Perfil de quem aguarda adoção mudou

Os abrigos estão lotados de crianças à espera de adoção. Além de casos de abandono pela mãe, há menores que foram vítimas de abuso sexual, meninas que engravidaram do próprio pai, crianças que tiveram todos os irmãos adotados e se sentem rejeitadas porque não foram escolhidas por uma família substituta. Há também os adolescentes que foram separados dos pais após inúmeras agressões físicas. Outros foram adotados e, depois, devolvidos pelas famílias substitutas sem explicações.

O perfil de quem está em abrigo mudou nos últimos dez anos. Antes, a questão econômica era a principal causa da separação de pais e filhos.

Hoje, a violência doméstica – inclusive o abuso sexual – lidera o número de ocorrências, seguida pelo abandono provocado pelo vício em drogas. Esse é um retrato que se reflete em todo o país.

O coordenador dos abrigos da Liga Solidária, Mariano Gaioski, explicou ao G1 que a mudança nesse perfil teve início em 2006. ?Estamos vivendo agora a plena transição da mudança do público das crianças abrigadas. Com a melhoria da renda média, as características delas mudaram. A questão econômica ainda existe, mas os casos de traumas sociais e emocionais pesados superaram essa condição. São casos de abuso sexual, pedofilia e maus-tratos?, disse.

De acordo com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo (SMADS), há 2,3 mil vagas para crianças na rede de instituições conveniadas. Dessas vagas, 3,3% são ocupadas por vítimas de violência sexual. A prefeitura informou que nos Núcleos de Proteção Social Especial, voltados para atender menores vítimas de abuso e suas famílias, são atendidas em média 1.000 pessoas por mês.

Drogas

Além dos maus-tratos e do abuso sexual, as drogas ganham cada vez mais espaço entre as razões para separação de pais e filhos. Há crianças que são abandonadas pelos pais viciados, mas também ocorrem situações em que os próprios adolescentes são viciados.

O secretário de Assistência Social e Desenvolvimento Humano de Cuiabá, Jader Martins Moraes, contou ao G1 que também percebeu mudanças no perfil das crianças abrigadas na cidade. ”Além das vítimas de violência, temos o problema dos adolescentes usuários de drogas”.

”A família acaba querendo entregar esses jovens para a tutela do estado, porque não tem condições de cuidar. Mas esse é um problema de saúde, não de assistência social”, afirmou. Ele ainda explica que, em Cuiabá, existe um abrigo específico para manter as vítimas de violência sexual, que passam por tratamento diferenciado.

Já o uso de drogas pelos pais é uma das principais causa do abandono de crianças em Vitória, conforme explicou a secretária Municipal de Assistência Social, Ana Maria Petronetto Serpa. ”Aqui, nós temos os órfãos do crack. O abrigo de 0 a 6 anos está lotado de crianças que são separadas da família por causa das drogas. A negligência dos pais também é causada pelo consumo de drogas lícitas, como o álcool”, afirmou.

A secretária de Cidadania e Assistência Social de Rio Branco, Estefânia Pontes, relatou que houve um aumento no número de crianças que param em abrigos após sofrer violência sexual. ”Uma grande quantidade de crianças sofreu abuso, mas também temos jovens que são vítimas de exploração sexual, às vezes até pela própria família. Nos últimos três anos, esses casos de exploração começaram a se tornar muito frequentes. Antes, eram acontecimentos pontuais, em que fazíamos um trabalho individual, conversávamos diretamente com a família. Hoje, isso não é mais possível, está generalizado”.

Estefânia ressalta também que muitas mães abandonam os filhos durante os fins de semana por causa das drogas. ”São casos de abandono temporário. Nesses dias, a chefe de família deixa até os filhos pequenos sozinhos por causa da dependência química. Também temos casos de jovens dependentes, que evadem constantemente dos abrigos para consumir drogas. É um perfil recente e temos tentado discutir formas de fazer uma abordagem diferenciada para atender esses jovens”.

Fonte: G1

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