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quarta-feira, 14 abril 2021

Estudos apontam risco de transmissão da covid em igrejas

Ambientes fechados, pouca ventilação, amplo contato entre fiéis, uso compartilhado de objetos e cantos litúrgicos.

Por Geila Salomão

As celebrações religiosas presenciais reúnem fatores que contribuem e intensificam a transmissão da Covid-19, é o que mostram pesquisas internacionais. Pesquisadores destacam que entre eles, está o fato de reunir grande número de pessoas em espaços fechados ou promover atividades que aumentam a chance do vírus se espalhar, como cantar, e por isso, as cerimônias podem estar ligadas ao surgimento de surtos.

Uma dessas pesquisas foi realizada pela Universidade de Stanford, (EUA), que elaborou um ranking dos locais mais propícios à contaminação. Pela projeção, as igrejas e templos religiosos aparecem em 6º lugar em grau de risco, na frente de consultórios médicos (7º) e mercados (8º) e atrás de restaurantes (1º), academias (2º), hotéis e motéis (3º), bares e cafés (4º) e lanchonetes (5º). O entendimento é de que as cerimônias podem estar ligadas ao surgimento de surtos, destaca reportagem do Estadão. Para os cientistas, o controle do vírus seria mais eficiente se as medidas de restrições fossem direcionadas a esses locais.

No último final de semana, em que foi celebrada a Páscoa, um feriado religioso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques decidiu autorizar celebrações religiosas presenciais. A decisão foi monocrática, e criticada inclusive por outros ministros do STF e gestores públicos.

Opinião de um pastor

“Este é um momento de muita cautela, sobretudo de empatia, de se colocar no lugar do outro, pois o risco é muito grande. A igreja cumpre um papel social extremamente importante neste momento de pandemia, pois as pessoas estão adoecidas na parte física e emocional. Seguindo o protocolo de segurança das normas estabelecidas pelos órgãos, acredito que as igrejas deveriam se manter abertas. Defendo que, com responsabilidade, os templos poderiam abrir suas portas, mas individualmente, pois cada um de nós somos a igreja e onde nós estivermos a igreja estará aberta”, diz o pastor Alcemir Pantaleão, da Igreja Evangélica Peniel, em Vila Velha (ES).

Desde o início da pandemia, pesquisadores têm se dedicado a compreender o comportamento do vírus. Evidências científicas indicam que a principal forma de contaminação é por contato com gotículas expelidas, por exemplo, durante a fala, espirro ou tosse.

Vitor Mori, físico, pesquisador da Universidade de Vermont (EUA) e membro do Observatório Covid-19 BR, diz que igrejas e templos religiosos não apenas têm “risco muito alto” de transmissão do vírus, como também são eventos de “superespalhamento”. “A força motriz por trás da pandemia é ligada a esses eventos, onde muitas pessoas se infectam ao mesmo tempo. Normalmente acontecem em espaços fechados, com muita gente, onde as pessoas estão cantando ou gritando”, destaca.

Nestes casos, segundo ele, o uso inadequado da máscara e a falta de respeito ao distanciamento mínimo de dois metros também agravam a situação. “Álcool em gel e medição de temperatura são inúteis na transmissão pelo ar, que é a principal da covid”, aponta Mori.

Coreia do Sul

Os casos mais simbólicos envolvendo atividades religiosas foram registrados na Coreia do Sul. Ainda em fevereiro de 2020, o governo apontou a Igreja de Jesus Shincheonji, onde fiéis acompanhavam os cultos sentados no chão, ombro a ombro, como o epicentro do coronavírus no país. “Ficando perto de outras pessoas por mais do que 15 minutos, existe um risco. Quanto mais gente tiver e mais próximo, maior o risco”, afirma Bittencourt, da USP.

Já em setembro, o governo de Seul anunciou que pediria indenização de US$ 4 milhões a uma igreja da cidade, acusada de dificultar ações de controle e provocar novo surto de covid na região. O líder religioso chegou a ser preso em agosto, sob suspeita de esconder casos da doença e impedir seguidores de realizar testes.

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, a discussão sobre o fechamento de cultos religiosos também foi parar na Justiça. Em novembro, a Suprema Corte proibiu o governador do estado de Nova York de impor restrições, com base na defesa da liberdade de culto citada na Constituição.

Nesse julgamento, a Associação Médica Americana (AMA) foi contrária à reabertura de templos e à realização de cultos na pandemia. Um dos casos lembrados pela entidade é o de uma igreja rural no Arkansas, onde 35 dos 92 participantes pegaram covid em uma celebração em março. Três morreram.

Segundo a AMA, eventos religiosos reúnem uma série de “fatores de risco” para proliferação da doença. “Grande grupos de pessoas entram em um ambiente fechado, sentam-se ou ficam em pé perto um do outro por uma quantidade significativa de tempo e, normalmente, falam e cantam”, argumenta.

A decisão do tribunal de liberar cultos estava em desacordo com outras anteriores a respeito de igrejas na Califórnia e em Nevada, mas seu quadro de membros mudou desde então. Indicada por Donald Trump poucas semanas antes da eleição, a juíza Amy Coney Barrett teve papel decisivo na votação apertada, de 5 a 4.

Outros países

Em outras partes do mundo, eventos tradicionais têm sido adaptados por causa da covid. Por causa da pandemia, o papa Francisco celebrou a última Semana Santa a portas fechadas pelo segundo ano consecutivo, sem multidões de fiéis que marcam as missas.

Um dos países europeus mais atingidos pelo vírus, a Itália iniciou no sábado, 3, um confinamento restrito — com todo o território considerado “zona vermelha”. No mesmo dia, a França iniciou o terceiro lockdown desde o início do surto, mas o presidente Emmanuel Macron declarou que as regras seriam aplicadas com menos rigor no fim de semana da Páscoa.

Em Jerusalém, os locais religiosos que haviam sido fechados no ano passado agora ficaram abertos, mas para um número limitado de fiéis. Israel, no entanto, não recebeu o fluxo normal de peregrinos já que as viagens para o país continuam restritas. O país também tem a maior proporção da população já vacinada do mundo (60%).

  • Com informações do Estadão
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