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terça-feira, 21 setembro 2021

Zé evangelista versus João sagrado

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A vida seguia tranquila, com problemas suficientes para os próximos 100 anos, mas, Zé Evangelista e João Sagrado resolveram produzir mais um

Por Atilano Muradas

Dois pesos pesados, que, ao invés de serem parceiros, insistem em travar uma luta de boxe para decidir sobre o que é sagrado e o que é profano. O Juiz nem quis comparecer, pois todo mundo já sabia o final inglório dessa batalha. Porém, os desafiantes insistiram em lutar. O público presente e os internautas, então, tiveram que ser os juízes.

O primeiro round foi surpreendente, com João Sagrado partindo pra cima, descendo a lenha: “Crente não pode ouvir música secular”. Zé Evangelista respondeu com um esquerdo bem no olho: “Então, cristão nenhum mais poderá entrar em supermercado, lojas, escolas, ir ao teatro, assistir TV, pois em todos esses espaços toca-se música secular. Melhor ser surdo, então!”. O golpe foi tão bem dado que o adversário caiu no chão… 1… 2… 3…, mas, se levantou, e atacou com “fúria pertinaz”, como diria Lutero: “Por trás das notas musicais está o espírito de Satanás”. Esse foi o típico soco que veio com o braço esticado e o estômago vulnerável. O troco foi fácil: “Então, me mostre uma nota dó profana e uma nota dó secular. Prove-me que uma nota musical por si mesma é capaz de demonstrar algum espírito. O que torna uma música de Deus ou de Satanás é a sua letraaaaaaa…” – e socou de novo. Primeiro round terminado, João Sagrado deitado sobre as cordas, com a língua pra fora, enquanto Zé Evangelista agradecia os aplausos e os coraçõezinhos liberados na rede.

O segundo round começou com os dois adversários dando pulinhos, tentando encontrar um caminho para vencer. Com tanto assunto importante, vidas precisando ser alcançadas com o evangelho, gente sofrendo, e esses dois lutando por uma causa inútil… Dessa vez quem atacou foi Zé Evangelista: “Todas as pessoas, cristãs e não cristãs, são capazes de adorar a Deus. A graça divina nos permite isso”. João Sagrado, julgando ser falta de conhecimento bíblico, deu logo um possante soco no fígado de seu oponente: “Você não conhece a Bíbliaaaaa. Toma!!!. Em João 4.24, Jesus afirma que ‘Deus procura adoradores que o adorem em Espírito e em verdade’. Ou seja, somente os cristãos podem adorar a Deus de verdade porque têm o Espírito Santo”. Zé Evangelista colocou a mão sobre a barriga… tentou respirar… conseguiu… e deu a réplica num momento de distração do seu opositor, que se vangloriava junto ao público. “Pois, saiba você, que Salmos 150.6 afirma que todo ser que respira é capaz de louvar ao Senhor. Ou seja, desde a ameba, que só tem uma célula, até nós, os seres mais complexos da natureza, somos todos capazes de louvar a Deus”. O golpe foi tão bem dado que João Sagrado ficou no chão até o número 8, contado pela plateia em coro de quatro vozes. Não fossem seus aliados gritando “levanta, levanta…”, a luta teria acabado ali mesmo.

Os rounds seguintes foram avassaladores, com João Sagrado soltando versículos sobre santidade, e também sobre trevas não ter comunhão com a luz, enquanto, Zé Evangelista, levantava a bandeira da necessidade dos cristãos serem sal e luz em meio a uma geração corrompida. Zé Evangelista, aliás, é favor de músicos cristãos fazerem parcerias com músicos seculares, para que se criem oportunidades para o evangelismo. Por essa ideia ele quase perdeu a luta, pois a plateia se dividiu. Zé, inclusive, levou murro até de expectadores, a quem respondeu indignado, gritando e socando o ar: “Curioso. Por que eu não posso fazer parcerias? Vocês empresários, fazem sociedade com incrédulos, pessoas de outras religiões, e ninguém fala nada! Até a Igreja se vale de inúmeros profissionais não cristãos para subsistir, os músicos gravam em estúdios seculares, colocam suas músicas em plataformas não cristãs, recebem verbas de prefeituras… Hi-po-cri-si-aaaaaaa total!!!!”. Aí, João Sagrado tentou revidar. Veio com um papo de consagrar estúdios, músicos e instrumentos, mas não colou muito, não. O que colou, mesmo, foi a cara dele na lona. Depois, Zé lhe acertou um certeiro golpe que jogou João pra fora do ringue, e a anarquia se instalou. Nesse momento, Satanás e seus anjos ficaram em êxtase, liberando milhões de coraçõezinhos!

João e Zé apanharam bastante, ninguém ganhou a luta, o público invadiu o ringue, e o que se viu foram pernadas, socos, pontapés, versículos bíblicos, gente vomitando, gritos, palavrões, maldições, e mais versículos, falta de educação, rompimentos, separações, e ainda mais versículos… Eu não falei que a luta seria inglória?

Ninguém me confirma, mas ouvi dizer que os dois lutadores saíram pelos fundos do ginásio bem de fininho; alguém viu. Eu soube também que eles estão bolando uma música nova em parceria; não sei. Com toda essa publicidade, acho que vai vingar! Mas, se essa moda pega… ai, ai, ai!!!

ATILANO MURADAS é pastor, jornalista, teólogo, músico, compositor e escritor com vários livros publicados.

 

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