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domingo, 17 outubro 2021

Violência doméstica: mulheres são silenciadas nas igrejas

“Por que os pastores que ensinam que mulheres têm que ser submissas, não ensinam que o marido tem que amá-la ao ponto de entregar a própria vida?”

Por Marlon Max 

Essa é uma das falas da autora do livro “O Grito de Eva”, que expõe casos de violência doméstica nas igrejas. Em março deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos divulgou que os canais Disque 100 e Ligue 180, do Governo Federal, registraram 105.821 denúncias de violência contra mulher no ano passado. Isso é o equivalente a cerca de 12 denúncias por hora. Esse crescente número ganhou força durante a pandemia, onde vítimas e agressores passaram a conviver por mais tempo juntos.

Dentro das igrejas o assunto ainda é tratado como tabu. Em geral, não se ouve ensinamentos ou repreensões sobre agressões domésticas, mesmo que elas existam em larga escala entre os evangélicos. O silêncio, o estigma e a falta de entendimento conduzem milhares de mulheres ao caminho de morte. Uma pesquisa, elaborada pela mestre em Ciência da Religião e doutora em Educação, História da Cultura e Artes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Valéria Vilhena, aponta que 40% das mulheres que sofrem violência domésticas, são evangélicas.

A escritora do livro “O Grito de Eva”, Marília de Camargo César, conta diversas histórias de mulheres evangélicas que sofreram algum tipo de abuso. “A gente sabe , por meio da pesquisa do Datafolha que, 60% das pessoas que frequentam igrejas no Brasil são mulheres, e majoritariamente são negras e pobres. Isso não significa que em outras classes não aconteça, mas a grande maioria das mulheres que frequentam igrejas e buscam ajuda dos pastores, são pouco instruídas, e obtêm como resposta: você precisa orar mais pelo seu marido”, expõe a jornalista e autora Marília de Camargo.

Para o teólogo, escritor e pastor da igreja Batista, Kenner Terra, que também é membro do Fórum Justiça e Liberdade, existe uma situação de normalização dos casos de violência nas igrejas, muitas vezes sem que determinado pastor perceba”, afirma o pastor que complementa dizendo que “há uma postura conivente e piedosa sobre casos de violência domésticas entre evangélicos. A espiritualização da situação, acaba legitimando os casos”, diz.

Para a autora, a igreja é um reflexo da sociedade e por isso não foge das estatísticas sobre violência. “No caso das mulheres evangélicas, eu percebi que existe um problema adicional que é a falta de apoio das igrejas. A mulher, às vezes, não tem nem coragem de conversar com pastor a respeito e quando expõe a situação, em geral, recebem uma resposta inadequada”, explica e diz que parte do problema é que o homem é empoderado dentro das igrejas, por uma leitura equivocada das escrituras.

“As passagens bíblicas que tratam disso é tratado como forma de manter a mulher em silêncio e ‘perseverar’ na mudança do marido. Todo peso da situação da qual ela é vítima, recai sobre a mulher e não sobre o agressor. É inaceitável isso, quem tem que ser exortado é o marido e não a esposa que é vítima”, diz.

Muitas vezes por falta de conhecimento, ou entendimento da gravidade do assunto, líderes de casais ou até mesmo pastores não ensinam sobre o tema. Nessa lacuna da ausência de educação e consciência, até os ensinamentos bíblicos se voltam contra mulheres abusadas.

“Tem tanto material para ler, tem trabalhos sendo feito, e até grupos terapêuticos que ouvem homens em situação de agressão. É um debate que está bem atrasado (nas igrejas), mas vamos tentar estimular. Eu quando comecei a pesquisar achei que ia ‘chover no molhado’, mas infelizmente não tem tanta coisas e o que tem na literatura são livros reforçando esse papel vitimado da mulher, que tem que se resignar e orar pelo marido, mas muitas são assassinadas neste caminho, e a gente não pode aceitar isso dentro da igreja”, desabafa Marília de Camargo.

Terra aponta que há uma compreensão equivocada da missão da igreja. “O discurso teórico, pouco apurado e literalista, promove a violência doméstica. Muitas vezes a leitura dos textos Bíblicos é feita de forma patriarcal, que encoraja o machismo e aumenta o silêncio que impede o avanço da discursão do tema no espaço da igreja”, explica o pastor Batista.

O livro-reportagem “Grito de Eva” é um lançamento da editora Thomas Nelson. A Escritora Marília de Camargo César dá voz a diversas mulheres vítimas de violência doméstica. Com lucidez e coragem, a autora expõe a dura realidade imposta pelo silêncio quanto ao tema dentro das igrejas.

Leia a entrevista completa: “Igreja precisa discutir violência doméstica”, diz escritora

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