O princípio básico da moral cristã é o amor em sua dimensão tridimensional: amar a Deus, amar a
mim e amar o próximo
Por Clovis Nery
Seria surreal conhecer o rio Acre via rio Doce. Se A me fala de B eu terei melhores condições de avaliar A, porque o ponto nevrálgico é o sujeito; não o objeto. Enfáticas reiterações daquele sinalizam indícios de fantasias, pois seu comportamento o denuncia.
Se há entraves aqui é porque a condição humana vem sendo sabotada, com reflexos negativos em suas vivências que, uma vez burladas, ficam desacreditadas. Há uma esquizofrenia social que mina a base moral da sociedade, e gera uma hipocrisia “útil”.
Dissimulando subjetividades o comportamento individual não retrata o interior do ser. Como, a priori, não temos condições de conhecer a pessoa por dentro nossas relações sociais, salvo exceções, são corrompidas.
Estamos numa ladeira abaixo num “caminhão sem freio”. Muitos se divertem com a “aventura macabra”. Você pode imaginar como será o fim? Se não reconheço onde estou, não dou meia volta. Sem consternação não pode haver consolação.
A mudança exigirá grande esforço, abnegação e disciplina. Para uma geração absorta e insaciável que vive para satisfazer os seus desejos, isso é difícil. Se ainda não o é, tornar-se-á viciada em seus caprichos.
Parcela da cristandade que deveria atuar na solução para um mundo em desatino, atraída por um quinto “evangelho” adocicado com suas promessas e ritos mirabolantes relega a genuína mensagem da cruz.
Segundo o teólogo Alister McGRATH, o astrônomo Sir Gregory, há quase 100 anos, orientou para que em seu epitáfio constasse a seguinte afirmação: meu avô pregava o evangelho de Jesus Cristo. Meu pai o social, e eu preguei o evangelho científico.
Hoje em dia o modismo legou-nos o “evangelho emocional”. É preocupante, porque, vivendo na superfície, não se tendo consciência, não sabendo ou não querendo saber para onde vai, qualquer lugar serve, até mesmo o abismo.
Urge que nos despertemos para o Sagrado. Com nova vida, vazios de nós e cheios de Deus, sem máscaras, trataremos os outros como gostaríamos que nos tratassem. Desse modo, viveremos em paz, distantes dos fantasmas perturbadores de consciências.
Perto de Deus alcançamos a libertação dada pelo Filho (João 8: 36), pois a guerra espiritual ocorre, inclusive, dentro de nós (Efésios 6). Refletindo Deus, revelamo-LO ao próximo. O presunçoso sucumbe na batalha. Espiritualmente cego, cheio de si e vazio de Deus, ele fracassará, porque a personalidade estará inflada com ódio, ceticismo, medo e covardia.
Conforme C. S. Lewis, o princípio básico da moral cristã é a síntese dos mandamentos como Jesus ensinou. É o amor em sua dimensão tridimensional: amar a Deus, amar a mim e amar o próximo.
A moral cristã fundamenta-se em Deus. Amando-O estarei ajustado, me amando e, em princípio, poderei amar o meu próximo de igual modo. Assim, estarei fortalecido para lutar contra o mal, e triunfar em nome de Cristo.
Portanto, o amor cristão não é emoção; é ação. Significa que devemos querer e fazer o bem sempre, perdoar sempre. Para Lewis é como relaciono comigo mesmo, cuidando de mim, ainda que eu não goste de alguma coisa em mim.
Isso não é fácil, porque o outro pode ser meu inimigo. Somente os santos conseguem amar e perdoar nessas condições. Como o perdão que recebemos de Deus está condicionado a esse amor (Mateus 6: 14 e 15), daí a orientação: “Santificai-vos…”.
Se você deseja liberdade para ser você mesmo rompa com os grilhões. Cristo o ajuda. Creia! Mova-se! … Santifique-se neste novo ano, porque “esta é a vontade de Deus […]” (I Tessalonicenses 4:3).
Clovis Rosa Nery é psicólogo, pesquisador e escritor

