Profissionais que trabalham diretamente nesse universo explicam o que é necessário para transformar sua vocação em obra publicada
Por Rodrigo Araujo
Ser escritor é mais do que colocar palavras no papel — é um chamado para tocar corações e transmitir mensagens que transformam. Mas será que gostar de literatura, saber escrever bem e ter grande conhecimento sobre determinado assunto são requisitos suficientes para uma pessoa conseguir publicar seu primeiro livro?
Na última sexta-feira (25) foi celebrado o Dia do Escritor, Comunhão traz algumas considerações de profissionais que trabalham diretamente no universo editorial de livros para que essa pessoa tenha uma noção de como pode um dia se tornar um escritor — ou escritora.
Lilian Cardoso, CEO da LC Agência de Comunicação, voltada para a divulgação de livros, destaca que é importante a pessoa entender que escrever por paixão é diferente de se posicionar como escritor no mercado editorial. “A partir do momento que a pessoa sente que tem um texto com potencial para virar livro, é essencial organizar esse conteúdo pensando no leitor — e não só na experiência pessoal. Revisar, estruturar, testar com leitores beta e buscar estudar sobre o mercado do livro são passos fundamentais”, orienta.

Magno Paganelli, autor e editor de livros no Grupo Editorial Citadel lembra que o aspirante a escritor tem basicamente dois caminhos a serem percorridos: produção independente, quando a pessoa é totalmente responsável pela produção, distribuição e custos desse livro — mas fica com todo o lucro de sua venda — ou buscar uma editora para pleitear a publicação desse material.
“Se ela tem um capital para investir na própria produção e se ela costuma dar palestras ou tem um público que pode comprar esse livro — por exemplo, seguidores em redes sociais —, ela pode partir para impressão independente, a produção própria do autor. A maneira clássica de publicar um livro é submeter à avaliação de uma editora, mas hoje cada dia mais as editoras estão escolhendo autores não apenas pelo conteúdo, mas também pela audiência que eles já possuem, porque isso vai garantir que ele terá demanda para venda”.
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“Quando esse texto estiver na editora, aí a disputa vai ser com outros autores que também estão ali apresentando as suas obras, e o editor vai optar geralmente por publicar um livro de cada vez. Não vai publicar dois, três livros do mesmo tema no mesmo semestre, por exemplo. A força de divulgação e de venda em cima de uma obra também depende desse livro ser único. Mesmo que a editora publique, por exemplo, sobre teologia, ela não vai lançar dois livros de teologia juntos. O editor vai lançar um sobre teologia do Antigo Testamento, uma teologia do Novo Testamento, ou uma sistemática no semestre e uma teologia bíblica no outro semestre”, explicou Paganelli.
Lilian Cardoso ressalta que o fator de maior peso é a viabilidade comercial daquele projeto — quem é o público-alvo, como o autor pretende divulgar esse livro ou se existe uma demanda de mercado para esse tema.
“Hoje, mais do que nunca, as editoras buscam autores que não apenas escrevem bem, mas que têm presença nas redes, ideias organizadas e disposição para participar ativamente da divulgação. Por isso, não basta ter um original bom — é preciso apresentar o projeto com clareza, estratégia e propósito”.
Magno Paganelli lembra ainda que cada editora tem o seu perfil e, portanto, só escolherá obras que estejam dentro de sua linha editorial. “Não adianta escrever um livro sobre família, por exemplo, e mandar para uma editora que publica atualidades ou que publica textos técnicos. Por isso, é importante que o autor identifique a editora que está publicando livros com o conteúdo que ele está escrevendo. Tem também a questão de atualidade, se o tema é atual, se está sendo discutido, se tem pesquisa”.

“Temas universais com abordagem original sempre ganham força: autoconhecimento, espiritualidade, maternidade, relacionamentos, empreendedorismo, ficção com carga emocional e boas histórias reais. Mas o mais importante é: como esse autor trata esse tema? O que ele traz de novo? Qual é a mensagem por trás da obra? As editoras valorizam obras com clareza de proposta e conexão com o leitor — e autores que mostram comprometimento com o projeto, desde o conteúdo até a comunicação”, complementa Lilian.
Os dois profissionais ressaltam também a importância do autor escrever seu texto de uma forma organizada, dividindo o assunto em tópicos específicos, de maneira que facilite a divisão da obra por capítulos.
“Existem autores muito organizados e que já entregam o livro bastante adiantado. Então aí o trabalho editorial acaba sendo menor. Mas não é sempre que isso acontece. Então o editor ou um profissional contratado pela editora pode organizar o livro para que ele atenda aos parâmetros do mercado. Eu, como editor, já recebi muito material que o autor não tem ideia de como se organiza uma obra, mesmo ele tendo o conteúdo e sendo uma autoridade naquele conteúdo. Então essa organização, muitas vezes, é feita a quatro mãos — é o trabalho do editor junto com o autor”, relata Magno Paganelli.
“É comum, principalmente em editoras que trabalham com obras inéditas, haver uma etapa chamada leitura crítica ou preparação editorial. Nesse momento, a editora pode sugerir mudanças, cortes, reorganizações — sempre com o objetivo de tornar o livro mais fluido e impactante”, acrescenta Lilian Cardoso.
Com relação à distribuição e divulgação da publicação, os dois profissionais destacam a importância de haver uma parceria entre autor e editora nesse aspecto.
“Há casos em que a divulgação e a distribuição é feita exclusivamente pela editora e há casos em que a divulgação é feita conjuntamente, aproveitando as redes sociais do autor, às vezes a projeção dele na mídia, na imprensa, rádio, divulgação em redes sociais. A editora geralmente conta com a divulgação do autor, porque supõe-se que ele já tem uma rede de seguidores, de pessoas que gostam do seu conteúdo. Já a editora vai procurar a divulgação nos canais mais técnicos: revistas, marketplace, redes sociais, imprensa. Isso fica mais por conta da editora porque ela já tem esse canal aberto com esse público”, explica Paganelli.
“Mesmo quando a editora apoia, o autor tem um papel essencial. A divulgação hoje é uma parceria. O autor precisa estar presente nas redes, na mídia, engajado e pronto para falar do seu livro com orgulho”, completa Lilian.
E sobre a remuneração do escritor, eles explicam que existe hoje uma variação no mercado. Autores iniciais geralmente recebem uma média que pode variar entre 8% a 12% do valor do livro vendido da editora para o meio de distribuição — seja loja física ou e-commerce.
“O distribuidor compra com uma porcentagem grande de desconto, porque ele vai ter de repassar isso e vai ter de ter lucro. Então, a editora paga sobre o preço que ela vende para o seu cliente. Se ela vende para um distribuidor com 60% de desconto, por exemplo, o autor vai receber 10% dessa porcentagem”, explica Paganelli, que acrescenta que o preço do livro varia em função do número de páginas — um livro com 100 páginas é um preço, com 200 é outro preço e por aí vai.
“Agora, autores muito renomados, que vendam muito, autores best-sellers mesmo, aí tem uma negociação especial com a editora. Cada um tem uma porcentagem maior, porque também puxam vendas”, pontua.
Caso o autor opte pela autopublicação ou coedição, explica Lilian Cardoso, o percentual consequentemente é maior — podendo chegar a 100%, se o escritor mesmo vende os exemplares.
“Por isso, é tão importante entender o mercado, fazer cálculos e planejar a carreira como escritor. Não basta apenas escrever: é preciso se ver como alguém que tem uma marca, uma mensagem e um produto nas mãos. Escrever um livro é um passo poderoso, mas torná-lo visível é o que garante que essa história realmente alcance quem precisa dela”, finaliza Lilian.
Paixão pela literatura que rendeu frutos
Quem passou recentemente pela experiência de iniciar a carreira de escritora foi Maria Fernanda Leite, de 18 anos. Apaixonada por literatura, a jovem conta que decidiu explorar o universo das palavras desde cedo.

“Desde muito nova, a literatura sempre foi uma forma de me expressar e conectar com aquilo que eu sentia, mesmo sem saber nomear tudo. Escrever sempre foi o meu lugar seguro, uma forma de oração e também de encontro comigo mesma, com Deus e outras pessoas. Cresci lendo histórias que me tocavam profundamente, e isso despertou em mim o desejo de também escrever algo que fizesse diferença na vida de alguém”, relata.
Estudante do Ensino Médio, Maria Fernanda diz que sempre teve o sonho de escrever um livro por também vivenciar as influências da leitura na construção de conhecimento, experiências e emoções. Por isso, estreia no mercado com o livro cristão “Um amor mais que perfeito”, dedicado aos românticos em busca de boas histórias com reviravoltas, reflexões profundas e finais felizes.
“A literatura, para mim, não é só entretenimento: é missão, é ferramenta de transformação. E escrever dentro da perspectiva cristã torna tudo ainda mais especial, porque é uma forma de tocar corações com propósito e verdade”.
Ela, no entanto, reconhece que precisou vencer alguns obstáculos até alcançar sua primeira publicação. “Acho que o primeiro grande desafio foi acreditar que a minha história merecia ser lida. Como alguém que ainda não tinha um nome no meio literário e que escrevia sobre fé e sentimentos de forma profunda, me questionei muito se haveria espaço para mim. Depois, vieram os desafios práticos: encontrar uma editora que entendesse meu propósito, lidar com os custos, com os prazos, com a ansiedade do ‘será que vai dar certo?'”, lembra.
“Também enfrentei olhares duvidosos por ser jovem e por escrever um romance cristão em uma época em que muitos preferem conteúdos mais rasos ou imediatistas. Mas, no meio disso tudo, tive muito apoio, muita oração e a certeza de que, se Deus plantou esse sonho, Ele mesmo daria os meios. E deu”, completou.

