“As igrejas abriram espaço para o empreendedorismo feminino”

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A declaração é da pesquisadora Jacqueline Teixeira ao analisar projetos da Igreja Universal, que na sua opinião, estimulam o empreendedorismo feminino e “domesticação” dos homens.

A Igreja Universal do Reino de Deus foi objetivo de pesquisa da antropóloga Jacqueline Moraes Teixeira, doutora em antropologia social e pesquisadora do Núcleo de Antropologia Urbana da USP.

Em entrevista ao jornal El País, ela falou sobre como a percepção dos membros da denominação, que é uma das maiores organizações do país, sobre o apoio do Bispo Edir Macedo ao presidente Jair Bolsonaro na última eleição. Também abordou o combate à violência doméstica e o trabalho social da Igreja junto a mulheres em situação de risco.

Jacqueline mergulhou em alguns projetos principalmente em defesa das mulheres, desenvolvidos pelo instituição religiosa, presente hoje em vários países.

Na entrevista, a pesquisadora fala sobre como as questões como violência de gênero, aborto e divórcio são abordadas entre homens e mulheres na Universal e como os evangélicos se veem representados pelo Governo Bolsonaro. Confira!

Em sua pesquisa, você viu mulheres que lideram projetos ou participam de alguma forma deles dentro da Igreja Universal. Elas se dizem feministas?

Meninas mais jovens têm a necessidade de se denominar feministas mesmo dentro da Universal, mas a questão é como isso vai sendo reconhecido pela liderança. Você pode até ser uma feminista, mas dificilmente vai conseguir se casar com um pastor. Por outro lado, esses projetos estão lidando com o empoderamento das mulheres. Na Universal, as mulheres mesmo não sendo reconhecidas como pastoras ou bispas, movimentam todos os projetos de gênero, que são os projetos mais importantes nesse processo de internacionalização, no processo de visibilidade, do que vai para a Record (canal do bispo Edir Macedo, líder da igreja) e o que não vai. Esses projetos relacionados a gênero foram praticamente todos fundados pela filha mais velha de Edir Macedo, Cristiane Cardoso, que apresenta um programa na TV Record junto ao marido dela que é bispo e hoje é o presidente da Record, Renato Cardoso.

E nesses grupos de mulheres há diferença social entre elas? De que forma se dá esse empoderamento?

É interessante perceber que é muito comum às mulheres atribuir muitas vezes à igreja seu processo de empoderamento, da mulher que consegue estudar mais, arranja um emprego melhor, melhor que do companheiro, que tem formação maior que a dele, que estuda mais. Elas estudam determinados cursos dentro da igreja, aprendem a guardar dinheiro, é como se a iniciação civil ocorresse na igreja, e não necessariamente na escola. Na Universal, se você quiser ter uma posição institucional, não pode deixar de estudar. E como as mulheres estão nas religiões, são maioria, e, de fato, são as que mais estudam no país, para muitas dessas mulheres esse processo de empoderamento e autonomia está muito atrelado à igreja. Na Universal tem formação de esteticista. E qual foi o setor de serviço que mais cresceu nos últimos anos? Estética. De alguma maneira, foram as igrejas que abriram espaço para cursos e para que essa ideia do empreendedorismo se tornasse uma questão atrelada ao feminino.

A Igreja Universal também desenvolve projetos sobre violência doméstica?

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Sim. Durante a minha pesquisa, um dos projetos que eu estudei foi o Raabe, que é o nome de uma prostituta do antigo testamento e é também o nome do grupo de atendimento de mulheres em situação de violência da Universal desde 2011. O foco é no atendimento jurídico e psicológico a quem não tem condições de pagar, além de cursos de cura emocional para mulheres vítimas de violência.

A partir de 2013, o projeto começou crescer muito nos presídios femininos, e no ano seguinte ganhou um super reforço com uma madrinha nacional que é a Andressa Urach, vice-miss Bumbum que ficou doente [a apresentadora passou 25 dias na UTI em 2014 por uma infecção generalizada por causa do silicone que havia implantado na panturrilha e se converteu à Igreja Universal. De alguma maneira, ela retoma essa ideia da mulher que sofreu violência, abusos e se torna a grande madrinha das presidiárias e vai para os presídios de todo o Brasil lançando a biografia dela [Morri para Viver, editora Planeta]. E essa resposta não emerge necessariamente da necessidade de se proteger a mulher como um sujeito civil, mas fundamentalmente do reconhecimento de que a família heterossexual, que é o bem que se deve defender, não é saudável. E que você precisa então transformar essa heterossexualidade numa coisa saudável.

É muito mais uma questão de preservar a família tradicional heterossexual do que de empoderar a mulher.

Sim. E a mulher é fundamental nessa família. Você precisa encarar que essa mulher, que é o esteio da família brasileira, morre em situações de violência extrema e que, se a ideia é defender a família, você precisa proteger essa mulher, tirar ela do risco, aceitar o divórcio…. Ao mesmo tempo em que esses projetos foram acontecendo, emergiu no cenário político nacional a necessidade de se combater a chamada ideologia de gênero, fundamentalmente nas escolas. E um dado muito interessante é que nas Câmaras Municipais, praticamente no mesmo mês em que se aprovava a retirada de tudo relacionado a estudo de gênero e sexualidade de parâmetros curriculares, era aprovada também a obrigatoriedade do ensino da Lei Maria da Penha nas escolas.

Por que essa relação?

A Lei Maria da Penha vem sendo operada não como uma pauta feminista, mas como algo fundamental para assegurar a emergência dessa família heterossexual saudável. Nesse processo eu encontrei os projetos da [ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos] Damares Alves. A necessidade de se permitir o debate sobre gênero a partir da Lei Maria da Penha fez com que determinadas mulheres assumissem posições de poder principalmente nesse novo Governo e a Damares corresponde a essa ideia. Você traz para o religioso uma lei, um discurso jurídico e de alguma maneira coloca esse discurso jurídico como uma resposta religiosa à necessidade de se pensar uma família heterossexual saudável.

A questão da violência doméstica é tratada em grupos de homens também?

Sim. Não tão diretamente, mas, por exemplo, se você for acusado de violência doméstica, não pode ser pastor. No caso deles, o projeto se chama IntelliMen e o foco está em construir um homem domesticado, voltado para a família, que trabalhe, que estude.

Seria construir um homem domesticado e uma mulher empodera?

Sim. Construir uma mulher empoderada, mas voltada para a família. E ela tem que saber que, apesar de toda essa maravilhosidade (sic) que ela é, ela tem que dar conta desse homem limitado. E esse homem, consequentemente, tem que entender que ele precisa melhorar muito para dar conta dessa mulher.

Na sua opinião, os evangélicos, e as evangélicas, se sentem representados no atual Governo?

Sim. Por um lado, o Governo Bolsonaro tem um discurso que recupera e renomeia uma série de questões que o movimento feminista sempre negou, e que de alguma maneira acende uma espécie de ódio às mulheres. Mas, por outro, a representatividade dessas igrejas depende das mulheres dentro do Governo, porque é a esposa do presidente, Michelle Bolsonaro, que é evangélica e leva para o Planalto o trabalho ligado aos surdos e as libras. Os católicos cuidaram das instituições de cegos, para pessoas cadeirantes, mas quem desenvolveu trabalhos com pessoas surdas e foram fundamentais para reconhecimento da libras como língua foram os evangélicos. Quando Michelle faz aquele discurso na posse, por meio das libras, é naquele momento que vem a performance de uma aliança, porque ela não só está garantindo uma representatividade como mulher evangélica, como garantindo um discurso que passa como legítimo para os Direitos Humanos, que seria a acessibilidade por libras. Ela e Damares representam essa aliança. É por isso que eu acho a Damares muito forte dentro do Governo. Ela pode até cair, mas teria que sangrar muito antes, porque ela é um ponto dessa aliança do bolsonarismo com os evangélicos.

Quando começou a te chamar atenção as defesas feitas pela Igreja Universal pela descriminalização do aborto? Quais os argumentos?

Os primeiros textos que eu mapeei de Edir Macedo sobre aborto foi em 2007. Não é necessariamente um princípio ético de defender o direito de a mulher de decidir. Existe uma questão teológica, da defesa de uma fé racional, em que o sujeito tem que estar no controle da sua vida. E aí entra o controle da natalidade, do casamento, das finanças. A defesa da descriminalização do aborto neste caso está ligada a um discurso econômico, de controle de natalidade. É daí que vem a discussão dos direitos reprodutivos, e entra o aborto, a pílula e vasectomia.

Dentro dessa defesa da vasectomia, uma série de reportagens da TVI, um canal português, apontaram, no final de 2017, que a Universal manteve uma rede ilegal de adoções em Portugal… De acordo com a reportagem, Edir Macedo recomendava a vasectomia e depois, a adoção.

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Um dos capítulos da minha tese é sobre isso. Vi em muitas palestras a defesa da adoção: se a pessoa quer ter filho, seria mais factível adotar uma criança que já existe do que colocar outra no mundo.

Isso é super performático, pois o próprio Edir Macedo tem um filho adotivo, e a geração de netos toda é adotada. E é dessa geração de netos adotivos que veio essa controvérsia toda narrada pela TV portuguesa.

Na década de 90, e isso aparecia em vários relatos até de bispos e dos próprios genros do Edir Macedo, neste processo de internacionalização da igreja, tornou-se super importante pensar em um casal que não tivesse filhos, que pastores e bispos não deveriam ter filhos. Pela voz dele, isso seria tido como um sacrifício. Um processo que ajuda a igreja a ter menos gastos com a família eclesiástica, que é aquela que sai do país para erguer outros templos. Mas eu acho que essa justificativa econômica não dá conta da questão. Junto a isso, penso que a ideia é construir na vida desses bispos e mulheres uma teologia muito realizadora: eleger um sonho, que pode ser a paternidade, e optar por uma causa maior, ou coletiva, que seria a adoção.

E quando essa questão do aborto dá um giro?

Desde 2016 eu não vi mais a publicação de textos em defesa do aborto nem na Folha Universal e nem nos blogs do Edir Macedo. E no ano passado tivemos uma discussão super importante sobre a PEC 29 (que voltou à pauta no Senado). Em outros momentos, era uma pauta muito importante para a Universal marcar posição favorável ao aborto principalmente para produzir uma oposição clara à defesa que o catolicismo faz [da criminalização]. Então fui percebendo que começou-se a construir um discurso conservador. Primeiro para produzir uma aliança capaz de garantir a eleição de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, que é o Estado mais evangélico do Brasil e, consequentemente, é o Estado onde tem mais frequentadores da Assembleia de Deus. E a Igreja Universal é uma denominação historicamente conhecida por não produzir alianças no meio evangélico. É sempre muito sectária e muito criticada. E a gente vai vendo essa necessidade de o Marcelo Crivella se posicionar contrário a algumas questões. Na questão do Queermuseum, em 2017, ele faz questão de dizer que a exposição não iria para o Rio de Janeiro. Ele começa a fazer questão de tomar partido sobre certas moralidades, coisa que não é muito o forte da Universal. Talvez a gente possa dizer que a Universal, politicamente, tem um discurso muito mais liberal, mas essa necessidade de transitar mais pelo Executivo fez com que, de alguma maneira, as pautas defendidas pela igreja fossem sendo moldadas.

*Com informações de El País


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