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segunda-feira, 15 abril 2024

“Aí eu falei: ‘sou gay'”

O produtor de vídeos Daniel Machado (à esquerda), 27 anos, viveu o drama de ter que contar aos pais, evangélicos tradicionais, sobre a sua homossexualidade. Foto: Arquivo pessoal/ Divulgação

Como pais evangélicos devem agir com filhos que assumem a homossexualidade? Especialistas orientam a melhor forma de lidar com essa situação e ainda orientam sobre os limites dentro de casa

Por Cristiano Stefenoni

“Foi uma surpresa para mim e minha esposa”. A fala do pedagogo Juscelino Domingos Pereira, 56 anos, simboliza o sentimento de muitos pais evangélicos ao serem informados por seus filhos de que são homossexuais. Só no Brasil, quase 3 milhões de pessoas se declaram lésbicas, gays ou bissexuais, segundo o IBGE.

Nesse universo, muitos frequentam cultos e participam de atividades eclesiásticas, enquanto outros preferem o anonimato, por medo do preconceito e da discriminação. Mas, como uma família cristã deve agir quando isso acontece? 

Para o especialista no assunto Flávio Krzyzanowski Júnior, doutor em Ciências pela USP, diretor do Ministério Amizades Verdadeiras e autor do livro “Como a igreja pode acolher pessoas homoafetivas: entendendo suas necessidades mais profundas” (Editora EUPP), a pior coisa que os pais podem fazer ao receber essa notícia é criticar ou tentar dar lição de moral nos filhos. 

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“É muito importante que os pais, ao ouvirem isso de seus filhos ou de suas filhas, entendam que a atração por alguém do mesmo sexo não é uma escolha. Não devem ficar com raiva deles, nem querer dar um ‘banho de Bíblia’, mesmo porque eles já sabem o que ela diz sobre isso. São jovens e adolescentes que têm essa luta em segredo há anos e precisam ser ouvidos sem julgamentos”, orienta o doutor.

Para o especialista, quando os pais tratam dessa questão com amor e respeito, eles acabam revelando Cristo aos seus filhos. “Eles precisam ter a certeza de que têm um porto seguro, onde possam conversar, sem medo de serem julgados pelo que sentem. E mesmo que a pessoa escolha viver a prática da homossexualidade – porque Deus nos deu o livre arbítrio – ainda assim, continuará sendo seu filho ou sua filha”, ressalta Flávio.

Ele explica que há diferença entre ter desejo por alguém do mesmo sexo e praticar a homossexualidade que, para o cristão, essa luta é muito maior, visto seu conhecimento bíblico sobre o assunto.

“As pessoas confundem a prática da homossexualidade com o sentir atração pela pessoa do mesmo sexo. Em geral, quem é cristão luta para não viver a prática, porque entende que essa não é a vontade de Deus. Muitos cristãos têm atração por pessoas do mesmo sexo, mas não vivem a homossexualidade”, afirma.

Sobre como agir em relação à igreja, o doutor lembra que cada denominação tem as suas próprias regras sobre quem pratica ou não a homossexualidade, mas que é importante tanto os pais quanto os filhos continuarem a frequentar os cultos, pois Jesus não rejeita ninguém.

“Mesmo com a prática da homossexualidade, a pessoa tem o direito de estar na presença de Cristo. Talvez não participando de algumas atividades, já que cada igreja tem a sua regra, mas todos podem, sim, se achegarem a Jesus. Ele convida para estarmos em sua casa”, enfatiza.

Ambiente familiar deve ser respeitado

Em relação ao comportamento dentro do próprio lar cristão, o especialista orienta que deve haver uma conversa entre pais e filhos de modo que sejam estipulados limites e que os princípios cristãos que regem aquela casa sejam respeitados. “Se a pessoa que assumiu a homossexualidade ainda vive com os pais, é importante que ela respeite essa casa e, juntos, definam os limites”, orienta.

De acordo com a psicóloga, Alzira Luciana Ferraz de Souza, que também é psicopedagoga, especialista em Inclusão e mestranda em Educação, cada família tem suas regras, comportamentos aceitáveis ou não, assim como valores. Eles podem estar relacionados a vários aspectos e não, necessariamente, apenas à sexualidade.

“Há famílias que não aceitam palavrões, gritarias, que fumem ou bebam no ambiente familiar, e quem pertence àquela família ou a está visitando precisa respeitar. Caso essa família não se sinta preparada para receber esse (a) namorado (a), deve deixar clara a sua posição e isso deve ser respeitado. Mas pode ser que concordem em conhecê-los num outro ambiente e isso seja aceito por todos”, explica a psicóloga.

Do drama ao alívio

O produtor de vídeos Daniel Machado Pereira, 27 anos, viveu na própria pele o drama de ter que contar aos pais, evangélicos tradicionais, sobre a sua homossexualidade. Ele é filho exatamente do Juscelino, mencionado no início dessa reportagem, onde falou de sua reação e de sua esposa ao receber a notícia.

Daniel conta que antes de dar a notícia, ele decidiu dar uma volta na praia para ensaiar o que iria falar e tentar amenizar um pouco a ansiedade. “Estava nervoso porque não sabia qual seria a reação dos meus pais. Mas não podia adiar mais. Eu não estava com coragem, então, disse a frase ‘preciso falar com vocês’. Pronto, agora não tinha mais para aonde correr”, lembra Daniel.

Ele explicou que iniciou a conversa dizendo que a notícia colocaria em xeque o amor que eles tinham por ele, mas que era necessário falar. “Aí eu falei, ‘sou gay’. Quando terminei de falar, minha mãe disse ‘te amo, independentemente de como você é’. Então ela e meu pai vieram e me abraçaram. Foi um peso gigante que tirei das minhas costas, e da deles também”, afirma.

Para Juscelino, a decisão do filho de falar a verdade foi uma forma de evitar muitos problemas emocionais que poderiam vir por conta do silêncio. “Prefiro ter um filho assumido homossexual a um filho morto por suicídio, ou sofrendo de depressão, se enchendo de remédios. Ele foi criado dentro dos princípios cristãos, conhece toda a verdade, e temos orado muito por ele para que seja feliz. A coisa mais maravilhosa é ter um filho, independentemente de sua opção sexual”, finaliza.    

Como pais cristãos devem agir quando os filhos assumem a homossexualidade

  • Não critique. A última coisa que os filhos que assumem sua homossexualidade querem ouvir são críticas. Eles já sofrem diariamente com suas lutas internas e com o preconceito e a discriminação da sociedade e não querem e não devem passar por isso dentro de casa.
  • Ouça. Dê oportunidade para que eles falem, desabafem, mostrem seus medos e incertezas. Ouça com atenção, demonstre interesse pelo que está acontecendo no momento. Essa atitude tornará você e a sua casa um porto seguro e confiável para os seus filhos.
  • Não é hora dar lições. Forçar “a barra” com textos bíblicos para tentar convencê-los a mudar de ideia não só não adiantará, como poderá criar uma repulsa em relação às coisas da igreja. O momento é de conversa e reflexão.
  • Filho sempre será filho. Vocês podem até não concordar com a atitude assumida por seus filhos, ficarem aborrecidos, magoados, mas ainda assim, eles continuarão sendo seus filhos e o vínculo de amor entre vocês nunca deve mudar.
  • Estabeleça limites. Enquanto os pais forem os mantenedores da casa, e os filhos viverem sob seu teto, é preciso respeitar as regras da família. Alguns pais cristãos, apesar de respeitarem a decisão dos filhos, dificilmente aceitarão que o (a) namorado (a) vá dormir em sua casa, mesmo que sejam heterossexuais, por exemplo. Com relação à visita em casa, é algo que deve ser conversado e acordado entre a família.
  • Não deixe de ir à igreja. Independentemente de qualquer coisa, vá à igreja com seus filhos. Cada denominação possui suas regras e condutas em relação a homossexualidade. Mas nenhuma delas pode proibir alguém nessa condição de frequentar os cultos. Pelo contrário. A casa de Deus é um lugar de acolhimento, amor ao próximo e respeito.
  • Ore por eles. Se você ama o seu filho, acredita Jesus que morreu por ele. Sempre ore ao Senhor para que o Espírito Santo ilumine o seu coração, para que sejam felizes e estejam sempre protegidos.

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