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sábado, 20 abril 2024

Sororidade, uma aliança entre mulheres

Sororidade, uma aliança entre mulheres - Foto: adobestock.com

Quando uma mulher se coloca no lugar da outra a mágica acontece: A sororidade age no universo feminino para desfazer o mito de rivalidade entre elas

Por Lília Barros

O estigma de que mulheres são naturalmente rivais e falsas umas com as outras vem perdendo força com a popularização da versão feminina da palavra fraternidade: a sororidade. O termo veio derrubar o mito de que meninas e mulheres competem entre si; veio provar que mulheres também são amigas, se querem bem, se admiram mutuamente e torcem umas pelas outras. A sororidade traz a ideia de que é falso o conceito de competição natural entre mulheres e que a história das conquistas femininas é construída por exemplos de solidariedade e cumplicidade.

Por muito tempo a depreciação da mulher provocou questionamentos sobre o papel delas, seus sentimentos, atitudes, competências e criou piadas sobre o modo como se relacionam. Ainda que haja dúvidas sobre suas reais intenções de amigas, muitas profissionais que lidam com esse público garantem que nada disso é intrínseco à condição feminina.

A teóloga e pesquisadora em gênero e religião Alana Carla Lucena Farias (Paraíba), define sororidade como um conceito recente que visa descrever a união entre as mulheres, seja através da empatia, do acolhimento, da confiança ou do apoio mútuo.

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Sororidade, uma aliança entre mulheres

“Ela pode ser considerada a versão feminina de fraternidade e vem do latim sóror, que significa ‘irmãs’. Essa palavra nasceu com o objetivo de incentivar a parceria entre as mulheres e combater a falácia de que elas são naturalmente rivais entre si. Não há nada na estrutura feminina que indique que mulheres têm a predisposição a serem competitivas e rivais entre si, ou seja, nós não nascemos com essa condição. Dessa forma, podemos concluir que é algo internalizado ao longo da nossa formação, que acaba prejudicando as relações interpessoais e impedindo mulheres de viverem uma bela união”, afirma Alana.

A teóloga destaca que a Bíblia aponta para o exemplo de mulheres que competiram entre si, por exemplo Lia e Raquel, esposas de Jacó, ao mesmo tempo em que outras construíram alianças. “O texto aponta que Lia e Raquel brigavam pela atenção do marido e, como Raquel era estéril e Lia tinha muitos filhos, isso acabou gerando uma competição destrutiva entre elas, que afetava o bem-estar de toda a família.

Ao mesmo tempo vemos exemplos de união como Rute e Noemi, que se ajudaram em períodos de crise, ou seja, nós podemos escolher como nos comportar e precisamos combater essa rivalidade.”

Uma narrativa pecaminosa

Alana Farias reconhece que o desafio é vencer esse pensamento que ela chama de pecaminoso. “Infelizmente ainda existe muita rivalidade e competição nas relações entre mulheres. Muita gente diz que mulheres são assim mesmo, desunidas e competitivas, mas isso não é verdade. Deus não nos criou dessa forma. Somos ensinadas desde cedo que ‘amizade entre mulheres não é verdadeira’ ou que ‘homens são mais fáceis de lidar’; somos levadas, por uma sociedade machista, a acreditar que outras mulheres são nossas rivais e que precisamos ser melhores que elas, mas esse pensamento é pecaminoso e não pode definir nossas relações. Crescemos ouvindo nossas mães, avós e tias falando mal de outras mulheres, criticando seus corpos ou seus roupas”.

A estudiosa conta que as mulheres foram formadas achando que suas semelhantes são perigosas, venenosas e traiçoeiras.

“Isso tem poder sobre a nossa percepção de mundo, mas não deve nos dominar. Devemos questionar esses pensamentos que são perpetuados e aprender em Deus a verdadeira identidade feminina. Precisamos nos unir, nos desafiar dia após dia a levantar outras mulheres, elogiá-las e fazê-las crescer. A vitória de outra mulher não significa a sua derrota. Elogiar e incentivar suas amigas não te faz retroceder. A vida já é bastante dura com as mulheres, então precisamos nos unir e tornar o mundo um lugar mais leve de se viver”, afirmou a teóloga.

Sororidade, uma aliança entre mulheres
“Deus fez cada uma de um jeito e, juntas, nos “afiamos””, Marisa Victoria, criadora e produtora de conteúdo digital – Foto: Arquivo pessoal

A crença de que as mulheres não têm capacidade de serem gentis umas com as outras se desfaz como uma mágica quando uma se coloca no lugar da outra. É a sororidade falando mais alto do que os rótulos impostos em seus relacionamentos de amizade. Sororidade é o olhar carinhoso e amigo de uma para outra, e a aliança para alcançarem objetivos comuns.

Por isso, a criadora e produtora de conteúdo digital Marisa Victoria (Rio de Janeiro), aponta o caminho para as mulheres melhorarem sua performance no relacionamento, considerando os diversos perfis e personalidades delas.

“Na convivência, crescemos muito. A Bíblia diz que ‘O ferro se afia com ferro, e uma pessoa, pela presença do seu próximo’ (Pv 27:17). Ter bons relacionamentos sempre será o maior desafio da humanidade. Se a pessoa busca autoconhecimento, consequentemente, vai começar a entender por que age daquela forma e por que nutre certas expectativas quanto à outra. Se ela sabe o seu tipo de perfil e temperamento, por exemplo, vai saber que a outra mulher também tem suas particularidades e, assim, ficará menos frustrada. Às vezes, o que é importante para mim não tem importância alguma para a outra pessoa, e vice-versa”.

Para Marisa, entender essa diferença ajuda demais a não julgar a pessoa pelas nossas lentes. “Deus fez cada uma de um jeito e, juntas, nos ‘afiamos’ e nos completamos para sermos pessoas melhores, mas isso não é automático. Da mesma forma que nos preparamos profissionalmente e estudamos para avançar intelectualmente, devemos investir nos relacionamentos para viver cada dia melhor com as pessoas ao nosso redor. A Bíblia nos ensina o amor e o perdão – podemos decidir por eles com a ajuda de Deus!”
Marisa Victoria diz ser fundamental saber selecionar e preservar as amigas em um cenário competitivo para elas.

“Eu vejo muito mais competitividade entre mulheres do que entre homens. Talvez, pelo fato da mulher ser mais atenta aos detalhes e à vida das outras pessoas, ela se compare; isso acaba criando o desejo de ser igual à outra ou ter o que a outra tem. Os homens costumam ser mais simples, mas é claro que tudo depende dos princípios da mulher em questão e da sua perspectiva de vida. Existem muitas amizades sinceras e empatia, sim. Porém, a verdade é que convivemos com muitas pessoas, mas amigas de verdade fazem parte de um grupo seleto – são como joias raras e devem ser preservadas. Isso, inclusive, não vale só para mulheres. Entre nós, seres humanos, é preciso selecionar os amigos, e amigos de verdade torcem por você.”

Sororidade, uma aliança entre mulheres
A jornalista Babi Souza 10 passos para colocar a sororidade em prática – Foto: Mateus Bruxel

Alana Farias é incisiva sobre o papel de cada uma. “Sororidade existe sim, mas é preciso que mulheres de todas as idades comecem a quebrar os preconceitos e as ideias equivocadas que elas aprenderam. Para que a sororidade aconteça e se desenvolva é preciso da ação de cada mulher, do esforço mútuo para que ela se torne uma realidade palpável na sociedade. Enquanto estivermos ligadas a essa ideia de rivalidade feminina, será difícil encontrarmos uma sororidade verdadeira.”

Estereótipo

A terapeuta de casais Sheyla Lima, de São Paulo, destaca que o estigma de rivalidade que persegue às mulheres é um estereótipo que desmerece suas qualidades. Ela sugere uma rede de apoio mútuo para vencer o que chama de modinha do mundo:

“Eu chamaria de um estereótipo de gênero que muitas pessoas criaram. É inegável algumas mulheres terem esse sentimento de rivalidade, mas isso não pode ser generalizado. Existem sim competições femininas como por exemplo: desmerecimento de seus trabalhos, julgamento umas das outras por características físicas, a busca por validação masculina, mas vejo que uma grande maioria possui dentro de si a tal da sonoridade feminina. Termo tão usado nos últimos tempos. Penso que essa irmandade feminina não deve ser apenas para conquistas de direitos e objetivos políticos, mas acredito que deva ser uma prática para que como irmãs que somos em Cristo Jesus mostremos umas às outras que estamos juntas como uma rede de apoio que tanto precisamos. Esse é o legado cristão, deve fazer parte de nossos princípios e devemos ser sábias para compreender que nem todas as ideias, nem todas as modinhas do mundo fazem parte daquilo que Deus espera de nós.”

Sororidade na Bíblia

Embora o conceito de sororidade seja recente, a prática de aliança e apoio mútuo entre mulheres já existia nos tempos bíblicos. Para exemplificar, Alana Farias cita duas personagens.

“Acho linda a história de Rute e Noemi. As duas estavam em uma situação de vulnerabilidade, eram mulheres e viúvas, mas elas decidiram se ajudar. Da mesma forma que Rute ficou ao lado da sua sogra e a acompanhou em seus momentos difíceis, Noemi incentivou sua nora a vencer os desafios e a crescer.

Elas se apoiaram e juntas conseguiram superar o luto, as dificuldades e os julgamentos. Elas sofreram juntas e, no final, se alegraram juntas na presença do Senhor. Elas são um grande exemplo de como a sororidade é impactante e transformadora.”

Vamos juntas?

Se a sororidade é uma aliança entre mulheres, nada melhor do que colocá-la em prática usando as 10 dicas das entrevistadas e do “Vamos Juntas – O Guia da sororidade para Todas”, da jornalista gaúcha Babi Souza.

  1. Não enxergue as mulheres à sua volta como rivais só por serem mulheres
  2. Não use critérios diferentes para julgar homens e mulheres
  3. Não estimule os sentimentos de inveja ou rivalidade entre as mulheres à sua volta
  4. Quando uma desconhecida precisar de ajuda, coloque-se à disposição
  5. Não incite qualquer tipo de competição entre as suas amigas
  6. Tente não criticar abertamente as mulheres à sua volta.
  7. Reconheça quando você se compara com outra mulher.
  8. Reconheça as suas qualidades e as qualidades de outras mulheres sem a necessidade de comparar umas com as outras.
  9. Trabalhe para potencializar as suas fortalezas e superar as suas debilidades.

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