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sexta-feira, 4 dezembro 2020

Um missionário, independente de onde estiver

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Shalline reu00fane meninas para estudo da Bu00edblia
Shalline reu00fane meninas para estudo da Bu00edblia

Apesar de ter um significado claro nos dicionários, a palavra “missão” encontra sentido plural entre o povo de Deus. Há quem a associe à postura de cruzar o Atlântico e viver numa comunidade tribal na África. Outros imaginam igrejas subterrâneas e mártires sendo perseguidos no Oriente. Há quem ainda faça referência ao trabalho evangelístico entre os povos indígenas no interior do Brasil ou entre os camponeses na China.

 

Da mesma forma acontece com a definição de ser missionário. Ideal de vida para alguns, vocação inatingível para outros. Função de uma minoria especial (quase sobrenatural) da igreja chamada para representar, todo o restante, no Ide de Jesus, explícito em Mt 28:19-20.

No entanto, o que a Bíblia apresenta sobre missões é algo maior do que um ponto geográfico ou do que uma tarefa destinada a um grupo seleto de pessoas. Para o pastor David Mesquiati, da Assembleia de Deus de Maruípe, em Vitória, há muitos equívocos envolvendo a definição de missões, por parte dos cristãos. Um deles é tratar o tema como algo superespecial para pessoas superespirituais. “Exaltamos tanto a missão e as exigências para tal, que a maioria dos cristãos não se sente à altura da empreitada. Esse tipo maquiador da missão impede novos candidatos, e por outro lado, faz dos que estão no ‘campo’, supercrentes”, disse o pastor, que também é professor de Teologia da Missão na Faculdade Unida.

Para ele, a missão não é responsabilidade de alguns, mas de todo crente. “Profissionaliza-se o ministério e faz com que um pequeno grupo na igreja trabalhe duro todo o ano, enquanto o restante faz um papel coadjuvante, ou meramente de plateia. A missão não é obra de uma minoria mais qualificada, nem pode ser delegada a outro. É responsabilidade de cada um de nós”.

Tudo em todos
Outro ponto que precisa ser ajustado, segundo o pastor David, é o entendimento de que missões se resume a “evangelizar”. “Entendemos a missão como o projeto restaurador de Deus para toda sua criação, o que inclui os seres humanos, mas não se restringe a eles. Assim, a missão tem outras dimensões como o serviço (diaconia), a participação política (cidadania), a transformação social (justiça), a ecológica (responsabilidade socioambiental), entre outras. Se afunilarmos a missão a um ativismo proselitista, que tem como meta cristianizar o mundo, vamos trair o projeto de Deus em Jesus Cristo, pois tudo que se logrará será uma instituição expressiva numericamente e inflada em egos, e com pouca, muito pouca, presença do reino de Deus”, disse o pastor.

Em sua percepção, o “Ide” de Jesus deveria ser entendido como um compromisso com a vida. “O tempo verbal na voz imperativa ‘Ide’ seria melhor traduzido na forma do gerúndio no português, como ‘vivendo’, ‘andando’, ‘sendo cidadão’, comuniquem sua fé. Não indica uma ação específica (o ato de evangelizar), mas um modo coerente de viver, coerente com as exigências do Evangelho”, disse.
E acrescentou: “É um autêntico missionário quem vive o evangelho, e não quem se desloca geograficamente ou participa de um programa evangelístico. Uma das razões para essa confusão está no dualismo reinante no Ocidente. Muitos evangélicos dividem a vida entre secular e sagrada. Para viver a missão, teriam de abandonar seus empregos, família e país. É preciso combater esse dualismo pernicioso.”
Ter um entendimento mais abrangente sobre missões reforça, portanto, ainda mais a responsabilidade de cada um em se envolver. Mas a questão é: como?

Primeiro passo

Já dizia Vinicíus de Moraes que “por mais longa que seja a caminhada, o mais importante é dar o primeiro passo”. Mais importante e talvez o mais difícil, se for levada em conta a sabedoria popular. Sair de uma posição cômoda e se mover é sempre um grande desafio e não seria diferente em se tratando da igreja.

A experiência de muitos pastores revela que é a minoria do rebanho que se estende para além dos cultos e reuniões e ultrapassa os portões do templo. Segundo o pastor luterano Danilo Fach, em torno de apenas 30% da igreja hoje se mobiliza e aceita o desafio de fazer a diferença. “Observo que na igreja há três tipos de pessoas participantes: as constantes, as temporárias e as omissas. Arriscando uma estimativa, diria que em torno de 25% a 30% se mobiliza”, disse Danilo, que é pastor auxiliar da Congregação Esperança da Igreja Evangélica Luterana do Brasil.

O medo de errar ainda é um grande entrave para as pessoas, segundo o pastor. “Como as pessoas têm medo de errar, elas vacilam muito para iniciar. Mas o que tenho observado que a dificuldade existe no primeiro, no segundo e no terceiro passos. A primeira dificuldade é inserir o irmão no trabalho voluntário do Reino de Deus. Depois, quando surgem as primeiras dificuldades, vem a tentação da desistência, tornando-se difícil conservá-lo trabalhando e, em terceiro, é mantê-lo crescendo com humildade e eficiência”, explicou o pastor.
Ser exemplo é a forma que o pastor encontra para incentivar outros a ser missionário no seu dia a dia. “No primeiro momento, eu preciso ser exemplo. Não posso falar ou incentivar alguém para fazer ou ser algo, se eu mesmo não pratico. A seguir é importante abraçar o irmão e olharmos juntos para Cristo. E quando a fé estiver instalada no coração do irmão, Deus revelará o seu dom especial para que ele se insira na obra do Senhor e o sirva.”

A dentista Margareth Serrat venceu o primeiro passo e tem vencido, ao longo dos anos, todos os outros. Ministra de Cura Interior do Ministério Bálsamo de Gileade, Margareth aconselha e pastoreia pessoas a terem suas emoções restauradas, a encontrarem o equilíbrio emocional, usando como base a Bíblia. Ela começou seu ministério durante as consultas em sua cadeira de dentista. “Comecei aconselhando pessoas que estavam ao meu redor, não conseguia tratar apenas dos dentes. Não importa qual a profissão, que seja uma dona de casa, mas se vivermos o Evangelho em sua essência, seremos missionários, na padaria, na feira, na vizinhança, nós vamos exalar o perfume de Jesus. Precisamos ter uma visão de reino e saber que o que a gente faz é muito importante, ainda que seja um pouquinho”, disse Margareth.

Ela destacou uma necessidade generalizada: “Hoje as pessoas precisam de outras que as ouçam. Se você se dispõe a ser um ouvinte, a pessoa se aproxima de você, o que abre uma porta para falar do amor de Deus. É gente cuidando de gente, pois pessoas ferem pessoas, mas pessoas também curam pessoas, pois temos o Espírito Santo dentro de nós”, exemplificou.

Para ela, cultivar um relacionamento com Deus é indispensável para saber a hora certa de agir com cada um. “Relacionamento com Deus de forma íntima é fundamental. O ministério pode ser exercido em qualquer lugar que você estiver. Quando se glorifica o nome de Deus e se promove o Seu reino, a missão está sendo cumprida”, orientou Margareth.

Seja no trabalho ou na vizinhança, entre amigos, familiares ou ainda entre pessoas desconhecidas, ser missionário faz parte do DNA de todo cristão e implica em várias ações concretas em favor da vida. Negar esse chamado é o mesmo que negar a essência do Cristianismo, uma vez que o próprio Deus fez do seu único filho um missionário em seu plano universal de redenção.

 [servico] “Tudo que eu possa fazer ainda será pouco”
“Foi muito caro o preço que Deus pagou por mim, por isso, qualquer coisa que eu faça é pouco. Sinto muita vontade de agradá-lo e ao mesmo tempo Ele me enche de amor pelas pessoas à minha volta”. É dessa forma que a estudante de Direito Shalline Moreira Estanislau, de 21 anos, define sua vida vida com Deus.

Ela não atua apenas nos programas de sua igreja, a Metodista de Jardim Camburi, em Vitória, ela vai além. Abre sua casa para discipular um grupo de meninas da comunidade; ajuda na distribuição de alimentos e roupas a moradores de rua; distribui folhetos evangelísticos nos ônibus da Grande Vitória.”Às vezes me desespero por não entender exatamente o que fazer, daí eu tento executar o que vem à minha mão ou à minha mente”, disse a estudante.

Todo sábado, há quase seis meses, Shalline reúne em sua casa ou na igreja sete meninas entre 11 e 15 anos para estudar a Bíblia. “Percebi que quando chegava nessa idade, as meninas saíam da igreja, então veio a ideia de ter um tempo com elas de discipulado. Elas se abrem, falam de suas dificuldades e eu tento ajudá-las. Vejo que hoje elas já conseguem enxergar seus próprios erros e sabem mais da Bíblia, o que é um grande progresso”, contou.

Durante a semana, Shalline participa, junto com um grupo de jovens, da distribuição de alimentos e roupas para moradores de rua do Bairro de Fátima, na Serra. “Vamos todas as quartas-feiras. Desenvolvemos uma amizade com eles”, disse Shalline que acrescentou que, ao andar de ônibus, sempre pede coragem a Deus para compartilhar do Evangelho com a pessoa ao lado.

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