Sobre o valor do fervor pentecostal

Teólogo Roney Cozzer defende o valor do fervor pentecostal

Quando estamos imersos no fervor pentecostal, os louvores ganham vida.

Já vi colegas, igualmente teólogos e pesquisadores, fazendo chacotas sobre o valor do fervor pentecostal. Imitam as línguas estranhas, reclamam do volume elevado do seu culto e zombam da expressividade na adoração.

Em parte até compreendo essa repulsa. Convenhamos que o Movimento Pentecostal tem convivido com tantos abusos e desequilíbrios, que é até compreensível as críticas e brincadeiras. Inegavelmente, estabeleceu-se em muitas igrejas de matriz pentecostal o que eu chamaria de “idolatria da emoção”. E isso, infelizmente, levou a um profundo esvaziamento de sentido, de biblicidade e de contemporaneidade na pregação e no culto pentecostal. Sim… é verdade.

Mas há também uma grata verdade que precisa ser reafirmada a respeito da espiritualidade pentecostal com seu fervor típico. Essa espiritualidade pode ser absolutamente racional, equilibrada e marcante. Um pentecostal corretamente instruído jamais admitirá que o “cair do Espírito” (Atos 10.44 – ACF) sobre a congregação signifique suspensão do juízo próprio. Longe disto, o Espírito Santo age nas profundezas do espírito humano sem jamais vilipendiar a razão. E só consegue compreender de fato o que aqui pretendo comunicar quem vivenciou a experiência do poder do Espírito.

Quando estamos imersos no fervor pentecostal, os louvores ganham vida. De músicas bem entoadas tornam-se mensagens profundas a nos falar das grandezas de Deus e a nos elevar a Ele. Quando a casa é toda cheia pelo Vento (Atos 2.2), é comum ver homens, mulheres, sábios, iletrados, adultos e jovens serem “nivelados” pela graça, pela Presença poderosa, pela inexplicável, mas absolutamente bem vinda comoção trazida pelo Espírito Santo. De algum modo, essa mesma comoção gera cristãos melhores, facilita o acesso ao perdão, às curas emocionais. À uma renovação que projeta o crente para uma nova vida com Deus e com o próximo.

Valor do fervor pentecostal

Quem experimentou esse fervor pentecostal, quem participou de um culto genuinamente pentecostal e viu idosos experientes chorando como crianças, crianças adorando com profundidade, homenzarrões se abraçando com os olhos encharcados e senhoras elegantes despirem-se de suas formalidade ante a glória presente na casa, certamente entende porque em Azusa, negros adoravam juntamente com brancos numa época em que o racismo predominava na sociedade norte-americana, e porque a chama pentecostal alcançou lugares inalcançáveis, atraindo milhões de pessoas em todo o mundo. Quem vivenciou entende o valor do fervor pentecostal

Particularmente, não gosto de preterir tradições cristãs em detrimento de uma em particular. Concordo plenamente com o brilhante teólogo pentecostal norte-americano, Craig S. Keener, em seu livro “A hermenêutica do Espírito: lendo as Escrituras à luz do Pentecostes” (2018). O autor defende que as diferentes tradições cristãs podem oferecer contribuições específicas, com suas ênfases específicas. E podemos aprender uns com outros. Mas preciso dizer: pentecostal é o que sou. Não nego meu ethos! E falo e escrevo a partir desse ethos.

Esse fervor pentecostal, quando experimentado em sua pureza, nos demove de uma religiosidade formal para uma religiosidade viva, dinâmica, frutífera, amorosa. Dá vida às nossas orações. Nos torna mais sensíveis a Deus, e ao outro. O fervor pentecostal nos apresenta um Jesus vivo, real, não apenas aquele Cristo histórico da Old search of the historical Jesus, soterrado por séculos de tradições e mitos.

Uma experiência única

Essa espiritualidade viva nos apresenta um Cristo vivo, que tem boca e fala, que está ao lado e que ouve nossas orações. Um Cristo verdadeiramente ressuscitado. Quem experiencia esse fervor costuma dizer com mais propriedade “Senhor meu, e Deus meu” (João 20.28).

Sei que para muitos que vierem a me ler aqui, este texto poderá parecer apenas mais uma defesa dogmática de uma tradição cristã, mas na verdade é muito mais que isso. Essa experiência de fervor espiritual está disponível a católicos, reformados, puritanos, calvinistas, arminianos, molinistas. E a quem mais se predispor humildemente a sentir o cicio suave, já que “o vento sopra onde quer”.

Entendo a dificuldade de muitos no sentido de crer no poder e no impacto de viver esse fervor pentecostal. Pois, como bem escreveu o inesquecível teólogo Abraão de Almeida, “o homem custa a crer naquilo que ultrapassa a sua própria experiência”.


Roney Cozzer – presbítero das Assembleias de Deus, professor, autor, palestrante e mestre em Teologia.