Levando a fé para o ambiente de trabalho

Ser sal e luz como cristão autêntico no ambiente de trabalho é um desafio diário que envolve fé, ética, valores, credibilidade e competência. Qualquer deslize pode fechar a porta para a entrada do Evangelho

O jovem Anderson, mais antigo na empresa, recepcionou com alegria o novato Mateus e lhe deu todas as dicas de que precisava para começar o trabalho no escritório de cobrança. Tudo ia bem entre eles até o dia em que Anderson, ao observar o cordão que Mateus usava diariamente no pescoço, perguntou: “O que tem nesse cordão marrom que você sempre usa?” Mateus respondeu: “É um escapulário, para me dar proteção”. Anderson, numa atitude impensada, disparou: “Fala sério!

Até parece que isso te protege de alguma coisa!”. Pronto. Eis o fim daquela que poderia ter sido uma boa amizade. A relação entre os dois ficou tão difícil que não demorou muito para Anderson deixar a empresa. Ele era rotineiramente isolado pelos seus colegas.Essa situação verídica aconteceu em um escritório de Vila Velha.

Os nomes verdadeiros foram preservados, mas o fato retrata como pode ser difícil a convivência entre pessoas de religiões diferentes. A convicção da fé em Cristo, conforme a Bíblia ensina, deve ser um atrativo para que outros conheçam Jesus e não um instrumento de repulsa ao Evangelho. A orientação de Jesus para que Seus filhos fossem “sal e luz” é uma das mais abrangentes que deixou.

Ela vale para todo lugar, em todo tempo: na vida familiar, no trato com os vizinhos, no convívio com colegas de escola ou faculdade, e não poderia ser diferente nas relações profissionais. Distinguir-se no ambiente de trabalho é um desafio diário que envolve fé, ética, companheirismo, credibilidade, competência e valores.

No livro “Fé no Trabalho”, da editora Mundo Cristão, Michael Zigarelli se vale dos ensinamentos do Sermão do Monte (Mt 5) – as conhecidas bem-aventuranças – para apontar os princípios que estabelecem o conceito divino de atitude cristã. Com propriedade, o autor os aplica na experiência profissional cotidiana, demonstrando que, seja patrão ou empregado, um bom testemunho profissional é resultado direto de uma espiritualidade bem fundamentada.

Comportamento

A postura do funcionário cristão diante de situações boas ou difíceis no ambiente de trabalho é observada por todas as pessoas. O que fazemos é exemplo para o bem e para o mal. Ao levar em conta que, geralmente, passamos mais tempo no ambiente profissional do que em casa ou em outro lugar, vale refletir sobre que tipo de imagem deixamos transparecer no ambiente de trabalho. A Bíblia diz: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (1Co 10.31).

Essa mensagem se aplica em qualquer tempo e situação.E muitos crentes tomaram para si a responsabilidade de refletir o Reino de Deus no ambiente profissional e têm feito a diferença na vida de muitas pessoas. O funcionário público Charles Serra Washington
há mais de dois anos promove um momento de oração no setor em que trabalha, na Prefeitura de Vila Velha.

Todas as manhãs, às 8h30, cerca de 15 funcionários param, meditam na Palavra de Deus e fazem oração. “Essa ação, simples e objetiva, tem trazido bons frutos em nosso local de trabalho. A prática ajuda a iniciarmos o dia focados na nossa missão. Essa iniciativa aproxima as pessoas, torna-as mais solidárias e amigas. Temos colegas de religiões diferentes, mas não há conflitos.”

Charles, que é pastor, comenta que o grupo tem como compromisso orar pelas autoridades que regem o Estado e o município. “A Bíblia diz que devemos orar por nossos governantes para que tenhamos uma vida sossegada. Mas quantos fazem isso? Como cristãos, temos o compromisso de pregar em tempo e fora de tempo. Não falamos de religião. Mostramos quem é Jesus.” Ainda segundo Charles, precisamos renovar a nossa mente e não mais pensar no mercado de trabalho como algo que se opõe à espiritualidade. “O objetivo maior da missão da Igreja é a implantação do Reino de Deus na Terra e podemos começar a partir do nosso ambiente profissional.”

A Prefeitura de Vila Velha, aliás, realiza um culto para todos os funcionários, no auditório, uma segunda-feira por mês. Na ocasião, sempre há uma participação musical e a Palavra é transmitida por algum pastor do município.

Oração para os que sofrem

A pastora Andressa do Espírito Santo dos Santos é recepcionista no Pronto-Socorro do Hospital Metropolitano, na Serra. Desde meados de 2009, ela atua no projeto de humanização do hospital e aproveita para proclamar o nome de Jesus em seu trabalho. “Vejo isso como um chamado de Deus específico para mim, porque a minha supervisora, quando soube que eu era pastora, me convidou imediatamente para participar do projeto. Aceitei com alegria, pois já tinha proposto em meu coração estar inteiramente à disposição para cumprir o ide de Jesus.”

A equipe organiza um culto por mês e, na semana que antecede esse encontro, é feito um convite em todos os quartos para pacientes e acompanhantes. “Realizamos um culto com louvores, testemunhos e ministração da Palavra de Deus. Faço visitas nos quartos dos pacientes que por algum motivo não podem ir ao culto”, disse.

Andressa já contabilizou experiências marcantes neste tempo em que promove os cultos. “Vemos pacientes internados em estado grave terem melhora. Em alguns casos, até cura total. Mas a maior experiência de todas elas é saber que as pessoas estão sedentas, carentes de Deus e, ao serem visitadas, sentem a alegria da presença de Deus junto a elas. É aí que o maior milagre acontece, que é o desejo de entregarem os seus corações ao Senhor Jesus, recebendo pela fé não somente a cura física, mas também a da alma.”

A pastora conta que a atividade de culto não enfrenta resistências por parte das pessoas. “Não pregamos sobre denominações, religiosidades, mas sim apresentamos o Senhor Jesus. Devemos testemunhar em todos os lugares e em todos os momentos.” Ela alerta que falta mais cristãos assumirem sua postura no ambiente de trabalho. “É preciso termos a convicção de que fomos ‘chamados’. Jesus mandou-nos ir e pregar. E podemos transmitir a mensagem de muitas maneiras, usando nosso dons, pois uns foram chamados para pregar, outros para ensinar, outros para ministrar, ‘mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo a cada um particularmente como o quer’.”

Oração para começar

Na Serra, a empresa Sinalização do Espírito Santo (Sinales) abre espaço para que seus funcionários se reúnam em um momento de fé todas as segundas e sextas-feiras por 10 minutos antes de iniciarem o expediente.

O devocional acontece há muitos anos e atrai, em média, 20 funcionários. De acordo com Anderson Emerson de Jesus, eletrotécnico há 11 anos na empresa e um dos organizadores, são feitas a leitura bíblica, uma explanação sobre a Palavra e uma oração. “Quem participa gosta e aprende um pouco mais sobre a Bíblia. Além disso, oramos por um pedido especial de alguém, compartilhamos dificuldades e alegrias.”

Ainda segundo Anderson, o devocional ajuda a promover um melhor relacionamento entre os funcionários, além de transmitir conceitos de paz, amor, cordialidade, responsabilidade e fraternidade aos que ali trabalham. “O Senhor faz a obra. Somos apenas instrumentos.”
Em Vila Velha, na indústria de confecções Mar Vermelho, a prática da oração é exercida também todas as manhãs, antes de iniciar o horário do expediente. Shirley Goldner é uma das responsáveis pelo momento. “Estou na empresa há pouco tempo, mas o devocional acontece há muitos anos. Participam em média 15 pessoas todos os dias.”

O grupo ora pelo dia e por cada um, não se esquecendo de interceder pela sociedade como um todo. “Oramos para Deus abençoar nossas famílias, nossa sociedade e também pelos que sofrem. Todos precisam de oração e consolo sobre algum aspecto de sua vida. Atualmente, com a catástrofe que ocorreu no Japão, por exemplo, temos orado para Deus confortar aquele povo.”

Os momentos de oração vividos diariamente estimulam o desejo de aprender mais sobre Jesus. “Fazemos uma oração de inclusão, em que todos podem participar. Ações como esta, mesmo simples, alcançam um coração aflito que aos poucos se abre para Jesus”, disse Shirley.

A missão

O Reino de Deus não está restrito às paredes de um templo, está dentro de cada um de nós (Lc 17.21). A Igreja não pode esquecer que é embaixadora da parte de Cristo na Terra (II Co 5.20).  “Somos a boca de Deus para esta geração. Se nós que conhecemos o amor de Deus não falarmos dEle, quem falará?”, questiona a pastora Andressa Santos.

A inabilidade de lidar com pessoas de religiões diferentes no ambiente de trabalho, como citado no início desta matéria, pode ser resolvida a partir de uma dica simples, como informa o pastor Severino José Quirino: “Em primeiro lugar, o cristão deve ser um bom funcionário. Não adianta pregar, não usar palavras de baixo calão,dizer que é crente e não possuir a reputação de ser um bom funcionário. Além disso, é preciso propagar a sua fé respeitando as pessoas, sem colocar-se acima dos outros.”

O pastor Severino orienta que o crente deve ser equilibrado em sua maneira de falar do Evangelho. “Pregar não é a mesma coisa do que impor as nossas crenças. Não podemos negociar os nossos princípios, mas devemos respeitar o próximo, pois amor e respeito andam lado a lado.”

Charles Serra, que vive essa realidade em seu local de trabalho afirma que se a pessoa mostra boa vontade em ouvir, convém discorrer sobre o plano de salvação. “Mas se há alguma resistência, o crente deve ter sabedoria no trato e nas palavras. O mínimo descuido pode prejudicar o relacionamento.”

Nosso testemunho evangeliza todos os dias. Somos observados e a forma como nos diferenciamos mostra o amor de Cristo, servindo como atrativo para novas oportunidades de conversão.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.