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segunda-feira, 21 junho 2021

Tempo em família: O antídoto para o mal da sociedade

As mudanças na anatomia da sociedade pós-moderna estão achatando as relações familiares e o resultado aparece nos indicadores sociais

Por Fabiana Tostes

Violência, filhos com caráter mal formado, divórcios, flexibilização de valores, entre outras mazelas, são marcas desta geração. Há quem aposte numa desintegração total das relações familiares e, por consequência, da própria sociedade. Porém a Bíblia mostra que é possível, mesmo em pleno século XXI, a mudar o rumo da história, através do investimento no tempo em família.

É só olhar um desenho de uma criança para saber o que tem valor para ela. Ainda que seja pequeno o pedaço de papel, ela sempre arranja uma forma e um espaço para traçar toda sua família, uma casa, uma árvore no quintal rabiscado… Suas brincadeiras remetem a relacionamentos familiares que ela tem ou desejaria ter no futuro. Seus sonhos? Formar uma linda e perfeita família quando crescer!

O tempo passa. As crianças crescem, estudam e se formam. Agora, já adultos, engajam-se num mercado de trabalho acirrado e competitivo, que exige cada vez mais energia de quem o compõe. Há muito trabalho e pouco tempo. Há muitos desejos e pouco dinheiro. Há muitas sugestões e nenhuma verdade. O que tinha valor agora já não tem mais e a família, quando colocada numa balança de prioridades, sempre é a que mais sofre. E os frutos disso são colhidos na sociedade.

Um estudo realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) relacionou a criminalidade à desestrutura familiar. Os economistas Gabriel Hartung e Samuel Pessoa compararam estatísticas de criminalidade nos municípios paulistas de 1999 a 2001 com taxas de fecundidade verificadas em 1980. No estudo, divulgado em 2007, eles afirmam que a literatura criminal já descobriu fortes evidências de que crianças nascidas de mães solteiras, criadas sem o pai ou nascidas de mães com baixa escolaridade têm mais probabilidade de se envolver em crimes.

O estudo vem sendo discutido há dois anos. No entanto, quem conhece a Deus e seu propósito ao criar a família não se espanta com o que pode acontecer nas diversas áreas da sociedade. “A família sempre vai influenciar a sociedade, seja para o bem ou para o mal. A sociedade é um retrato ampliado daquilo que acontece dentro da família, por isso ela é tão estratégica”, disse o pastor Joarês Mendes de Freitas, da Igreja Batista em Jardim Camburi, Vitória.

Um exemplo claro dessa influência se passa na vida de Abraão. Através de sua obediência em cumprir o chamado de Deus para sua vida, ele pôde influenciar e abençoar, em tempos futuros, todas as famílias da terra, ou seja, toda a sociedade (Gn 12). Sua descendência seguiu os mandamentos do Senhor e por várias gerações o povo tinha como referência o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó.

“A forma mais eficaz da família exercer uma influência benéfica sobre a sociedade está na formação moral e espiritual dos indivíduos. É papel da família ensinar os valores fundamentais da vida e zelar para que eles sejam praticados”, disse o pastor Joarês. No entanto, mesmo tendo o poder de influenciar toda a sociedade, a instituição familiar é, por incontáveis vezes, desprezada e ignorada até mesmo pelo povo de Deus.

O que há de errado?

Certa vez, um ilustre brasileiro chamado Rui Barbosa disse, em um de seus poemas, que a família é a célula mater da sociedade. Nada diferente, a cultura norte-americana foi construída em cima da defesa de que a família é o pilar de uma nação. No entanto, não é necessário um olhar minucioso sobre a sociedade de hoje em dia para perceber que ela está longe de corresponder às poesias do século XIX ou à pedra angular de qualquer cultura, seja das Américas ou de qualquer parte do mundo.

De acordo com o doutor Jaime Kemp – que é pastor, escritor, estudioso da Bíblia e tem seu ministério pautado em ajudar famílias – a instituição familiar tem enfrentado várias mudanças, entre as quais ele destacou duas num de seus artigos publicados na Bíblia da Família, que explicam essa metamorfose.

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Pastor americano Jaime Kemp. Foto: Reprodução

“Em primeiro lugar, houve a migração de uma população rural para os centros urbanos e a consequente adaptação ao ritmo mais estressante e alucinante das grandes cidades. Em segundo lugar, ocorreu o desaparecimento da família tradicional, onde o pai era o único provedor. Isso provocou o aumento de responsabilidades e afazeres para todos os membros da família, incluindo as crianças, o que interferiu sensivelmente no convívio familiar, já que o tempo disponível para estarem juntos tornou-se escasso”, relata Kemp.

E completa: “Essas transformações facilitaram o crescimento do Humanismo (destronização de Deus e entronização do homem), do Secularismo (a eliminação do sagrado) e do Materialismo. Tornamo-nos uma sociedade hedonista, obcecada por autorrealização, por prazer e pelo acúmulo de bens. O homem é o centro do seu universo, e toda sua atenção é voltada para si mesmo. Se, por acaso, o cônjuge estiver atrapalhando suas aspirações, ele o abandona e troca por outro, mais conveniente”, relata Kemp.

Ele afirma que, para muitas pessoas, a família deixou de ser importante, digna de investimento, e essa troca de prioridade é que tem ocasionado muitos males.
“As exigências da vida moderna fazem com que pais e mães se ausentem de suas casas por longos períodos, deixando seus filhos aos cuidados de babás, em creches, em escolas e, se nada disso for possível, na rua, sem supervisão de um adulto. Por outro lado, quando todos estão juntos em casa, há pouco diálogo. A televisão, a internet e o cansaço impedem que as famílias mantenham um nível de comunicação que aprofunde sua intimidade. As pessoas estão mais fechadas e mais voltadas para si mesmas e colocam como parte do passado os relacionamentos mais afetivos e fraternais”, argumenta Kemp.

E a falta de investimento nos relacionamentos familiares abre portas para outros males. “Os valores que distinguem o certo do errado e dão suporte ao compromisso do casamento estão desaparecendo. As separações e os divórcios provocam um efeito devastador à família. Esses são apenas alguns fatores que prejudicam a estabilidade familiar contrariando a vontade de Deus, que é colocarmos nossas famílias como a maior prioridade de nossa vida”, disse Kemp em seu artigo.

O que fazer?

A Bíblia é enfática ao exortar para que o homem e a mulher de Deus cuidem bem da sua família. A Moisés, Deus deixou claro em suas leis que era uma obrigação dos pais ensinar os filhos quanto aos mandamentos do Senhor (Dt 6: 7). É no aconchego do lar, envoltos às características e peculiaridades de cada membro da família, que os valores bíblicos deveriam ser passados.

Hoje, no entanto, tornou-se mais fácil designar esta tarefa exclusivamente à Escola Dominical. O próprio Moisés foi exortado pelo seu sogro Jetro a respeito das suas prioridades e ao tempo que dedicava à família e ao ministério (Ex 18).
Na carta de Paulo a Timóteo, o apóstolo exorta os aspirantes ao episcopado que “governem bem a sua própria casa, tendo seus filhos sob disciplina, com todo o respeito (I Tm 3:4)”. O próprio jovem Timóteo era fruto do ensinamento que recebeu desde a infância (II Tm 3:14-15).

Porém, ensinar valores e princípios bíblicos dentro do próprio lar é uma tarefa que exige dedicação, tempo e perseverança. É necessário investimento maciço e constante. Em muitos casos, torna-se necessário adiar compromissos, refazer agendas e abrir mão de alguns projetos pessoais.

Foi o que fizeram Thiago e de Luciana Oliveira, membros da Igreja de Nova Vida, em Goiabeiras, Vitória. Logo ao se casarem, em janeiro de 2007, os dois sabiam que teriam que abrir mão de algumas coisas em prol da família. Com a chegada do primeiro filho, esse propósito se intensificou.

“Às vezes abro mão de algumas programações para passar mais tempo em casa, e a Lu, que é enfermeira, troca algumas escalas no trabalho para coincidir de estarmos juntos. A família é a base de tudo, onde adquirimos nossos valores, onde se forma a base do caráter. Acho importante investir tempo na família”, disse Thiago.

Luciana chegou a pedir demissão de um dos empregos e recusar outras propostas para não ficar mais tempo longe de casa. “Sou muito tentada a arranjar outro emprego, para ganhar um salário melhor, mas sempre que me dá essa vontade, eu penso no tempo que vou ficar longe do meu marido e do meu filho, aí desisto. Quero acompanhar o crescimento do Miguel. Quando estou em casa a gente procura fazer as refeições junto, tirar um dia para passear em família, e conversar muito”, disse Luciana.

Além de ter um tempo de qualidade, o casal também vê a necessidade de ensinar os valores bíblicos para o filho Miguel, de um ano e oito meses. Eles procuram realizar cultos domésticos, estudos no lar e criar um ambiente de adoração que inclua o bebê.

“Meu filho já dá as mãos para orar pelo alimento, gosta de ver DVDs de adoração, canta, dança, gosta de ir à igreja… Ele já está aprendendo a amar a Deus dentro da família. Aqui em casa nós conversamos, oramos juntos, compartilhamos tudo. Não troco esse tempo por nada. Vejo que hoje as pessoas dão pouca importância à família. Fico imaginando que tipo de sociedade teremos daqui a alguns anos, pois tudo começa na família. Se não temos tempo para a família, como conseguiremos mudar o mundo?”, questionou Luciana.

Pastor_Joares_Mendes
Foto: Arquivo pessoal

Para o pastor Joarês, se algumas mudanças rápidas não acontecerem, a estrutura familiar estará comprometida, e por consequência, a própria sociedade.

“A mudança de algumas atitudes, como a valorização do casamento e da família como instituições divinas, a preparação adequada antes do casamento e da chegada dos filhos e a manutenção permanente da família para evitar a erosão pelo desgaste do tempo, entre outras coisas, pode restaurar os laços familiares”, disse o pastor.

Jaime Kemp defende que o cultivo ao amor dentro de casa irá trazer mudanças ao mundo inteiro. “O ser humano possui certas necessidades que só podem ser supridas no contexto familiar. E a família que vivencia o amor de Cristo entre si torna-se um importante canal de testemunho ao mundo”, concluiu Kemp.

Invista tempo em sua família

  • Dedique um dia por semana ao cônjugue
  • Promovam cultos domésticos e orem juntos
  • Sempre que possível, procurem envolver todos nas principais refeições
  • Valorizem os diáogos e diminuam as horas em frente à TV ou ao computador
  • Promovam passeios com toda a família
  • Façam caminhadas ou andem de bicicleta juntos
  • Brinquem com jogos de mesa que encolvam toda a família
  • Convide a família para um cinema ou teatro
  • Acampem num fim de semana
  • Plante um jardim ou uma horta com toda a família
  • Não fuja das conversas
  • Não adie os problemas nem oque precisa ser resolvido em família
  • Assistam a um jogo de futebol no estádio
  • leiam um livro em família
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