Tudo é vaidade?

A valorização da aparência tem limite? Como anda a sua vaidade? A Bíblia nos alerta sobre a importância de combatermos a vaidade para que ela não vire uma obsessão, pois tudo em nós deve ser a expressão da glória de Deus.

O Brasil é líder mundial em cirurgias plásticas feitas em jovens com idade entre 13 e 18 anos. O mais recente censo da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), de 2018, aponta um aumento de 141% no número de procedimentos nos últimos 10 anos.
Dos quase 2 milhões de procedimentos registrados somente no ano passado, 60% tinham fins estéticos. Esses dados mostram que, mesmo diante da crise, o brasileiro se preocupa bastante com a beleza.

E na lista das técnicas mais procuradas estão a lipoaspiração e a implantação de próteses de silicone nas mamas, especialmente entre os meses de julho e outubro. Isso porque, além de fatores sociais, como maior quantidade de eventos no verão, na estação mais fria há uma menor propensão a edemas, explica o cirurgião plástico Eduardo de Almeida Mello.

“Temos que ter um corpo saudável para guerrear as lutas do dia a dia que fazem parte dos planos de Deus” Pr. John Bassi, da Igreja Renascer em Cristo em São Paulo

Mas como lidar com a vaidade, algo tão criticado por toda a Bíblia? Essa valorização da aparência, que muitas vezes beira a obsessão, integra o rol dos chamados “Sete Pecados Capitais”. No primeiro capítulo do livro de Eclesiastes, no Antigo Testamento, o rei Salomão, já em idade avançada, faz referência ao caráter transitório e critica, de forma generalizada, o aspecto inútil e as vãs realizações desta vida ao falar. “Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece (Eclesiastes 1:2-4)”, destaca o pastor Ricardo Guimarães, da Igreja Videira, com sede no Rio de Janeiro.

Apesar do alerta feito pelo monarca do povo de Israel, pastor Ricardo defende que é possível ser vaidoso sem cometer pecado, desde que essa característica não esteja ligada ao sentido de presunção, convencimento, pretensão, soberba ou ostentação. “Se a vaidade for considerada como aquele cuidado necessário, contrário à mentalidade de desleixo com o corpo, eu diria que é até necessária. Uma boa alimentação e exercícios regulares são importantes para uma boa saúde. Quando a pessoa não tem uma saúde boa, ela tem uma tendência muito forte a prostração, e isso é ruim”, justifica.

Ele ressalta que tudo em nós deve ser expressão da glória de Deus. “Sempre digo que o que de fato tem valor é a essência, mas, se a essência estiver numa embalagem bem apresentada, fica muito mais agradável às vistas. Mas acima de tudo que o nosso corpo seja uma expressão da glória de Deus, porque ele é templo do Espírito Santo e, como tal, deve receber todo cuidado possível de que precisa para ser preservado e bem apresentado (I Co 6:19)”, resume o líder religioso.

Entretanto, fazendo uso da Palavra de Deus, o pastor revela que o próprio apóstolo Paulo alertava Timóteo acerca dessas futilidades da vida. Tal advertência está descrita em I Timóteo 4:8 – “Porque o exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa”. “Já naquela época havia pessoas que idolatravam o próprio corpo, influenciadas pelos atletas que participavam dos jogos olímpicos na Grécia. Parece que, em algum momento, Timóteo estava se deixando levar por essa mentalidade. Hoje estamos vivendo dias semelhantes e até piores, em que o corpo é endeusado em detrimento do espírito”, observa Pr. Ricardo.

Culto ao corpo

Para a psicóloga clínica e hospitalar Nala Rizzo, vivemos em uma sociedade que cultua e valoriza bastante a beleza física. Dessa forma, gera-se uma ideia de que, para ser bem-sucedido, é preciso ser magro, jovem e saudável, algo que é transmitido pela mídia e massacra o indivíduo.

“Na era digital, de exaustiva exposição nas redes sociais, a constante comparação alimenta cada vez mais a busca por se enquadrar nos padrões de beleza atuais e inatingíveis. Com isso, muitas pessoas, principalmente mulheres, têm adoecido emocionalmente. Essa busca pelo corpo perfeito gera muito estresse, cobrança, ansiedade e frustração”, salienta.

“Beleza é uma questão muito subjetiva e que muda de padrão de acordo com a época” –Eduardo de Almeida Mello, cirurgião plástico

Nala explica que se cuidar e se sentir bem e bonito é natural e saudável. O problema surge quando se quer atingir padrões sem respeitar as próprias características e biotipo, o que pode resultar em uma agressão contra si mesmo e trazer muito sofrimento. “A insatisfação constante, mesmo após procedimentos, é indício de uma vaidade excessiva e que geralmente está associada a uma distorção da própria imagem. Um caso muito famoso é o do cantor Michael Jackson.

A falta de amor-próprio traz sentimento de insegurança, incapacidade, inferioridade, medo de rejeição e muita ansiedade. A pessoa sofre bastante por se sentir inadequada, diferente e excluída e busca mecanismos externos de compensação para lidar com toda essa angústia e desconforto emocional.”

Esse desconforto emocional é capaz de desenvolver alguns tipos de transtornos. Nesse caso, os mais comuns são o transtorno dismórfico corporal e os transtornos alimentares (saiba mais em nosso box). “A pessoa tem uma visão distorcida de sua imagem corporal e costuma buscar excessivamente por dietas severas, plásticas, atividade física, tudo de forma compulsiva, rígida e exagerada. A percepção do que é a beleza adapta-se de tempos em tempos, e esse ideal estético tem levado muitas pessoas a se submeterem a procedimentos com graves consequências em sua saúde, tanto física, quanto mental.

Não é incomum escutarmos sobre casos malsucedidos que levaram ao óbito, seja por decorrência de complicações clínicas provenientes de cirurgias, seja até por algum quadro de depressão, que quando negligenciado pode levar ao suicídio”, afirma a psicóloga.

O desafio do equilíbrio

Nala deixa um conselho importante para quem necessita encontrar o equilíbrio entre a vaidade exacerbada e o cuidado importante com o corpo. “Aceite-se! Cada pessoa tem uma beleza única. Cuidar-se e ser vaidosa faz parte da natureza, principalmente da mulher, mas é importante ficar atenta para não chegar ao ponto de se deixar escravizar por isso. A pessoa precisa perceber se está em sofrimento por não atingir ou corresponder aos padrões sociais de magreza e beleza, se apresenta uma rigidez excessiva ou se sente que essa busca está lhe trazendo prejuízos no campo pessoal ou profissional”, finaliza.

A cosmetóloga Louise Dutra Patrício defende que o melhor é se olhar no espelho e gostar do que está vendo. Só isso já é o suficiente para se sentir bem consigo mesmo e mais confiante. “A maquiagem e os cosméticos de cuidados com a pele e cabelos são grandes auxiliares para a autoestima. Mas existem pessoas que colocam a sua imagem física acima de outros valores e chegam até a se tornar viciadas em compras de cosméticos ou em procedimentos estéticos e cirúrgicos. Isso é o limite entre o comportamento normal e o desequilibrado. Mas acontece com as pessoas em diversas esferas, não só na parte estética, às vezes também é com compras de roupas, sapatos, acessórios. Tudo o que é extremo não é bom. Nesses casos é necessário que a pessoa enxergue o problema e procure ajuda profissional”, reforça.

CEO da Beleza Pura Store, que possui uma linha de produtos naturais sem compostos de origem animal, Louise conta que o mercado de cosméticos está sempre em crescimento e resiste a todas as crises, pois os consumidores necessitam de produtos para sua higiene pessoal. “As tendências e avanços tecnológicos são os principais fatores que conduzem esse mercado. São eles que determinam o que será lançado. Todos os dias são descobertas novas tecnologias e ativos em prol da beleza. O maior cuidado é escolher produtos adequados para o seu tipo de pele, pois ao usar algo inadequado você corre o risco de ter alguma reação indesejada, como ficar com a pele ainda mais oleosa e até com acne.”

Riscos dos excessos

Além de observarmos o assunto à luz da Palavra, e o quanto o Manual da Vida nos adverte sobre a importância de combatermos a vaidade, vamos considerar o alerta dos especialistas sobre os riscos desse desejo desenfreado pela beleza eterna. “A busca pela perfeição nunca é saudável, porque ela jamais será alcançada. Beleza é uma questão muito subjetiva e que muda de padrão de acordo com a época. Todos nós temos imperfeições e, quando elas afetam nosso humor, nossa autoestima ou nosso dia a dia, a cirurgia plástica pode ajudar e é indicada na maioria dos casos”, aponta o médico Eduardo de Almeida Mello.

No entanto, o especialista relata que há casos que merecem atenção redobrada, como a condição na qual os pacientes se enxergam de maneira diferente do que são, chamada de dismorfismo corporal.

“O magro se enxerga gordo; outro que tem o nariz normal, proporcional, enxerga em si defeitos que não existem. Nesses casos, nós, cirurgiões plásticos, devemos estar atentos para identificar esses pacientes e buscar ajudá-los de outra maneira, porque além de não terem indicação cirúrgica, dificilmente ficarão satisfeitos com o resultado e buscarão cada vez mais cirurgias”, afirma o cirurgião.

Para o pastor John Bassi, que atua como bispo na sede da Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo, os cuidados com o corpo são essenciais desde que não sejam colocados acima de Deus.

“Não tem como alguém falar que não tem vaidade. Mas, quando ela fica acima dos princípios da vontade de Deus, torna-se uma idolatria, é aí que mora o perigo, porque tem essa linha tênue entre os cuidados pessoais e aquilo que se coloca além das coisas de Deus”, avalia John, que também atua com ministério de dança há 20 anos com a esposa, Carol Bassi.

Educador físico, o pastor reforça a importância da mordomia com a saúde. “Cuidar do corpo é essencial, porque ele é o templo do Espírito Santo. Além de todos os benefícios físicos, quando temos um corpo bem cuidado, bem alimentado e bem treinado, temos mais energia. No Antigo Testamento, vemos os grandes guerreiros e, com certeza, eles cuidavam do corpo, e isso não é diferente para nós.

Devemos ter um corpo saudável para guerrear as lutas do dia a dia que fazem parte dos planos de Deus. Quando nos cuidamos, estamos louvando ao Senhor e agradecendo a Ele pelo corpo e pela vida que temos. Quando cuidamos do nosso corpo, cuidamos do templo para nos mantermos de pé”, finaliza.

O melhor caminho para evitar a vaidade é focar em Deus.  Quando colocamos o Altíssimo em primeiro lugar em nossa vida, não há mais lugar para a vaidade.