“Igrejas brasileiras precisam de menos emoção”

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A declaração é do teólogo William Lane Craig. Ele acredita que com a apolegética é possível corrigir teológicos ensinados no Brasil

Debatedor hábil, autor profícuo e pensador rigoroso, William Lane Craig faz parte de uma geração que conseguiu recolocar a discussão a respeito de Deus sobre a mesa nas faculdades de filosofia.

Ao mesmo tempo, ele acumula milhões de visualizações com seus vídeos no YouTube.

O filósofo americano, que acaba de completar 70 anos, é doutor pelas Universidades de Birmingham, na Inglaterra, e de Munique, na Alemanha. Além disso, leciona na Universidade Biola, na California, e na Universidade Batista do Texas.

William Lane Craig é o mais influente filósofo cristão da atualidade. Ele conversou com a Gazeta do Povo. Confira entrevista!

Quais os sinais de que a crença em Deus já não é anátema na academia como no passado?

William Lane Craig – Existe agora uma minoria significativa de filósofos no mundo anglo-americano. Eles são ao mesmo tempo abertamente cristãos e professores altamente respeitados de algumas de nossas maiores universidades. Filósofos cristãos estão atuando em conferências profissionais e ocupando postos de comando. Eles publicam de forma profícua em publicações acadêmicas de ponta, como a Oxford University Press e a Cambridge University Press. Manuais de filosofia da religião estão em alta, um sinal do grande interesse de parte dos estudantes no assunto. Novas associações profissionais para a promoção da filosofia cristã, como a Sociedade de Filósofos Cristãos e a Sociedade Filosófica Evangélica, têm milhares de membros. Diversas novas revistas acadêmicas dedicadas à filosofia da religião têm sido fundadas, como Faith and Philosophy, Philosophia Christi, Religious Studies, International Journal for Philosophy of Religion, e assim por diante. O número de estudantes cristãos em cursos de pós-graduação em filosofia foi estimado em 50% acima do dos atuais filósofos cristãos, o que traz boas perspectivas para o futuro.

Mas a crença em Deus parece estar em um declínio acelerado em todo o mundo desenvolvido, especialmente em países onde as pessoas têm mais acesso ao ensino superior. Por quê?

Isso não é verdade, como o exemplo dos Estados Unidos mostra claramente. A nação mais rica e poderosa no mundo hoje também é a nação com o maior número de cristãos e é a sociedade mais evangelizada da Terra. Vinte e dois por cento dos evangélicos do mundo vivem nos Estados Unidos, e a vitalidade, diversidade e tamanho das organizações e atividades cristãs aqui são quase indescritíveis. Os EUA foram o principal veículo para levar o Cristianismo ao resto do mundo no último século: 35% dos missionários do planeta são dos Estados Unidos e 76% das contribuições financeiras de evangélicos vêm dos Estados Unidos. Mesmo na Europa, a situação não é tão óbvia. Um estudo feito pelo sociólogo Egbert Ribberink, da Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, revelou que, em países predominantemente seculares, o ateísmo atrai principalmente as pessoas com menos educação, enquanto pessoas com nível educacional mais elevado tendem a ver o ateísmo como algo muito raso e militante. Assim, Ribberink conclui que a visão de que a crença religiosa é irracional e morre assim que as pessoas adquirem uma mentalidade mais científica “não se coaduna com os nossos resultados”.

Como podemos ter livre-arbítrio?

O argumento pelo fatalismo teológico baseado na presciência de Deus é uma falácia lógica. Ele se apresenta assim: 1) – Necessariamente, se Deus tem presciência de x, então x vai acontecer. 2) Deus tem presciência de x. 3) Portanto x vai necessariamente acontecer. Esse argumento comete uma falácia comum na lógica modal. O que se segue de forma válida de 1 e 2 no argumento acima não é o que a conclusão 3 afirma, e sim esta: 3*) Portanto, x vai acontecer. 3*) é totalmente compatível com o acontecimento de x de forma livre e contingente. Apesar do fato de que x vai acontecer, seria possível que não acontecesse. Mas, se na verdade x não fosse acontecer, então Deus teria uma presciência diferente da que Ele têm. Eu escrevi muito sobre esse tema no meu livro Filosofia e Cosmovisão Cristã (São Paulo: Vida Nova, 2005).

Você costuma apresentar cinco argumentos principais em favor da existência de Deus. Poderia apresentar o que considera o mais forte deles ou pelo menos o que tem mais apelo para o público em geral?

O argumento que acredito ser o mais forte é o chamado argumento cosmológico kalam, que é o seguinte. Tudo o que começa a existir tem uma causa. O universo começou a existir. O universo tem uma causa. Tendo alcançado essa conclusão, pode-se, então, fazer uma análise conceitual de quais propriedades essa causa precisa ter, mostrando, assim, que existe um Criador do Universo que é um Ser não-causado, sem começo, atemporal, fora do espaço, imaterial, grandemente poderoso e pessoal. Esse argumento, entretanto, não é o que mais apela ao público geral. Nesse quesito, citaria o argumento moral, que é o seguinte. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem. Valores e deveres morais objetivos existem. Logo, Deus existe. Este argumento é muito persuasivo porque é impossível ignorar suas premissas. Você pode ignorar, se quiser, os argumentos filosóficos e científicos em favor da origem do Universo. Mas todos os dias, ao acordar, você reage pela forma como trata outras pessoas, analisa se elas têm valor moral objetivo ou se são meramente meios para serem usados para os seus fins pessoais. A maior parte das pessoas acredita nas duas premissas do argumento moral. Elas apenas não juntaram os pontos.

Muitos de seus argumentos também poderiam ser usados para defender as outras duas principais religiões monoteístas: o Islamismo e o Judaísmo. Como é possível, de forma racional, sustentar especificamente a crença no Cristianismo?

O que separa o Cristianismo das outras duas grandes fés monoteístas é a visão que elas têm de Jesus. Nem o Judaísmo nem o Islamismo aceitam a historicidade da Ressurreição de Jesus. Escrevi minha tese de doutorado na Universidade de Munique sobre esse tema e descobri, para minha surpresa, que os fatos centrais que baseiam a inferência sobre a Ressurreição de Jesus são aceitos hoje pela maioria dos pesquisadores da história. São eles: (1): Depois do sepultamento por José de Arimateia, o sepulcro de Jesus foi encontrado vazio por um grupo de discípulas no primeiro dia da semana; (2) Vários indivíduos e grupos de pessoas, em ocasiões separadas e sob circunstâncias diversas, presenciaram aparições de Jesus vivo depois de retornar da morte; e (3) Os primeiros discípulos passaram a acreditar, repentinamente e de forma sincera, que Jesus havia retornado dos mortos apesar de terem toda a predisposição para crer no contrário. Esses são os fatos. A única dúvida é a melhor forma de explicá-los. Acredito que a melhor explicação é a que os discípulos originais apresentaram: Deus trouxe Jesus de volta do meio dos mortos. E, se isso é verdade, então Deus validou de forma pública e sem ambiguidade as afirmações radicais de Jesus sobre si mesmo, pelas quais as autoridade judaicas o rejeitaram como um blasfemo.

Você acredita que existe um núcleo de crenças do Cristianismo ou “mero Cristianismo”, nas palavras de C.S. Lewis, compartilhado pela maioria das igrejas e apesar de diferenças teológicas?

Ah, sim, e esse tem sido o meu foco! As crenças centrais do Cristianismo incluem a existência de Deus, a divindade de Cristo, sua morte expiatória pelos nossos pecados e sua Ressurreição. Focando nessas doutrinas centrais, meu trabalho tem sido apreciado e usado por católicos, protestantes, ortodoxos e coptas ao redor do mundo.

Existe alguma verdade nas afirmações de que a Bíblia não é confiável como fonte porque foi modificada pela Igreja?

Não, isso é uma bobagem. Aprendi hebraico e grego para ler a Bíblia nas línguas originais nas quais ela foi escrita. Temos, nos manuscritos, provas abundantes em favor do Novo Testamento que excedem a de qualquer outro livro antigo, tanto no quesito número de manuscritos quanto no que diz respeito à proximidade desses manuscritos com os documentos originais. Quando lemos o Novo Testamento hoje podemos ter certeza de que 98% das palavras são as mesmas que foram originalmente escritas, e os trechos que permanecem duvidosos são triviais (como a diferença entre “seu” e “nosso”) e não afetam qualquer doutrina cristã.

Você ainda está disposto a debater com Richard Dawkins? Por que acha que ele se recusa a entrar em um debate com você?

Claro! Na verdade, nós estivemos em um debate com seis pessoas juntas há alguns anos na Cidade do México. O debate está disponível no YouTube. Uma fonte confiável me disse que a relutância de Dawkins em debater comigo não tem nada a ver com a minha pessoa. É que ele se recusa terminantemente a debater com um filósofo. A filosofia é uma disciplina com a qual ele não é familiarizado, então acredito que a recusa dele é algo sábio da parte dele.

As igrejas evangélicas têm crescido de forma impressionante no Brasil, atraindo membros da grande população de católicos nominais. Ao mesmo tempo, muitas dessas novas igrejas não parecem ter uma teologia sólida, enfatizando aspectos emocionais ou materialistas da religião. Você vê nisso uma ameaça grave ao Cristianismo tradicional?

Considero o chamado “evangelho da saúde e da riqueza” uma série ameaça ao Cristianismo no Brasil, já que ele é uma distorção terrível do Cristianismo bíblico. Portanto, estou determinado a fazer tudo o que posso para trazer recursos educacionais para os cristãos no Brasil poderem oferecer treinamento em doutrina cristã e apologética. Alguns dos meus livros foram traduzidos para o português no Brasil e nós criamos uma versão em português de todo o nosso website, assim como da nossa página do Facebook e nossos vídeos no YouTube. Ao longo deste século, o Brasil está destinado a emergir como uma força geopolítica e cultural e é importantíssimo que os cristãos do Brasil estejam à altura do desafio.

Você teme que focar demasiadamente nos aspectos racionais da fé pode acabar afastando as pessoas da necessidade de uma experiência pessoal e genuína com Deus?

Não, porque a balança tem pendido muito na outra direção recentemente. Em particular, ouvi relatos de que a igreja evangélica no Brasil tende a ser muito movida pela emoção, então um contrapeso é uma necessidade urgente. Eu espero contribuir para esse equilíbrio.

*Entrevista extraída de Gazeta do Povo e adaptado por Comunhão


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