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terça-feira, 30 novembro 2021

Teólogo explica a importância de ir à igreja

“O culto como entretenimento e as pessoas como plateia é um modelo falido, superficial e longe do conceito bíblico”

Por Marlon Max 

A pandemia mudou a forma de se participar dos cultos. Com as restrições sanitárias, a ida até a igreja foi inviabilizada. Porém, o aparato tecnológico criou meios para que o cristão interaja a partir do conforto do seu lar com as atividades dominicais. Antes da crise trazida pelo coronavírus, a presença de membros nos bancos de diversas igrejas já diminuía em diversas denominações, sobretudo entre os mais jovens, que estão imersos na pós-modernidade e suas tendências.

Nadia Catherine, de 37 anos, é uma entre muitas pessoas que optam por não pertencer ou frequentar uma comunidade de fé. “ Por conta da pandemia tenho evitado ir à igreja, mesmo porque a maior parte do tempo ela tem permanecido fechada, então tenho assistido pregações online”, disse. Mesmo não indo ao templo, ela não abre mão da crença e da vivência cristã.

A jovem conta que cresceu frequentando a igreja, mas que após um tempo a ida aos cultos deixou de ser parte da rotina semanal. “Depois de um tempo, eu percebi que não consigo mais ser ‘ouvinte’, tinha que sempre levar uma amigo, não cristão, pra fazer algum sentido eu estar indo”, explicou e expôs também que passou a ter problemas com as doutrinas da igreja em temas da atualidade. “Também percebi que eu não conseguia aceitar como verdade alguns dogmas”, concluiu.

Entre as muitas queixas sobre o modelo, dogmas ou formatos, ainda há aqueles que permanecem congregando. Para o Reverendo Pablo Núñez, a solução de quem não consegue aderir ao formato da igreja na atualidade não está em sair, mas em ficar. “Eu acredito que se você quer mudar a igreja você precisa ser parte desse processo de reforma de dentro pra fora”, frisa.

O que muitos se perguntam é, porque devemos continuar indo à igreja? Entre os motivos recorrentes de quem não frequenta mais uma comunidade de fé está a infinidade de meios propiciados pela tecnologia, a cultura de consumo rápido de conteúdo — viável na internet, e a própria rejeição do modelo da igreja e doutrinas. Mas afinal, por que o cristão deve continuar congregando?

Comunhão conversou com o Teólogo e Reverendo da Uniting Church, em Balina, Austrália, Pablo Núñez para entender o que se deve levar em conta quando se pensa em ir a uma igreja ou, como em muitos casos, deixar de ir à congregação. Nuñes acumula décadas como missionário em muitos países e, antes de estar à frente de uma congregação, foi líder de uma das bases operacionais de Jovens Com Uma Missão (Jocum), na Austrália, coordenando centenas de projetos missionais.

Comunhão — O que torna a igreja um lugar especial para aqueles que têm fé em Cristo?

Pablo Núñez — Existe no nosso DNA como cristão o chamado e o mandamento para nos reunirmos com outros santos para compartilhar em oração, adoração e o estudo da palavra. Essas atividades, mesmo que possam ser feitas individualmente, adquirem um contexto muito maior feito em comunidade.

Em todo mundo, vemos um número crescente de pessoas que não abrem mão da fé, mas não frequentam uma igreja. Por que isso está acontecendo?

Eu acredito que exista uma decepção generalizada com instituições, mas vemos de forma especial isso se manifestando na rejeição da instituição religiosa. Os cristãos estão começando a separar cada vez mais a igreja como movimento, da igreja como instituição.

Como a igreja pode recuperar essas pessoas que preferem não congregar mais?

A igreja precisa de uma nova reforma na qual busquemos retornar às origens, e nos concentrarmos na comunhão, nos sacramentos e nas disciplinas espirituais mais do que em programas e esquemas de crescimento que geralmente leva-o ao inchaço e não ao amadurecimento.

O que a Bíblia diz sobre congregar? A igreja está acertando nesse sentido?

Congregar é se reunir com os santos, algo que originalmente era feito em lares e só se tornou uma atividade em templos no século IV em uma jogada política e não em um movimento genuinamente cristão. Precisamos recuperar o chamado ao sacerdócio de todos os cristãos e ao entendimento da nossa missão, ativando a vocação dos cristãos. O culto como entretenimento e as pessoas como plateia é um modelo falido, superficial e longe do conceito bíblico.

Existe experiência cristã fora da igreja? É possível se autodenominar evangélico e não pertencer a uma comunidade de fé?

A experiência com Deus nunca pode ser confinada aos limites da igreja, mas não existe para ser vivida em individualidade. “Onde estão dois ou três reunidos em meu nome” continua a nos lembrar do aspecto comunitário de todas as atividades como cristãos, e essa comunidade é organizada em ministérios e estruturas bíblicas para gerar discipulado, amadurecimento e missão na vida da Igreja.

Rejeitar certas expressões da igreja institucional não é apenas entendível mas, de certa maneira, esperado de alguém que procura uma expressão mais orgânica do corpo de Cristo. Mas rejeitar toda expressão da igreja também é um passo imaturo, porque não apresenta uma solução. Eu acredito que se você quer mudar a igreja você precisa ser parte desse processo de reforma de dentro pra fora.

 

Rev. Pablo Núñez
Foto: Arquivo pessoal

Pablo Núñez é uruguaio, pastor da Ballina Uniting Church — que é a união das igrejas presbiterianas, metodistas e congregacionais na Austrália.

Ele é Bacharel em Teologia pela Charles Sturt University e Bacharel em Ministério Cristão pela Uniting Leadership and Theological College. Núñez foi missionário da Jocum no Brasil por 8 anos e na Austrália por 14 anos.

É casado com a capixaba Fernanda e pai de Isabella e Santiago. Faz questão de dizer que é torcedor do Peñarol e do Flamengo. 

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