Você tem medo de morrer?

O fim da vida aterroriza a muitos. O medo do desconhecido, da separação e do castigo é uma realidade doída a ser enfrentada

Por Lilia Barros

A curiosidade acerca do sobrenatural e metafísico sempre existiu. Mas, quando o tema é a própria morte, mudamos de assunto, fingimos que não é conosco ou que falta muito tempo para esse dia chegar. A máxima de que “a única certeza da vida é a morte” atinge pessoas de qualquer religião ou fé. E não adianta fugir; mais cedo ou mais tarde ela baterá à porta.

Diante dessa realidade tão dura e perturbadora, como reagir? Sabemos que estar vivo na terra é transitório, um estágio, mas como enfrentar a nossa hora? E você, tem medo de morrer? Esse tema assusta-o? Quando alguém lhe lembra de que o destino comum e inevitável é a nossa partida deste mundo, de que jeito lida com o fim da própria existência?

 

“As pessoas têm medo de morrer pelo natural instinto de querer viver. Creio que é algo humano” – Fernando Arêde, pastor e missionário

 

Na iminência da morte, quando as crenças se encontram com a realidade da finitude da vida, há conflitos se a pessoa não estiver bem resolvida. É por isso que Comunhão traz esse tema a partir da visão cristã tratada pela Palavra de Deus. Nossos entrevistados falam do preparo para esse acontecimento e até ensinam a morrer sem medo, ou pelo menos ajudam a encarar a interrupção do fôlego da vida em seu organismo.

A proposta é que você aprenda a transformar o momento do último suspiro numa boa hora de partida. Ou vai preferir interromper essa reflexão e continuar fugindo das dúvidas e mal-estar naturais provocados por esse fenômeno para o qual não fomos criados?

Medo como aliado

O medo, segundo o psiquiatra cristão Pérsio Ribeiro, é o primeiro sentimento ou reação instintiva que se desenvolve no ser humano, “mas com o amadurecimento, ele vai se tornando um importante aliado para prepará-lo para situações de ameaça. Então, ter um medo excessivo pode se tornar uma patologia ou uma doença. O medo existe para nos defender, e não para nos escravizar”.

“Ter um medo excessivo pode se tornar uma patologia ou uma doença. O medo existe para nos defender,
e não para nos escravizar” – Pérsio Ribeiro, psiquiatra cristão

Mas quando o caso é a morte é mais complicado. Enfermeiro assistencialista de um hospital de referência em cuidados paliativos para doentes terminais no Espírito Santo, Pedro Miguel Diaz, também presbítero na Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, afirma que, diante da impotência da medicina para curar certas doenças, muitos são internados com sentença de morte decretada. E alguns pacientes estão conscientes disso, apenas aguardando esse momento.

“Imaginem só a dimensão de questionamentos, de relatos ouvidos e experiências de vida com familiares e acompanhantes no hospital. Eu oro e converso com as pessoas ensinando-as a morrer. Essa questão da morte é um enfoque muito particular e pessoal. Tenho visto homens de altas posições que viveram de forma regalada, em condições de alto padrão de vida, caírem na desgraça da doença que os obriga a ficarem internados até seus últimos dias. Também tenho visto pessoas se recuperarem, surpreendentemente, quando todos esperavam seu último suspiro”, destaca.

Diaz enfatiza a responsabilidade em confortar. “Nosso papel é priorizar medidas de conforto principalmente porque muitos deram glórias à criatura, e não ao Criador, e a própria consciência os acusa. Isso é terrível, pois são só angústia e aflição interna, às vezes visível na expressão facial dos desenganados e de muitos defuntos, apesar da maquiagem”, testemunha o enfermeiro.

“As pessoas têm medo de morrer pelo natural instinto de querer viver. Creio que é algo humano” – Fernando Arêde, pastor e missionário

A ideia do desamparo, do desconhecido, da separação, do castigo e da dor física aterroriza a muitos, em particular aos que não nasceram de novo nem experimentaram a verdadeira conversão. Nas palavras do salmista, a hora da morte está determinada por Deus (Sl 139:16), mas, segundo o profeta Ezequiel, o Senhor não deseja a morte de quem não O conhece. “Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho” (Ez 33:11).

 

“A morte é um sentimento doído, um distanciamento dos familiares e da perda das alegrias vividas na terra” – Denise Vasconcelos, funcionária de pronto-socorro psiquiátrico

 

Denise Vasconcelos, apesar de não lidar diretamente com a morte dos pacientes, trabalha em um pronto-socorro psiquiátrico com pessoas que passam por um alto grau de desequilíbrio e estão no auge de seus transtornos. Mas, em relação à morte, ela se posiciona considerando a experiência de quem está prestes a falecer.

“Minha visão da morte é uma questão bíblica. A gente acredita na vida eterna, mas lida com pessoas que, embora tenham conhecimento dessa informação, não têm a fé necessária para vivenciar esse momento com tranquilidade. A gente considera que a morte é um sentimento doído, um distanciamento dos familiares, das coisas que lhes davam status, a perda das alegrias vividas aqui com familiares e amigos ou relacionamentos afetivos. E trabalhamos a questão da esperança nelas”, detalha Denise.

Talvez seja essa a certeza que estimula pessoas como Pedro Miguel e Denise a seguirem na missão de aliviar a dor e levar uma mensagem de esperança para quem ainda tem tempo de mudar seu destino eterno e fazer o que diz o jargão: “Partir desta para uma melhor”. O apóstolo Paulo afirmou que partir significava estar com o Senhor (Fp 1:23-24) e que era melhor estar ausente do corpo e presente com o Senhor (2 Co 5:6-9).

O medo que salva

A morte assusta a todos. Justos, ímpios, cristãos ou não, bons e maus. Diante dela, tomamos consciência de nossa fragilidade. Mas, para não sermos facilmente acometidos por incertezas, o que precisa ser compreendido é a canalização correta do medo. Muitos não compreendem a transitoriedade de sua existência e temem mais o fim da vida física do que a morte eterna. “E, não temais os que matam o corpo, mas não têm poder para matar a alma. Temei antes, aquele que pode destruir no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10:2).

 

“Angústia e aflição interna são visíveis na expressão facial dos desenganados pela medicina” – Pedro Miguel Díaz, enfermeiro assistencialista e presbítero na Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória

 

O pastor Raphael Paulo Scotelaro, do Rio de Janeiro, viu de perto a morte: “Certa vez fui assaltado. Lembro-me do assaltante gritando que iria me matar, inclusive me perguntando ‘onde eu queria levar o tiro’. Naquele momento fiquei com medo sim, não nego, mas em meu coração eu estava orando: ‘Pai, entrego a Ti meu espírito, leva-me em paz’. Isso me deu calma e, quando me dei conta, os bandidos já estavam indo embora. Tive medo, mas não pavor. Orei ao Senhor depois do assalto muito chateado, mas sem perder a fé e a esperança. Continuei no ministério, e isso não me tirou o prazer de viver nem acrescentou o medo da morte. O crente é alguém esperançoso e que deseja muito viver plenamente em Cristo”.

Os que praticam a fé cristã têm essa paz e esperança nas promessas de vida eterna em Cristo, entendendo que, ainda que estejamos neste mundo, não somos do mundo (Jo 17:14), mas retornaremos para junto do Pai, reconciliados em Jesus (Jo 14:3). Porém, até mesmo para estes, quando o medo se torna doentio, nesse caso é questionável sua fé. Ainda assim não podemos julgar. “Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu próprio Senhor, ele está em pé ou cai. Mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar” (Rm 14:4).

Fé no alívio do medo

O psiquiatra Pérsio Ribeiro argumenta que quem escolhe Jesus Cristo goza de uma vida eterna de paz e por isso não há o que temer. “A Bíblia oferece um modelo de cosmovisão no qual está contida a vida após a morte. Essa ‘nova vida’ é sem sofrimentos, sem lágrimas, sem medos, uma vida plena em paz e completude existencial, então porque ter medo?”

O pastor e missionário Fernando Arêde, do Rio de Janeiro, defende a que as pessoas têm medo de morrer pelo natural instinto de querer viver. “Creio que é algo humano. Mas também por não saberem o que vem depois da morte. Creio que todos podem ter medo de morrer (muito ou pouco), inclusive o cristão, pela fé ou confiança em Deus, muitas vezes oscilante. Particularmente, não gosto da ideia, mas não me assusta”, afirma.

Miguel ressalta que “o medo do fim pode ser natural, mas a morte é antinatural e não deveria existir. Ela se manifestou por consequência do pecado, representando o término da vida que se perdeu no Éden, quebrando o relacionamento de comunhão com o Criador”.

“No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3:19). Assim, todos os descendentes de Adão e Eva passam pela morte física, o que inclui cada um de nós. “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5:12).

Essa separação é a maior tragédia da humanidade, e o próprio Senhor Jesus Cristo pediu ao Pai que passasse de si esse cálice (Lc 22:42). Ao experimentar a proximidade de Sua morte, declarou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparastes?” (Mt 27:46).

Esse raciocínio bíblico é compartilhado pelo enfermeiro Pedro Miguel. “Todos podem temer a morte, pois o instinto de preservação está impresso na genética do homem. Logo, é normal ter medo, até porque isso contribui para preservar a vida. Ninguém sadio está preparado para morrer. É Deus quem nos prepara para enfrentar essa realidade”.

O missionário Fernando Arêde exemplifica essa verdade. “Conheci uma senhora que morreu de infarto agudo no miocárdio e ficou falecida por uns 45 minutos. Quando voltou, disse que não sentiu absolutamente nada. Era como se ela tivesse apenas piscado os olhos. Essa senhora era minha mãe, que veio a falecer, de novo, oito anos depois”, conta.

Cada um encara as situações e circunstâncias que levam à morte física de uma forma diferente. Mas existe uma diferença profunda entre aquele que crê e o que não crê em Cristo como Salvador e Senhor. A distinção se dá com um segundo tipo de morte: a espiritual. Entretanto, desta podemos fugir porque Jesus Cristovos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecado” (Ef 2:1).

Tanto o enfermeiro Pedro Miguel quanto o missionário Fernando Arêde lidam diretamente com a temática da mortalidade.

Para Arêde, reconstruir valores na vida de quem está morrendo é um processo lento no qual a prática do amor ao próximo é fundamental (Gl 5:22-23). Pedro Miguel apela para que as igrejas se qualifiquem à capelania hospitalar, resgatando vidas ainda que na última hora.

Afinal, embora o Estado seja laico, o cidadão não é e tem direito a viver sua fé no âmbito hospitalar, pois há legislação específica que lhe concede esse direito. Um direito que pode ser decisivo nas horas finais de sua vida, ou iniciais…


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