Notas sobre o livro “O mínimo que você (ainda) precisa saber sobre o movimento evangélico no Brasil” e o artigo da Revista Veja
Por Lourenço Stelio Rega
A seguir busco tecer algumas notas sobre o livro “O mínimo que você (ainda) precisa saber sobre o movimento evangélico no Brasil” e o artigo da Revista Veja “Evangélicos laçam livro para políticos de esquerda”
Hoje ao comentar sobre o cenário brasileiro pode colocar-lhe em um espaço meio maniqueísta, no sentido lato da palavra, categorizando as opiniões apenas em um espaço dualista, como em uma fita métrica em seus extremos – esquerda e direita. Assim você nem pode dar opinião sobre algo que é logo “etiquetado” como conservador ou progressista, como direitista ou esquerdopata. Confesso que está ficando meio chato conversar com algumas pessoas. Eu tenho buscado laborar mais em algo diferente, talvez chamem de “terceira via”. Seja como for, sempre pensei que os extremos em um círculo se tocam e no fundo acabam sendo a mesma coisa.
Não sei quem passou para a Revista Veja o release do livro “O mínimo que você (ainda) precisa saber sobre o movimento evangélico no Brasil”, mas o subtítulo da matéria não me pareceu que é o que o livro tentou fazer dando a ideia que seria um tipo de cartilha que viesse a dar “dicas” para se “conquistar” o segmento evangélico com vistas a conduzi-lo às urnas de forma mais progressista.
Salvo melhor juízo, o último capítulo, muito bem escrito pelo prof. Alonso Gonçalves, tira muita esperança de algum político localizado no lado esquerdo da fita métrica especialmente reforçando que o povo evangélico se manterá mais à direita partidária, sendo mais conservador na política.
Esse artigo e o da profa. Tayná Louise de Maria sobre fundamentalismo religioso foram hábeis em trazer bibliografia mais consistentes do que outros artigos.
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Natal made in manjedoura ou made in shopping? - A obsolescência e o descarte confrontam o espírito do Natal, opondo o vazio do consumo à busca pelo eterno Por Lourenço Stelio Rega Nesta… Em termos gerais há alguns pontos que precisam ser destacados. Em primeiro lugar a repetição do jargão da “teologia do domínio” que ocorre três vezes no livro é um discurso repetido para tentar fazer a anamnese do cenário evangélico político de direita de hoje, mas nem sempre se lembra, por exemplo, do livro “Partido de Deus – fé, poder e política” de Luís Mir, que busca apresentar a Igreja Católica se valendo no fundo da mesma “teologia do domínio” para defender o Partido dos Trabalhadores. Fico me perguntando se essa narrativa da “teologia do domínio” seria algum tipo de “sofisma” reducionista que um lado da fita métrica esteja tentando usar para dizer para o outro lado: “viu, eu te peguei, eu descobri porque você pensa assim…”. A teologia do domínio existe desde que a existência existe, me perdoem, é só ver os povos antigos, as grandes guerras em que se lutavam em nome dos deuses. É algo tão antigo quanto à humanidade. Penso que se fazer Ciência precisamos estar em um andar mais elevado.
Outra preocupação acadêmica é a definição de quem seja ou o que seja de fato o povo evangélico no Brasil. Em diversas ocasiões no livro há a confissão da complexidade sobre isso, mas, por outro lado, em diversos momentos se insiste em se afirmar que o povo evangélico é isso ou aquilo. Do ponto de vista acadêmico seria necessário primeiro essa definição, esse recorte, pois isso fragiliza todo o livro. É mais ou menos afirmar uma crítica ao Cristianismo, mas no fundo se está criticando a Cristandade. Por exemplo, cada vez que vou lendo Friedrich Nietzsche vou tendo essa certeza de que ele estava mesmo é criticando a Cristandade em não o Cristianismo.
Em dado momento fala-se em uma instalação de animosidade e me lembrei do historiador católico Eduardo Hoornaert, com quem aprendi sobre a “evangelização guerreira” e até mesmo aprendi com Pierre Bourdieu que a religião é um “campo de forças”. A linha do tempo mostra exatamente isso, então não é privilégio de uma religião de direita e de esquerda. Dizer que os evangélicos vivem esse tipo de apologia guerreira não seria chover no molhado? O que as “missões católicas” fizeram no Brasil e na América hispânica lá no passado, além de destruir a cultura local, matar os originais da terra, escravizar e subjugar? Seria isso fruto de uma “Teologia do Domínio” em versão daquela época? Será que essa evangelização guerreira também não foi repetida em outros lugares do hemisfério sul e países do Oriente? Não dá para sepultar a história nem a sociologia da religião tentando “inventar a roda” para afirmar esse fenômeno é algo novo e se aplica apenas ao cenário de hoje tentando apontar para um truísmo (algo que não precisa de prova por ser claro em si mesmo), que na realidade não é. Me preocupar esse modo de fazer academia declarativa. Ciência se faz com comprovação, muito mais do que somente afirmações.
Algo que encontrei de interessante em um artigo é que evangélicos enfatizam o indivíduo. De fato, me parece que isso não é proveniente dos evangélicos mas de uma certa influência do Iluminismo na Filosofia que acabou se encarnando na Teologia salvacionista que foi sendo construída. Até a Reforma Protestante valorizou o indivíduo com o conceito do sacerdócio universal dos santos, provavelmente também com a influência da própria Modernidade. Afinal Descartes não disse “Pensamos, logo existimos!” Esse conceito foi se sedimentando na teologia pelo colorido do Puritanismo com certeza.
Mas também há algo interessante em um artigo ao enfatizar a separação entre o sagrado e o profano, como semente também do Puritanismo, mas, acrescente-se também fruto do mesmo Iluminismo e Modernidade. Algo em que será necessário revisitar o ensino do “cada dia” de Jesus. Há poucos dias saiu um artigo meu intitulado “Crente de domingo – o que é isso?” em que o assunto também foi tocado.
Em termos gerais, pois o espaço aqui não é tão grande, o livro contribui para esboçar as origens do pensamento evangélico no Brasil que o historiador Carlos Cesar Peff Novaes escreve e também o pesquisador Luiz Longuini Neto. Mas também contribui para dar um panorama geral de um seguimento entre os evangélicos no Brasil.
É necessário relembrar que há movimentos emergentes entre o campo religioso evangélico no Brasil hoje o que torna mais ainda complexa a discussão, especialmente com dois desses movimentos emergentes que não são tratados no livro que, salvo melhor juízo, fez um recorte desse campo religioso tratando-o como absoluto.
Vamos precisar investir um pouco mais em pesquisa em variados níveis para aprofundar o tema, evitando absolutizar ou restringir certas classificações a apenas alguns segmentos religiosos. Religião é algo bem mais complexo do que se possa imaginar.
Por fim, mas não concluindo, o país precisa, mais do que nunca, de fomento ao diálogo, não tanto de apologia bélica. Me lembro de Mandela que, depois de quase 30 anos preso, assumiu o comando da África do Sul que o havia aprisionado, indo em caminho diverso de um revanchismo, ao buscar pacificar o país. Então hoje precisamos mais de pacificadores do que colonizadores de mentes, para que se supere a “síndrome da fita métrica” com suas polaridades, apontando para outro caminho ou via. Salvo melhor juízo, faltou muito disso em partes do livro.
Lourenço Stelio Rega é Doutor em Ciências da Religião (PUC-SP)

