Você acredita em azar?

Se você acredita em forças aleatórias, que conduzem o destino das pessoas, como conciliar a soberania de Deus com o acaso? Você acredita no azar?

Por Lília Barros

Quem nunca foi surpreendido ao observar certas coincidências entre um objeto e acontecimentos desagradáveis em sua vida, ao ponto de acreditar que tal material seja o motivo desse azar? Ou simplesmente teve a má-sorte de passar por debaixo de uma escada ou esbarrar com um gato preto cruzando a rua e, no mesmo dia, receber uma notícia negativa?

Essas associações são coincidências ou verdades? São prenúncios do além ou mitos e lendas urbanas e rurais, transmitidas através de tradições culturais ou individuais?

Você acredita em azar?

O conceito de azar, popularmente conhecido como “urucubaca”, causadora de desgraças, existe tanto no mundo ocidental, como no oriental. Está ligado à crendice popular, especialmente em torno do mês de agosto, quando muitos chegam a rimar: “Agosto, o mês do desgosto”.

Superstições não escolhem religião, nacionalidade ou formação acadêmica de quem se pretende impressionar com presságios, sinais ou fortuitos. O oitavo mês do ano é considerado culturalmente um tempo de má-sorte, sendo o dia 13 o mais azarado do calendário, principalmente se cair numa sexta-feira.

A conotação que se dá aos contratempos com resultados desastrosos e contrários às expectativas da pessoa, rotulando-a de azarada, tem sido passada de pai para filho. E, sem questionar, as pessoas alimentam as velhas fábulas de geração em geração.

“Quem acredita nisso procura maneiras de manipular essas forças, por meio de magias e amuletos” Ozias Riberio, pastor batista

Estudante de Psicologia e reverendo da Igreja Presbiteriana Unida, de Vitória (ES), Bruno Almeida de Oliveira avalia que, embora a crença popular tenha surgido primariamente da superstição, não se pode negar o sincretismo religioso existente no Brasil: “Há pessoas que se dizem cristãs e acreditam em ‘olho gordo’, ‘mau-olhado’, ‘simpatia’ e “talismã da sorte’. Infelizmente há um grande mercado da fé, e muitos líderes têm usado dessa lacuna para vender o milagre, fazendo do púlpito um balcão; da Palavra de Deus, uma mercadoria barata; e da igreja, um lugar de mero entretenimento. É preciso voltar urgentemente à pregação fiel das Escrituras. Para mim, particularmente, o número 13 é uma bênção! Eu e o meu filho, Bruno Filho, nascemos no dia 13 de abril. Fui ordenado ao ministério pastoral no dia 13 de dezembro, e Deus tem abençoado o meu ministério grandemente. Somos muito felizes em Jesus”, destaca.

Historicamente, o oitavo mês do ano recebeu o nome de agosto dos romanos em homenagem ao imperador Augusto, após este conquistar o Egito e ser elevado ao status de cônsul. “Etimologicamente, a palavra azar vem do árabe ‘sahr’, ‘flor’, pois uma das faces dos dados árabes tinha o desenho de uma florzinha. Em espanhol, essa palavra tem uma conotação diferente da nossa; quer dizer ‘acaso’, sem definir se é bom ou mau. Em Portugal, país que nos colonizou, no mês de agosto as caravelas saíam para as grandes navegações, e as mulheres ficavam sozinhas. Foi a partir de então que nasceu o ditado popular que diz: ‘Casar em agosto traz desgosto’”, esclarece o pastor Bruno.


Azar pelo mundo

Na China, o 4 é o mais temido entre os números de azar. Conforme a cultura local,
a pronúncia do algarismo é semelhante à da palavra morte. O preconceito com o 4 é tamanho que em muitos lugares o numeral é omitido, como nos andares dos elevadores, nomes de ruas e números de casa.
Na Itália, o número que ninguém quer é o 17, já que em algarismos romanos ele é escrito como XVII. Para os italianos, esse é um anagrama para VIXI, que em latim significa “vivi”. Esse escrito costumava ser gravado nas lápides dos antigos romanos e, com o tempo, passou a lembrar a morte e a má-sorte.
Já no Japão, é o numeral 9 que não é bem-visto. O motivo, aliás, é bem parecido com a razão pela qual os chineses consideram o 4 e todos seus derivados números de azar: devido à pronúncia do nome do numeral. Isso porque, no Japão, 9 soa como “tortura”. Aliás, é comum que esse número não apareça em lugar algum quando o assunto são hospitais, por exemplo, para não atrair má-sorte.
E na Índia, o número do azar é o 26. Isso porque a cultura indiana é muito ligada à numerologia e, segundo contam, os dias 26 de diferentes meses durante cerca de 15 anos sempre foram marcados por tragédias gigantescas, como terremotos, tsunamis e terrorismo.
Para os americanos, o número 191 é um verdadeiro terror. E isso graças a várias tragédias envolvendo essa combinação de números de azar. Somente com relação a acidentes aéreos, já foram cinco grandes desastres envolvendo a marcação 191. A maior delas, aliás, foi em Chicago, no Aeroporto O’Hare, que acabou tirando a vida de 258 pessoas, sem contar a de duas pessoas em solo.
Nos Estados Unidos, a maioria das pessoas acredita realmente que o número
13 seja amaldiçoado. Jonathan Miller, que trabalha há 20 anos no mercado imobiliário americano, diz que, por causa disso, 85% dos prédios da cidade simplesmente pulam do 12º para o 14º andar. Muitos elevadores já saem da fábrica sem o botão do número 13.

Fonte: Pastor Bruno

Se a questão de má-sorte ou azar envolve acreditar em forças aleatórias, que conduzem o destino das pessoas, como explicar isso espiritualmente? Na avaliação do pastor Ozias Ribeiro, da Primeira Igreja Batista em Laranjeiras, Serra (ES), quem acredita nisso procura maneiras de manipular essas forças, por meio de magias (simpatias e oferendas, sal grosso, arruda…) ou utilização de amuletos (figas, pé de coelho, ferradura…).

“Um cristão entende que não há ação aleatória, mas que todas as coisas são direcionadas pela vontade de Deus. Ele é o condutor da história humana, tanto no âmbito geral, quanto no individual. Tal argumento é corroborado pelo texto bíblico: ‘Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam ao Senhor’. Dessa forma, o cristão aprende a conviver tanto com o sucesso, quanto com o fracasso, discernindo a vontade de Deus e o propósito espiritual por trás de tudo”, acrescenta o pastor Ozias.

Como resultado do medo e da tentativa de explicar o que não se conhece, criou-se ao longo da história da humanidade essa superstição, uma noção sem base na razão ou no conhecimento, o que levou a falsas obrigações, a temer coisas inofensivas, a depositar confiança em algo absurdo. Mas, se a própria narrativa bíblica traz vários exemplos de sorte ou azar, como explicar esse fenômeno sem contrariar a Palavra de Deus?

Sorte e azar na Bíblia

No mundo antigo, o ato de “lançar sortes” era uma forma comum de adivinhação ou também de se conhecer a vontade dos deuses. Havia várias maneiras de se fazer isso, porém a mais comum era a que empregava flechas de cores diferentes.

A Bíblia relata diversos casos em que Deus se valeu desse método para fazer prevalecer Sua vontade, uma vez que é Senhor até mesmo sobre as sortes: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda a determinação” (Pv 16.33).

No livro do profeta Jonas, Deus utiliza um grupo de marinheiros pagãos, com grande sentimento religioso, para fazer prevalecer Sua vontade, culminando com a conversão de todos após o mar se acalmar: “E diziam cada um ao seu companheiro: ‘Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por que causa nos sobreveio este mal’. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas” (1:7).

“As pessoas estão ficando alienadas em suas emoções e crenças” – Paulo Roberto Moreira, pastor no Ministério Libertadores

No Novo Testamento, no livro de Atos, essa prática também é citada uma vez, quando os apóstolos utilizaram o método para escolher o substituto de Judas Iscariotes, ato precedido de deliberação e oração: “E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias. E por voto comum foi contado com os 11 apóstolos” (1:26).

Após a descida do Espírito Santo, conforme o relato em Atos 2, nunca mais a Igreja precisou lançar sorte. O Espírito compelia os apóstolos e dava instruções claras de direção, de como fazer, de fuga e de encorajamento e proteção.

Depois do 666, intitulado de o número da besta, o mais famoso é o 13. Desde a antiguidade clássica, é o número do azar, o portador de coisas ruins. Nas Sagradas Escrituras, o capítulo 13 do livro do Apocalipse faz referência ao anticristo e à besta. Na última ceia, ocasião em que Jesus foi traído por Judas Iscariotes, estavam presentes 13 pessoas: o Salvador e Seus 12 apóstolos.


A superstição do Planeta

Brasil – Na virada do ano, pular sete ondas, comer sete uvas e fazer sete pedidos.
EUA – Ao ver um gato preto, há quem cuspa no polegar, esfregue o dedo na palma da mão e faz um pedido.
Bolívia – Bonecos de argila recheados com dinheiro ou outras coisas atrairiam esses objetos para os donos. Basta que um cigarro colocado aceso na boca dos bonecos seja “fumado” até o final.
Itália (Roma) – Cruzar com um grupo de freiras é sinal de extrema má-sorte.
Para superar o azar, os homens tocam as próprias partes íntimas.
Islândia – Se uma mulher grávida beber de um copo trincado, corre o risco de ter um filho com lábio leporino.
Rússia – Na virada do ano, é costume queimar um papel com um desejo escrito, colocar as cinzas num copo de champanhe e, então, tomar a bebida.
Malta – As igrejas com duas torres têm um relógio afixado em cada uma delas, só que os dois mostram horários diferentes, para que o diabo não saiba a hora certa da missa.
Tailândia – Quase todas as lojas são enfeitadas com um pênis de madeira, símbolo de fertilidade e riqueza. Os objetos, que podem chegar a 2 metros de comprimento, também decoram templos.
Japão – Moças escrevem o nome do sujeito no braço esquerdo e cobrem com um pedaço de esparadrapo por três dias. Uma semana depois, o cidadão estaria caído de amores pela garota.


 

Imprudência e escravidão

O pastor Paulo Roberto Moreira, do Ministério Libertadores, no Rio de Janeiro, afirma que cada vez mais as pessoas estão ficando “alienadas” em suas emoções e crenças. Estão depositando sua fé e vivendo uma vida pautada em historinhas e superstições por falta de conhecimento da verdade revelada na pessoa de Jesus Cristo.

“Apesar de não acreditar em ‘azar’, um ‘dia ruim’ ou uma ‘situação ruim’ podem ser consequências da desobediência aos princípios estabelecidos por Deus, imprudência em algo ou simplesmente uma fatalidade. É como se decidíssemos montar um móvel sem obedecer ao que está no manual de montagem.

Logo, se o móvel cair, não é ‘azar’, mas imprudência e desobediência nossa, pois não seguimos o manual. Ou alguém que sai de casa em seu carro e fura o pneu; isso não é ‘azar’ ou consequência de uma desobediência, mas apenas uma situação normal da vida que poderia acontecer com qualquer um.

Apesar do livre-arbítrio, do poder de escolha pessoal de cada um de nós, Deus possui comando soberano. Uma certeza corroborada na famosa frase ‘Nenhum fio de cabelo cai sem que Deus permita’, uma aliteração de Lucas 12:7: ‘Portanto, até os fios de cabelo da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Valeis muito mais do que milhares de pardais. Testemunhe sua fé ao mundo’”, afirmou.

“Há pessoas que se dizem cristãs que acreditam em ‘olho gordo’, ‘mau-olhado’, ‘simpatia’” – Bruno Almeida de Oliveira, pastor presbiteriano

Ele complementa: “Temos de saber discernir cada uma dessas situações que Deus permite que aconteça. Somos responsáveis pelo que plantamos e, consequentemente, pelo que colhemos. Abaixo da soberania de Deus, não há nada que fuja do controle dEle. Com Ele aprendemos mesmo nos dias ruins.” Muitos brasileiros consideram azar o contrário de sorte, especialmente, perder no jogo.

O reverendo Bruno teme pelos que fazem dos jogos de azar um vício. “Essa prática não representa os valores do Evangelho, porque busca o dinheiro de uma grande maioria para distribuir para uma minoria. Isso contraria o que nos ensina o Evangelho, que nos mostra a necessidade dos que têm mais repartirem com o próximo que tem menos, para que entre os santos não haja nenhum necessitado e para que a sociedade viva mais feliz. O problema não é o jogo em si, mas o que está por trás dele”, defende.

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”, e quem corre atrás do vil metal acaba caindo em muitas dificuldades (I Tm 6:9-10). A Bíblia ensina a sermos prudentes com os recursos financeiros e a pouparmos aos poucos (Pv 13:11).

Participar de jogos de azar não é prudente, pois são feitos para que o apostador não ganhe; as probabilidades estão sempre contra ele. Às vezes, ocorre uma vitória, que tem justamente o propósito de mantê-lo na jogatina. “É muito fácil viciar. O cristão tem liberdade para escolher, mas não se deve deixar dominar pelo vício (I Co 6:12)”, complementou.

O pastor Ozias alerta para o fato de que muitas vezes a crença em sorte ou azar se torna um instrumento de escravidão. “Algumas pessoas passam a ser prisioneiras dessas crendices de tal forma que definem suas ações e não conseguem se relacionar de maneira normal com outras pessoas e com as circunstâncias. Assim, vivem numa opressão constante.”

O aposentado Luiz Antônio se declara ateu e não acredita em azar ou má-sorte. “É a crendice que torna um acidente ocorrido numa possível interferência do mal, mas são fatos aleatórios, fator surpresa. Não há como nos preparar contra o fator surpresa.

Também tem a ver com a religiosidade, mas está diretamente ligado a hábitos e costumes criados pelo povo. São as crenças antigas, interesses políticos que foram usados para intimidar o povo, através de líderes políticos ou religiosos, e que sobrevivem até os dias de hoje, tendo o mesmo efeito aterrorizador.

As mais tradicionais são: sair sozinho na noite de sexta-feira 13 ou passar debaixo da escada. As modernas incluem beber e dirigir, atravessar a rua fora da faixa, galantear uma mulher casada e ostentar joias nos dias de hoje”, ironiza.

Na visão terrena, as coisas podem “acontecer ao acaso”, mas, ao longo de toda a Escritura, fica claro que Deus está no controle de Sua criação e, como soberano, não deixa espaço ao acaso, a crendices ou a forças aleatórias que pretensamente conduziriam o destino das pessoas.

Deus tem o controle e conhecimento de todas as coisas. “Portanto, até os fios de cabelo da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Valeis muito mais do que milhares de passarinhos” (Mt 10:30-31).


Dica de Leitura

O Fator Sorte
Autor Max Gunther
Editora Best Business

 

 

 

 

 

Bênção e Maldição
Jorge Linhares
Editora Getsêmani

 

 

 

 

 


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