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sábado, 19 setembro 2020

Sucessão Ministérial

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Ao cruzar a linha de chegada na corrida de revezamento metros, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em julho deste ano, o jamaicano Usain Bolt personificou a vitória de uma equipe de atletas que soube trabalhar em sincronia e com tempo preciso para não comprometer o grupo.

Ao segurar o bastão, cada um dos quatro competidores do país da América Central assumia a tarefa de passá-lo adiante, na certeza de que seu desempenho definiria as possibilidades do seu sucessor de prosseguir em busca de êxito para o time. Cada um, também, teve sua chance e responsabilidade de contribuir para que as passagens do cilindro na prova culminassem nas mãos de Bolt, garantindo o triunfo do quarteto.

À luz dessa experiência esportiva, e com base na expressão “passar o bastão”, é possível refletir sobre a importância do processo de transição ministerial em uma igreja. Salvo as devidas diferenças de propósitos, numa troca relacionada ao pastorado ou a outra função de comando eclesiástica, a performance da equipe de líderes e dos membros é decisiva. O Pr. Joarês Mendes de Freitas, da Igreja Batista, lembra que a tarefa de promover essa mudança não é simples. “Os riscos são a saída do sacerdote antes da hora ou sua permanência por mais tempo do que deveria. Ambas as situações trazem prejuízo para o obreiro e para a igreja”, adverte. Erasmo Vieira, pastor da Igreja Batista em Morada de Camburi, afirma que a sucessão é norma do Reino de Deus. “Moisés teve um Josué. Elias teve um Eliseu. Até Jesus transicionou com o Espírito Santo”, disse.

Mas qual o momento certo para abrir espaço para um novo nome? Qual o papel da igreja nessa etapa? Quais princípios devem ser obedecidos nesse procedimento e como conduzi-lo, sem que o rebanho sofra? Tanto o Velho quanto o Novo Testamento apontam que a escolha de liderança espiritual é uma questão mística/sobrenatural. Isto é, tem que vir de Deus. Essa condição fica muito evidente no Antigo Testamento, no trecho em que o Criador simplesmente manda Natã ungir Davi e ponto final (II Samuel 12:7). Situação semelhante viveu Josué. O Altíssimo o indicou, e está consumado.

Há uma intervenção direta do Pai para conduzir os rumos do Seu povo. Os patriarcas, os reis e os profetas ocupavam posições únicas, quase absolutas, e normalmente só transferiam seu encargo para alguém quando estavam perto da morte. Dentre os bons exemplos, podemos citar a passagem de Moisés para Josué, na incumbência de tirar o povo de Israel do Egito e conquistar a terra prometida; do rei Davi para Salomão, na construção da casa de Deus; e do profeta Elias para Eliseu, num ministério de milagres.

Temos, na Bíblia, também, diversos episódios negativos. Josué foi um incrível servo e líder do seu tempo, mas falhou ao não passar o bastão à geração seguinte, que não conheceu o Senhor (Juízes 2:10). Eli foi o último dos juízes e errou com filhos; sua linhagem sacerdotal, mais tarde, foi eliminada. Finalmente, podemos mencionar Salomão, que se desviou do Soberano, não preparou um pupilo que desejasse agradar a Deus e causou divisão permanente no reino de Israel.

Enquanto no Velho Testamento a sucessão se dava principalmente em casos de morte do líder, no Novo, em que os instrumentos da voz divina são os apóstolos, há um quadro com mais fluidez nos ministérios, pois ocorriam transições sem o falecimento daquele que comanda. João Batista foi a figura que introduziu o Messias. Paulo deixou um modelo positivo, preparando a liderança da igreja em Éfeso para sua ausência e deixando instruções para Timóteo (Atos 20:17-38; I Timóteo 1:3). E sempre trabalhava em equipe, incluía continuamente pessoas novas para ampliar seu grupo e treinava e motivava seus filhos na fé, Timóteo e Tito. Inovava, ainda, com uma lista de qualificações (I Timóteo 3), com ênfase no caráter e em um comportamento que servisse de exemplo para a comunidade.

O Pr. Joarês lembra que no Novo Testamento Jesus é o padrão perfeito. “Ele deixou uma equipe instruída e preparada para continuar a Sua obra. Paulo foi um capacitador de homens e os deixava à frente dos trabalhos nas cidades por onde passava”, disse.Ao rever a lista do apóstolo, saltam orientações que seriam de grande valia para a escolha de um novo líder espiritual – irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar, não dado ao vinho, não violento, não cobiçoso de torpe ganância, moderado, não contencioso, não avarento, que governe bem a sua casa, não neófito, que tenha bom testemunho dos de fora. Só o cumprimento a esses requisitos serviria para poupar muitas congregações de problemas na hora de avaliar um candidato ao ministério.

 

O momento certo dessa sucessão depende do modelo de governança de cada igreja. O Pr. Erasmo afirma que a hora propícia ocorre em caso de aposentadoria ou transferência do sacerdote. “Na primeira situação, ele deve ajudar na formação de uma equipe de sucessão e sair com a consciência de que as direções de Deus  vão ser seguidas pelo grupo. Sempre acho que o obreiro deve iniciar o processo, reunir a diretoria e levar o grupo a indicar pessoas que formem o Ministério de Sucessão Pastoral”, defende. Já o Pr. Joarês avalia que cada caso é um caso. “No entanto, acho que todo líder precisa pensar, desde o começo de sua jornada, no dia em que deixará a função. Autocrítica e uma leitura objetiva da realidade vão ajudar na identificação do tempo de Deus para aquele ministério.”

A história mostra que nas, Igrejas episcopais – Metodista, Anglicana e Católica, por exemplo –, esse momento é definido pela hierarquia. Nas congregacionais – Batista, Congregacional, etc. –, a ocasião indicada depende do estatuto de cada uma.

Nas denominações com liderança plural, embora haja um pastor principal, geralmente a sucessão é feita dentre os membros da própria equipe, numa visão de continuidade. Nos modelos eclesiásticos centrados em um pastor, num comando personalizado, a substituição tende a provocar crise e ansiedade, pois nenhum líder possui todos os dons ministeriais e, nesse período, carências não atendidas ganham relevância na busca de um sacerdote que possua as qualidades não enfatizadas no ministério atual. Enfim, cada comunidade cristã tem sua estrutura para determinar o procedimento a ser seguido. Se o contexto hoje é bem diferente daquele que o povo de Israel e que a Igreja primitiva viveram, como saber se realmente é Deus quem está direcionando os rebanhos contemporâneos?

O Pr. Erasmo Vieira é enfático ao responder: “A voz do Espírito é a voz da Palavra. Sempre. O grupo deve se reunir por um bom tempo com a direção de orar e recorrer à Palavra, na procurar por indicadores do Senhor para o processo. Nessa etapa, a igreja deve estar concentrada em oração, com vigílias e cultos matutinos. Ainda não é hora de se pensar em nomes, embora sejamos tentados a isso”, observou o Pr. Erasmo. Ele lembra que, há 25 anos, deixou o pastorado da Primeira Igreja Batista em Jardim Camburi. Na época, o Pr. Addison Cintra e a equipe incumbida andaram nessa trilha e trouxeram, debaixo da orientação do Santo Espírito, o Pr. Joarês Mendes.

O sucessor, aliás, acrescenta alguns passos para uma experiência bem-feita nessa troca. “Buscar a orientação de Deus com humildade; disposição para obedecer e ficar atento aos sinais e ouvir amigos e conselheiros experientes. A igreja vai contribuir para o sucesso ou o fracasso desse processo, daí precisa orar com discernimento, confiar em Deus e na Sua liderança.” Dentre os princípios importantes, menciona: reconhecer que a igreja é de Jesus Cristo e que os obreiros são levantados por Deus (Mateus 9:38), disposição para aceitar a direção divina; informação transparente para que haja segurança sobre o processo; e compreensão de que cada líder tem características peculiares”, listou Joarês.  conta como está acontecendo a transição de seu ministério na PIB em Jardim Camburi. “Faz pelo menos três anos que venho falando com a minha equipe sobre meu pensamento de deixar a função de pastor principal da igreja. Então, quando avisei, em março deste ano, que sairia em outubro, não foi novidade. Creio que Deus está direcionando meu ministério e o de minha esposa, Ana Gilda, nos próximos anos para ensino, treinamento e mentoreamento de pastores e líderes, sobretudo de igrejas com maior carência. Nossa base continuará sendo Vitória, onde residimos. A reação dos membros tem sido muito saudável, pois temos uma grande equipe de pastores e líderes treinados e em condições de continuar abençoando a igreja. E o meu novo trabalho é visto comouma extensão da visão da igreja de servir o Reino além dos portões. Estou saindo como um enviado dessa Igreja para um ministério de maior amplitude.”

A transição é orientada por um grupo de pessoas maduras emocional e espiritualmente, sem pressa e sem atropelos.

Manual para a sucessão pastoral
Para facilitar o processo e evitar sofrimentos, o Pr. Erasmo sugere a adoção de uma espécie de manual. “É prudente que o pastor não mostre favoritismo, mas permita que o grupo sinta de Deus quais são as pessoas que podem ser ouvidas. O ministério de transição precisa ter uma agenda: oração; levantamento das necessidades da igreja; perfil de candidatos; indicação de nomes; convites para visitas e pregação num fim de semana; oração; encontro do grupo para estudo e avaliação dos candidatos, escolha de dois ou três para uma entrevista com a liderança e um fim de semana na igreja; oração e, finalmente, a escolha do nome com o convite oficial.”

O Pastor Natanael Zuccon, da Igreja Batista em Cariacica (ES), entende que a comissão de sucessão pastoral deve ser formada por pessoas amadurecidas espiritualmente para evitar o partidarismo. “O primeiro e mais importante critério para a escolha do novo pastor é observar as recomendações contidas na Bíblia, nos livros de Timóteo, Tito e Atos, sobre a família do pastor, vida pública dele e o perfil de ministério que ele desenvolve”, ensina.

Do mesmo modo, o Pr. Joarês orienta com algumas dicas: “Eleger uma comissão de transição ministerial; mobilizar o povo para oração; estabelecer os requisitos essenciais e os desejáveis de acordo com as características da igreja; permitir que os membros sugiram nomes de prováveis candidatos; analisar as indicações elaborando uma lista à luz dos critérios já definidos; buscar informações sobre os candidatos que se parecem mais viáveis; definir três ou cinco nomes numa ordem de prioridade; trabalhar um só obreiro por vez (se não deu certo com o primeiro, passar para o segundo e daí por diante). O obreiro em vista deve ser consultado só quando é o primeiro da lista. Se está em acordo, então pode ser convidado para uma conversa, para pregar. Assim o processo continua até a votação pela igreja e o convite. Se o líder em vista recusar, o processo continua com o segundo nome”. O Pr. Erasmo adverte: é necessário fugir de posicionamentos pessoais, com conotações de politicagem, partidarismo e, muito especialmente, de egoísmo. “É imperativo evitar a presença se oferecem como se houvesse um ‘balcão de emprego’. Ministério pastoral não é profissão. Não existe head hunter (caça-talentos) humano. Essa é função do Espírito do Senhor (2 Crônicas 16: 9).”

E ele levanta uma outra questão. “Quando a igreja tem em seu rol de membros um pastor, integrante do estafe ou não, e este é eleito como presidente do ministério de sucessão ou se torna membro dele, visando ao seu próprio reconhecimento, por nutrir o desejo de ocupar a função, ele pode boicotar qualquer nome apresentado ou passar informações não verdadeiras sobre a igreja para os pastores que são candidatos ao ministério.”

Como exemplo negativo, cita que determinada congregação estava no curso de convite para um obreiro tornar-se seu novo pastor. “Entretanto, um outro colega de ministério interferiu junto à diretoria e a outros membros, passando informações que não eram de todo verdadeiras, e ele mesmo se colocou à disposição para fazer um possível convite. A igreja desfez a proposta ao primeiro candidato e recebeu o segundo. Este fez um ministério pobre e com muitos problemas, inclusive para sua própria família”, lamenta.

Nos tempos modernos, complementa, há o problema da formação de gente para capitanear os trabalhos, “mas as boas igrejas concentraram a capacitações de prováveis sucessores nas instituições teológicas. Embora o saber acadêmico-teológico tenha imenso valor, não é essa a ênfase apontada nas Escrituras na hora da escolha. São vida, caráter e discipulado. Isso sem falar nas igrejas ultramodernas, em que nem formação acadêmico-teológica é necessária.”

O Pr. Joarês comenta que o processo é mais complicado hoje. “A metodologia se tornou muito mais complexa porque as demandas da Igreja contemporânea são diferentes das dos anos passados. Hoje a função pastoral requer características e competências antes não exigidas. São os tempos de pós-modernidade. Assim, tanto as expectativas da igreja como do obreiro se tornaram muito mais amplas, embora haja mais recursos também”, argumenta. Ele entende que não deve haver sucessão se a comunidade estiver fragmentada. “Nesse caso, é melhor convidar um obreiro interino para conduzir até que as feridas sejam tratadas, e a paz, estabelecida.  E se houver insatisfação com o novo sucessor, a saída é o diálogo aberto e franco. Tanto um quanto o outro devem expor com amor, respeito e consideração as suas questões. Caso haja um impasse que se julgue insolúvel, o ideal é que o líder se afaste ou que a igreja de modo soberano e democrático decida se o obreiro deve continuar ou não.”

“Conheço algumas experiências negativas, como a da igreja que levou três nomes para a assembleia. O escolhido teve 35% dos votos e não conseguiu liderar, pois muitos preferiam outro. Assim, após três anos de muitas lutas, aquele excelente obreiro deixou congregação. Noutra situação, a igreja convidou o pastor sem se informar adequadamente e, menos de um ano depois, descobriu que ele era fugitivo da Justiça”, recorda Joarês.

Todo o procedimento deve se basear nas orientações bíblicas e nas experiências dos líderes espirituais, que mostram que esse é um assunto sério, que exige maturidade e obediência durante a fase de transição.

“Passar o bastão” não é apenas fazer uma substituição de nomes, significa uma passagem de liderança espiritual para um rebanho que não merece sofrer com decisões egoístas, mas seguir na formação de futuras igrejas. E fazer prevalecer requisitos essenciais como: vida com Deus, paixão por Jesus e pelas pessoas, coração de pastor, integridade moral e ética e capacidade de liderança proporcional aos desafios da igreja.

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