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terça-feira, 22 setembro 2020

Violência doméstica: “Eu aceitei porque dependia dele”

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A cada dois minutos, uma mulher é vítima de violência no Brasil. E essa chaga social e familiar também está dentro das igrejas. Veja as causas do problema, os números, os responsáveis e a solução

Marco na proteção à mulher e no combate à violência doméstica, a Lei Maria da Penha completa 14 anos nesta sexta-feira (7). Neste período, a legislação foi aprimorada, mas a violência de gênero continua.

Primeiro vêm os insultos, palavrões, humilhação e pressão psicológica. Depois surgem imposições, apropriação de bens, solavancos. A situação se agrava para empurrões, puxões de cabelo, socos, pontapés e graves ameaças. Por fim, a morte. É nessa escala progressiva que geralmente ocorre a violência nos lares brasileiros, independentemente da classe social, religião ou formação cultural das vítimas e dos agressores.

“Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará” (Mt 24:12), alertou-nos a Bíblia. E a barbárie se consolida em números assustadores. No Brasil, em 1980, foram 2.300 casos de homicídios para cada 100 mil mulheres; e em 2013, os registros mais que dobraram, saltando para 4.762. Isso representa 13 feminicídios por dia.

As estatísticas mostram três fatores predominantes para as agressões físicas e psicológicas. Além das dependências financeira e emocional, entra nessa lista protocolos religiosos que obrigam a mulher a permanecer calada, numa relação violenta e abusiva. Tudo em nome da família e de Deus, até que a “morte” os separe.


“Ainda posso ouvir os gritos das minhas filhas: ‘Solta minha mãe! Solta minha mããããe…’ Ele tinha prazer de jogar na minha cara que me batia e falava isso perto de qualquer um. Sofri altas doses de apontamentos dos irmãos na igreja; fui julgada no tribunal do pastor com seus diáconos. Suportei as agressões e aceitei porque dependia dele de certa forma. E não sou o tipo de mãe que vai para debaixo da ponte com os filhos.

Na época, não tinha condições de dar uma vida estruturada para elas e acabei tendo que cumprir certos protocolos religiosos.” O depoimento é de Elaine Kohler, 39 anos, vendedora e estudante de Direito, agredida fisicamente muitas vezes e ainda ameaçada pelo ex-marido, mesmo após ter se tornado independente e já estando no segundo casamento. “Com o tempo, parei de andar na rua com marcas no corpo, mas carrego uma cicatriz na alma.”

“Meu pastor sabia das traições do meu marido, mas disse que eu deveria orar, que era melhor ficar quieta. Fiquei doente, entrei em colapso. Meu marido simplesmente saiu de casa e me deixou com dois filhos pequenos” – Idalina Costa, pastora

A psicóloga Roberta de Aguiar Monteiro Pedrini atende mulheres que chegam deprimidas, infelizes, mas com dificuldade de relatarem a violência que sofrem em casa: “No processo terapêutico, descobrimos que são vítimas de espancamentos ou humilhações. Estão presas ao agressor de alguma forma, seja financeira, seja sentimental, seja religiosamente, pois acreditam que o divórcio é algo errado e por isso se mantêm numa relação conjugal abusiva, para manterem-se ligadas à religião e à família”. Uma crença contrária às Escrituras, que exortam os maridos a amarem e cuidarem de suas mulheres (Ef 5:25).

Numa distorção de Provérbios 14:1, algumas lideranças instruem a mulher a se calar e orar enquanto é agredida. A pastora Idalina Costa, da Igreja Quadrangular, confirma: “Muitos dizem que ela tem de pagar o preço pelo casamento e pela família. Se a família não vai bem, é porque ela não pagou o preço direito; a Igreja é omissa e despreparada para esse cuidado”.

Mas há quem cuide da segurança feminina. O pastor Anderson Silva, de Goiânia, promoveu, em janeiro deste ano, um Seminário de Defesa Pessoal, durante a Confraria Nacional de Mulheres. Na divulgação do evento, ele fez um relato impactante: “Cremos que o homem pode ser transformado, mas não cremos que a mulher deva ser experimento religioso para o arrependimento masculino”.

“Ainda posso ouvir os gritos das minhas filhas: ‘Solta minha mãe! Solta minha mããããe…’ Ele tinha prazer de jogar na minha cara que me batia e falava isso perto de qualquer um” – Elaine Kohler, estudante de Direito

O machismo e o patriarcado são aspectos culturais fortes da sociedade brasileira, destaca o diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (ES) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Pablo Lira. “De acordo com estudos no campo da segurança pública, geralmente, a violência doméstica e familiar é percebida, em um primeiro momento, por cerceamentos, coações e insultos proferidos por conta de um sentimento de ciúme excessivo. Depois vêm as ameaças, as lesões corporais e os homicídios.”

As pesquisas revelam que, na maioria das vezes, os agressores são pessoas do sexo masculino que covardemente escalam os níveis da violência moral, psicológica, física e letal, vitimando mulheres.

Aceitam porque dependem

Enquanto Elaine Kohler foi parar numa delegacia e no Tribunal de Justiça devido às agressões físicas, outra vítima de mesmo nome, Elaine Cristina, 43 anos, técnica em enfermagem e psicanalista, recorreu ao consultório psiquiátrico, por causa dos traumas psicológicos que sofreu.

“Vivi um relacionamento de 28 anos sendo tratada como uma filha. Não podia isso, não podia aquilo, tinha muitas proibições e horário para chegar em casa. Não podia pegar carona com ninguém e, se recebia alguém em casa, a visita tinha hora para ir embora. Por muito tempo, sofri violência psicológica e até então não sabia, não entendia ou não queria ver”, conta Cristina.

Ela explica que nunca apanhou, mas que as palavras e ações por vezes machucaram mais que tapas, “porque ninguém entende isso como violência doméstica”. E reitera o peso equivocado da relação: “Como cristãs, somos levadas a pagar o preço pela família, a orar, jejuar, ser submissas, ser boas de cama e cozinha, tratar bem os filhos e acordar pelas madrugadas pedindo a Deus um ajuste. Isso tudo eu fiz.”


E aponta a omissão que vivenciou por parte da igreja: “Não temos muita ajuda. Quando estamos com problema no casamento, nos tiram da frente de tudo na igreja, porque precisamos ser tratadas, porque acreditam que não vamos agregar na vida de ninguém, mas essa ajuda não chega e somos colocadas de lado e todos ficam sabendo, como se fôssemos a única pessoa a ter um problema no casamento. Fui parar no psiquiatra; fiz terapia por anos até ter coragem de sair do relacionamento. Sair também não foi fácil. Ou você permanece ou tem que deixar tudo para trás e começar do zero. Foi o que fiz, saí sem nada, sozinha, sem filhos, sem amigos. Tornei-me uma aberração na igreja, mas recomecei do zero. A frase ‘Até que a morte os separe’ tem sido uma realidade frequente. Ou seja, a morte tem chegado aos lares de muitas mulheres que aceitam porque dependem de alguma forma do marido. Estou há oito meses separada e não me orgulho disso, mas em alguns casos é inevitável”, narrou.

Do outro lado, está Paula (nome fictício, pois ela pediu para não ser identificada), que mesmo sendo maltratada e traída por muitos anos, aponta suas razões para não pedir o divórcio: “Sou casada há 34 anos. Antes não o deixei porque os meninos eram pequenos. Mas hoje não o deixo porque tenho minha casa, minhas coisas e a fé de que ele vai se converter. Sou cristã e creio que Deus fará um milagre em minha família. E, se meu marido reconhecer a Cristo como Salvador, terá valido a pena todos esses anos, diante da vida eterna”.

As experiências dessas mulheres confirmam o medo de desobedecer a Deus e contrariar as imposições religiosas, fazendo com que suportem o relacionamento conjugal como se apenas delas dependesse o sucesso do casamento e da família. “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado” (Tg 4:17).

Agressores nas igrejas

O pastor Arlindo Theodoro, da Igreja Valentes de Davi, defende a mulher e faz o enfrentamento de homens violentos nos lares cristãos. “Os templos evangélicos estão recheados de ‘machos’ agressores”.

“Primeiro procuro me aprofundar nos motivos (bebida, droga, ciúme, distúrbio maníaco-depressivo) para exortar, punir e sanar o mal em definitivo. Depois de ouvir, passo para a fase da desconstrução da justificativa. Ter motivos não significa ter razão, principalmente quando o homem se remete a um instinto altamente primitivo, de domínio e possessão. Geralmente, os homens reconhecem a barbárie de suas atitudes, mas sempre se justificam.

Por último, trabalho a conscientização de que isso é crime e tem punição exemplar prevista em lei.” Ele questiona: “Quem teria mais autoridade para singrar sobre esse tema do que a Igreja? Infelizmente alguns líderes têm se omitido diante da gravidade desse caso. É mais fácil fingir que o problema só existe na casa dos outros. O que não é verdade. Os templos evangélicos estão recheados de ‘machos’ agressores. E as mulheres, constrangidas diante da construção filosófica e dogmática de uma surreal submissão, reclusam-se no sofrimento, calando-se diante do preconceito religioso”.

A pastora Idalina, esposa de líder na igreja, conta que sofreu abuso psicológico. “Meu pastor sabia das traições do meu marido, mas disse que eu deveria orar, que era melhor ficar quieta. Fiquei doente, entrei em colapso, ele simplesmente saiu de casa e me deixou com dois filhos pequenos. Lembro-me da dor incrível que senti quando estava em um culto de santa ceia e o diácono não me deixou pegar o pão e o cálice. Sofri amargamente o preconceito. A Igreja precisa muito se abrir e perceber os sinais e cuidar, antes das agressões e mortes.”

Segundo ela, “muitos pastores se formam em Direito e Psicanálise para atender melhor o rebanho, mas este é um assunto que a Igreja ainda é omissa, pois prefere deixar quieto, para não perder membros que a ajudam financeiramente”. “O problema entra na Igreja e precisa ser solucionado dentro dela. Eu já acolhi em minha casa uma mulher que levou uma surra do marido, diácono da igreja. Na época, fui chamada no gabinete e ouvi que precisava tomar cuidado, pois tinha filhos pequenos e não deveria me intrometer. Deus não chamou líderes para viver em conformidade com o mundo (Rm 12:2).”

“Geralmente, a violência doméstica é percebida, em um primeiro momento, por cerceamentos, coações e insultos proferidos por conta de um sentimento de ciúme excessivo. Depois vêm as ameaças, as lesões corporais e os homicídios” – Pablo Lira, diretor de Integração e Projetos Especiais do Instituto Jones dos Santos Neves (ES) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

A psicóloga Roberta de Aguiar defende que a Igreja repense essa postura. “Infelizmente, pastores desencorajam as mulheres a buscar ajuda para não expor o marido. O psicólogo geralmente é o último a ser procurado; fazemos a notificação e a enviamos para o Ministério da Saúde, se for agressão física.”

Quando o trauma é muito grande e apenas o papel que a igreja exerce não resolve, a vítima precisa de atendimento específico e profissional. “A igreja pode nos encaminhar, numa parceria, para tirar a vítima desse lugar de dor”, aponta Roberta.

“Há uma violência velada, com marcas profundas na alma, de quem chega se sentindo um lixo. Um quadro provocado pelo agressor que controla tudo: as conversas, músicas que ouvem. São muitas dores, ameaças, xingamentos, controles e agressões. Elas aceitam manter o casamento pelo medo de enfrentar a vida sozinhas, porque sabem que o marido vai abandonar o filho.”

Na contramão bíblica – “Melhor é o longânimo do que o valente; e o que domina o seu espírito do que o que toma uma cidade” (Pv 16:32) –, as pesquisas mostram que, culturalmente, construiu-se um mito, segundo o qual os homens violentos pertencem às classes subalternas, ou são monstros anormais, ou estão sob efeito de forte emoção, portanto, sem domínio de si próprios e da força que são capazes de liberar.

De quem é a culpa?

Do agressor que encheu a cara de bebida? Da mulher que não se submeteu aos caprichos do companheiro? Do filho que incomodou em momento inadequado? Da igreja preconceituosa? Ou do poder público que não agiu?

A pastora Idalina aponta alguns fatores: “A mulher vive esse drama quando se torna permissiva, aceitando calada as agressões porque precisa de roupa, alimento, moradia; os filhos estão pequenos. Ela é subjugada por não ter ninguém de confiança para compartilhar.

Acha-se responsável e merecedora dos maus-tratos. Talvez lhe falte clareza, ou então se envolveu muito cedo com o homem e deixou sua família no interior. São várias desculpas e culpas, porém a culpa é uma disfuncionalidade familiar e também social.”

Na medida em que as pessoas se mostram coniventes, a situação é aceita com normalidade. Até porque o violador pode apresentar episódios de arrependimento. A família que não vive em um ambiente em que Jesus é o convidado não terá base para resistir aos maus tempos (Mt 7:24-25).

Metendo a colher

Reduzir os impactos traumáticos na família de quem sofre violência doméstica é papel de todos. Pablo Lira defende que o poder público, setor privado e sociedade devem contribuir e oferecer condições para que essas vítimas rompam com o ciclo de violência.

“Uma pessoa que vê uma mulher sendo espancada pelo seu companheiro não pode se sentir confortável e simplesmente cruzar os braços dizendo que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’. É preciso desmistificar essas falsas verdades. Não podemos continuar banalizando a vida. Pela construção de uma cultura de paz, a violência doméstica deve ser condenada pela sociedade.”


O pastor Arlindo é taxativo. “Não é apenas um crime de regra familiar. É também uma barbárie, o assassinato de sonhos, o sepultamento da autoestima de alguém que, por ser fisicamente mais frágil, se vê suprimida pela arrogância e autoritarismo primitivo de quem se julga o macho alfa. Principalmente no Ocidente, onde as mulheres conquistaram sua liberdade e independência, não é mais possível que ainda convivamos com o pesadelo de ver mulheres sendo agredidas e mortas todos os dias diante de nossos olhos.

É necessária uma ação conjunta da sociedade, Igreja, poder público, mídia. Meu avô dizia que só existem duas coisas que freiam o homem: o medo e o respeito. Esse é o nosso freio.” Para quebrar o ciclo, o Instituto Psicologia Para Todos, que recebe famílias através da divulgação que é feita com cadastro no Mapa da Violência, defende um trabalho de formiguinha da psicoeducação com os meninos e as meninas.

“É preciso uma ação educativa das próximas gerações, porque o menino que está vendo o pai agredir a mãe dentro de casa provavelmente vai ser o garoto que vai achar normal fazer isso com a esposa; é passado de geração para geração. Precisamos combater o discurso que ninguém apanha à toa, que é normal o homem controlar o dinheiro da mulher ou dar um tapinha de vez em quando.”

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