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domingo, 17 outubro 2021

Uma igreja feminina no anonimato

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Mesmo anônimas, essas mulheres apontam para a existência de muitas outras que seguiram a Jesus e foram, junto a alguns homens, formando a primeira igreja cristã no mundo

Lidice Meyer 

Já percebeu quantas mulheres sem nome aparecem nos Evangelhos? Os evangelistas perpetuaram a história de cerca de trinta mulheres sem se preocupar em registrar os seus nomes. A quantidade de mulheres que seguiam a Jesus era tão expressiva que os evangelistas, todos homens, não o puderam deixar de registrar (Mt 27.55-56; Mc 15.40-41; Lc 8.1-3, 23.49).

Lucas abre o evangelho com a narrativa dos primeiros anos de Jesus pelo olhar feminino e destaca o fato de que Jesus era sempre acompanhado pelos discípulos e por muitas mulheres (Lc 8.1-3), encerrando seu texto com a presença de diversas mulheres nomeadas e anônimas como testemunhas de Sua ressurreição (Lc 24.9-10). Entre estes dois textos Lucas apresenta diversas mulheres anônimas desde personagens femininos das parábolas a mulheres que de alguma forma interagiram com Jesus.

Quando Jesus se dirigia às multidões ele usava de parábolas. Não é de se estranhar que, como seus ouvintes eram homens e mulheres, também usasse de personagens masculinos e femininos para ensinar as verdades do Reino. Através das parábolas, Jesus introduziu homens e mulheres no universo feminino das noivas (Mt 25.1-13), da cozinheira (Mt 13.33), das donas-de-casa e suas amigas (Lc 15.8-10) e das viúvas (Lc 18.1-8; 21.1-4), ensinando que como o fermento leveda a massa, o Reino de Deus transforma a sociedade trazendo equidade de valores (Lc 13.20-21). As mulheres nas parábolas tornaram-se assim modelos para os discípulos, homens e mulheres.

Os evangelistas registraram a cura de mulheres anônimas seja pela sua própria fé como a mulher encurvada (Lc 13.10-17) e a mulher com o fluxo de sangue (Mt 9.18-26; Mc 5.25-34; Lc 8.40-56) ou pela fé de algum familiar, como a sogra de Pedro (Mt 8.14-15; Mc 1.29-31; Lc 4.38-39) e a filha de Jairo (Mt 9.18-26; Mc 5.21-43; Lc 8.40-56). Também perpetuaram a memória de mulheres que tiveram seus filhos curados como a viúva de Naim (Lc 7.11-17) que O comoveu e a mulher sírio-fenícia (Mt 15.21-28; Mc7.24-30) cujo argumento de fé Jesus exaltou. Mulheres que representam tantas outras mais que tiveram sua vida ou a vida de algum ente querido salva pelo toque da mão do Mestre.

Dentre as “muitas mulheres” citadas anonimamente estavam também as que tiveram sua vida transformada e redirecionada pela compaixão de Jesus como a mulher pecadora que lhe ungiu os pés (Lc 7.36-49), a mulher adúltera (Jo 8.1-11) e a samaritana (Jo 4.4-26), a qual Jesus dirige um dos mais preciosos ensinamentos e a transforma em uma missionária. Após sua conversa com Jesus a Samaritana não era mais uma mulher estrangeira, desprezada pelos judeus e sem marido, mas uma líder cristã reconhecida pelos seus e pelos discípulos!

As mulheres anônimas que de alguma forma interagiram com Jesus eram de todas as idades, culturas e classes econômicas, sociais e religiosas. Mulheres silenciosas ou atuantes, que não se limitaram ao mundo privado das mulheres, mas serviram, ensinaram, argumentaram, aprenderam e viveram sua fé publicamente, integrando as primeiras comunidades cristãs.

Mesmo anônimas, essas mulheres apontam para a existência de muitas outras que seguiram a Jesus e foram, junto a alguns homens, formando a primeira igreja cristã no mundo. Mulheres que foram a presença forte e real tanto durante o ministério de Jesus como no Pentecostes (At 1.14), enfrentando até mesmo perseguições (At 8.3).

Lidice Meyer Pinto Ribeiro é Doutora em Antropologia, professora convidada na Universidade Lusófona, Lisboa, Portugal

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