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sexta-feira, 5 março 2021

Vacina contra a covid-19: a marca da besta?

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Seria a vacina contra covid-19 a marca da besta, um meio de implantar um chip na população mundial para o controle do anticristo?

Por Thiago Titillo

Recentemente um dos candidatos à presidência dos Estados Unidos afirmou que a vacina contra a covid-19 “é a marca da besta”. Essa postura se intensifica quando a ideia de vacinação compulsória, associada ao impedimento de se fazer viagens ou à restrição de crianças não vacinadas frequentarem as escolas, toma conta dos veículos de comunicação. Seria, portanto, a vacina contra covid-19 a marca da besta, um meio de implantar um chip na população mundial para o controle do anticristo?

O Apocalipse fala de uma “marca sobre a mão direita ou sobre a fronte” sem a qual ninguém poderá “comprar ou vender” (Ap 13.16-17). Evidentemente, a Bíblia não fala sobre uma vacina ou chip. Então, o que João tinha em mente?

No mesmo livro, o autor afirma que os que pertencem a Cristo também têm Sua marca na testa (14.1; cf. 7.3; 22.4), mas ninguém afirma que os cristãos terão um chip implantado da parte de Deus! Será que deveríamos compreender o Apocalipse – um livro cheio de símbolos, figuras e números – de maneira tão literal? Não seria isso uma violência ao seu gênero peculiar?

Uma saudável hermenêutica bíblica deve atentar para essa questão: ler de maneira simbólica uma narrativa histórica é tão inadequado quanto ler literalmente um texto apocalíptico. Entender o propósito do autor perpassa compreender as peculiaridades do gênero literário no qual ele escreveu. João não pretendia ser compreendido de forma literal no Apocalipse, do contrário, teríamos que admitir que a besta que emerge do mar com sete cabeças e dez chifres seria uma criatura monstruosa jamais vista por qualquer biólogo, e não um poder político opressor.

Alguns líderes cristãos afirmam que a marca da besta será um sinal visível colocado na mão ou na testa. Geralmente tomam essa ideia das marcas que eram usadas em escravos. Mas é oportuno lembrar que isso não era um sinal lealdade, mas de posse. É interessante notar que a “testa/fronte” representa a sede do pensamento, enquanto a “mão” representa a ação: com ela fazemos o que pensamos. Estaria João querendo comunicar que os seguidores da besta são influenciadas pelos seus padrões de pensamentos e realizações? É uma hipótese possível. Assim, a incapacidade de comprar e vender estaria vinculada a um boicote contra aqueles que não seguem os padrões da besta por parte dos seguidores desta.

Por fim, não podemos perder de vista o contexto histórico. João escreve para animar os cristãos diante da perseguição. O livro menciona martírios (2.13; 6.9; 20.4) e o próprio João está exilado (1.9). Quando o livro foi escrito, já se iniciava a prática de adoração ao César. Aqueles que sacrificassem ao Imperador eram marcados na fronte e na mão com as cinzas do sacrifício, podendo entrar no mercado para vender seus produtos e comprar. Como os cristãos se recusavam a adorar o Imperador, eram proibidos de entrar no mercado. Para João, a marca de fidelidade à besta é uma espécie de paródia do compromisso cristão selado no batismo.

Thiago Titillo é pastor batista, pós-graduando em História do Cristianismo e do Pensamento Cristão e Especialista em Teologia Bíblica e Sistemática-Pastoral, graduado em Teologia e licenciado em Letras. Professor da rede estadual de ensino (SEEDUC-RJ) e dos Seminários Teológicos Betel e Evangélico Peniel

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