Em conversa com Comunhão, a escritora Jacira Pontinta fala sobre os efeitos das redes sociais na vida das pessoas, da importância da igreja no mundo da era digital, entre outras questões
Por Rodrigo Araujo e Victor Rodrigues
Curtidas, compartilhamentos, visualizações, viralizações, cultura do cancelamento e da aprovação. Vivemos imersos em uma sociedade digital acelerada — e o Brasil ocupa o segundo lugar entre os países onde as pessoas passam mais tempo conectadas: em média 9h13 por dia, atrás apenas da África do Sul (9h24).
Nesse universo de telas e notificações constantes, onde cabe a comunhão com Deus? Até que ponto o ambiente digital molda — ou até deforma — a identidade cristã? De que maneira essa realidade impacta a igreja como corpo vivo?
Para refletir sobre essas e outras questões, Comunhão conversou com Jacira Pontinta Vaz Monteiro, autora do livro Hiperconectados (Mundo Cristão). Pós-graduada em Teologia Bíblica, mestre em Educação, Arte e História da Cultura e uma das fundadoras do Projeto Agostinhas, Jacira lança luz sobre os desafios e as possibilidades de uma espiritualidade autêntica na era digital.
Sobre o título do livro, ela destaca que praticamente todas as pessoas vivem, hoje em dia, hiperconectadas, independente da faixa etária.
“Os hiperconectados, no final das contas, somos todos nós, não só os mais jovens. E isso afeta absolutamente tudo no nosso dia a dia. No passado, a gente tinha o que era analógico e o que era digital. A gente entrava e saía da internet. A gente usava o computador, ficava online, conversava com os amigos, colocava algumas coisas lá, algumas reflexões, coisas da nossa vida e depois saía, ficava offline”, ressalta a escritora que completa:
“Mas hoje em dia, por causa da mudança radical que a gente teve nessa era digital, a gente não tem mais essa separação entre o online e o offline. Hoje nós temos os smartphones e com isso a gente vive online. Então isso vai afetando muitas coisas: questão de saúde mental, de concentração, de vício com relação a entretenimento”, destaca.
Jacira relata já ter percebido um distanciamento dela para com Deus em razão dos efeitos provocados pelas redes sociais em seu comportamento.
“Comecei a perceber algumas das minhas reações à internet, ao meu uso de redes sociais. Eu sempre fui de usar muito Twitter e é um ambiente muito raivoso, um campo minado. E comecei a perceber que partes do meu caráter estavam sendo moldados e deformados por causa de coisas que eu estava vendo. A gente vê uma notícia boa, a gente se alegra. Em seguida, uma notícia ruim, a gente fica muito triste. De repente, uma notícia de injustiça e a gente fica muito bravo. Enfim, as nossas emoções vão oscilando e isso vai trazendo muito peso para a gente”, conta.
“Isso forma e deforma a nossa espiritualidade. Às vezes, a gente acha que ao usar um dispositivo móvel, a gente está só usando isso, mas esse dispositivo também nos usa. A partir do momento que a gente forma esse lugar, esse lugar também nos forma e nos deforma. E não tem como a gente separar a nossa vida comum da nossa vida espiritual. Elas estão entrelaçadas como um todo. Então, quando mexe com o nosso caráter e quando a gente vai se percebendo cada vez mais raivosos, a gente também vai formando a forma como a gente vê Deus e como a gente vai vendo o mundo”, completa a autora.
Jacira também destacou o importante papel que a igreja tem, nos dias de hoje, para ajudar as pessoas a se voltarem para Jesus Cristo e deixar em segundo plano preocupações como opiniões alheias, curtidas nas redes sociais, entre outras.
“Em tempos de hiperconexão é que a gente precisa mais do Corpo de Cristo junto. Os pastores precisam estar mais juntos, compreendendo o nosso mundo, procurando de fato discipular as pessoas no mundo de hoje. O Brasil é um dos países mais conectados no mundo, com média de uso diário de internet de 10 horas. Então, muitos dos nossos liderados estão sendo, na verdade, discipulados pela internet, pelas pessoas que eles vêm na internet, por esses influencers, youtubers e tiktokers. Então, os pastores precisam chegar mais junto e conversar honestamente sobre as preocupações, as questões que a geração atual tem. E trazer isso à luz da Bíblia”, afirma.
“Também tem a questão da solidão acompanhada. Estamos cada vez mais juntos no sentido digital da coisa. Conversamos com amigos todas as horas, do acordar ao deitar, 24 horas ao longo do dia. Mas, ao mesmo tempo, a verdade é que estamos sozinhos. E quando você tira o telefone de perto, percebe essa solidão. Então aí é que vêm os sintomas de depressão, questões de ansiedade, porque a pessoa acha que não tem amigo. Então, a igreja pode muito ajudar nisso, no sentido de que nós somos um corpo”, complementa.
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