É impossível. Mas Deus faz!

Estevão tinha 14 anos quando recebeu a visita dos missionários

Era o personagem perfeito para fazer parte da história de milhões de africanos que morreram na miséria e no descaso.

Cresceu sofrido; sobreviveu à fome, às doenças e aos perigos. Mas resistiu. Essa foi a primeira vitória de uma luta travada, ainda na infância, de oportunidade ou desamparo, sorte ou fracasso, vida ou morte, do moçambicano Estevão Antônio Gomes, de 29 anos.

Sua história dramática, que serve de inspiração para o roteiro de um filme, narra as aflições de sobrevivência de um menino que decidiu continuar. E foi por causa disso que, em vez de cair no esquecimento daquela comunidade que contabilizaria apenas mais um, Estevão experimentou mais dois tipos de vida: filho de crentes, ele logo descobriu e recebeu a segunda e verdadeira vida. Com Jesus em seu coração, deixou para trás outro tipo de morte: a espiritual.

Sobrevivente das dificuldades em sua cidade natal, e também vivo para Deus, Estevão é contemplado com uma nova forma de vida que reservaria para ele o dom e a capacidade não só de respirar, não só de andar com Deus, mas também de gerar outros filhos, outras vidas. Isso aconteceu depois que, já rapaz, tomou uma das mais importantes decisões. Aceitou o chamado para ser missionário, tornando-se um multiplicador.

Sim, ele ganhou três tipos de vida. E a última vai deixar resultados que vão durar para sempre, porque funciona como caule de uma planta, que é a coluna principal do vegetal, cuja função é sustentar as folhas, flores, ramos e frutos, ligando-os à raíz e conduzindo a seiva (nutrientes como água e sais minerais) que circulam através de uma espécie de sistema vascular.

Nesse mesmo papel vivificador, o trabalho missionário de Estevão produz resultados de fé e salvação em outros corações. Estes tipo de vida vai além de bombear o sangue para o corpo, vai além de renascer em Cristo. São mais vidas para eternidade.

Era uma vez…

Quando se pensa em aflições de sobrevivência, ele consegue superar ao que se imagina já ter sido o bastante para o sofrimento de alguém. Seu caminho foi cercado de lutas de todo tipo: falta de recursos financeiros, de alimentação, atendimento médico, higiene básica, proteção e, principalmente, a luta por uma chance de mudar sua “sorte” e começar a estudar.

Desde criança, conviveu com a dura realidade comum aos países africanos, onde a grande maioria dessa população não teve acesso à terra nem a qualquer qualificação profissional e foi forçada a executar apenas as tarefas braçais mais cansativas e de baixa remuneração.
Foi criado ao lado dos pais e irmãos, e a família lutou a cada dia para sobreviver em Moçambique. Para começar, a falta de saneamento básico, de ruas calçadas, de escolas e de hospitais próximos. A baixa renda e a agricultura de subsistência foram alguns obstáculos para que a vida fluísse.

“Tenho um desejo de voltar para Moçambique para desafiar os jovens a seguirem o mesmo caminho que fiz” Estevão Gomes, missionário moçambicano

Em sua casa não havia banheiro, e ficar doente era um verdadeiro pesadelo. Afinal, quando isso acontecia, era preciso se deslocar cerca de 30 km para obter atendimento médico. A alimentação da família provinha da horta no quintal da casa. “Comíamos de acordo com o que plantávamos. E os demais recursos, obtínhamos pela venda dos alimentos que produzíamos. Nunca foi fácil para mim, mas não desisti”, explicou.

E as dificuldades não se restringiram à subsistência. Para conseguir estudar, foi preciso enfrentar medos e angústias. “Precisava atravessar um rio a nado para ir à escola. Um colega de classe morrer, sendo abocanhado por um crocodilo. Eu o vi ‘indo embora’.  Tinha medo de atravessar aquele rio tão perigoso, mas sabia que não poderia deixar os estudos porque são a base de tudo”, relembra ele.

As condições de vida em sua cidade sempre foram muito ruins, devido à precariedade na qualidade dos serviços; a população não desfrutava de políticas assistencialistas. Por isso, o caminho trilhado envolveu muita perseverança, luta, lágrimas e fé em Deus. Sempre envolvido nos projetos de sua igreja, o jovem passou a liderar o ministério de jovens. Em certo dia, seu pastor o convidou para iniciar um trabalho missionário em diversos países da África. Foi uma escolha muito difícil, mas disse que ouviu o chamado do Pai e aceitou. “Nunca desisti! E este foi um dos meus diferenciais e o motivo de ter sido chamado por meu pastor para ingressar no ministério de missões.” Após sua decisão, em 2009, participou de um treinamento.

Logo em seguida, em 2011, iniciou seu trabalho missionário, onde fez muitos amigos. “No continente africano, as pessoas buscam o aprofundamento da Palavra. Para evangelizar nessas comunidades, usávamos o filme ‘Jesus de Nazaré’, baseado no livro de Lucas.
As maiores dificuldades por lá são a falta de saneamento básico, escolas e hospitais. Além desse motivo, as pessoas acreditam muito nos feiticeiros, na magia negra. Agora, com o desenvolvimento social isso mudou um pouco”, comentou.

Em 2014, Estevão veio para o Brasil, onde iniciou seus estudos em Teologia no Seminário Batista Nacional, em São Paulo. De acordo com o missionário, que se forma em meados de 2017, sua expectativa é de voltar para seu país a fim de evangelizar. “Tenho uma chama, um desejo de voltar para lá (Moçambique) para desafiar os jovens a seguirem o mesmo caminho que fiz. Quero encorajá-los!”