo para apoiar, mas sabíamos que isso ocorreria às vésperas da Olimpíada. Infelizmente, em setembro será cada um por si, como antes. Espero que o Brasil seja muito vitorioso, para que movimente esse trabalho em uma direção correta. Somos um país muito imediatista, não temos mentalidade de longo prazo, de crescer de forma gradual.

Os compromissos sociais precisaram ser deixados de lado diante da rotina de treinos e campeonatos?
Este ano ainda está mais tranquilo, ao lado da família, bem mais light. Em 2015, buscando a classificação, tivemos 11 torneios, além da rotina de treino puxada, e passamos a maior parte do tempo fora, foi bem difícil. Por isso é fundamental estar do lado de pessoas que entendem e gostam quase mais do que a gente (risos).

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