Em um mundo onde tudo se apaga com um clique, pais cristãos enfrentam o desafio de formar filhos com fé viva, identidade firme e um legado que resista ao tempo
Por Patrícia Esteves
Ensinar valores eternos num tempo em que quase tudo parece descartável não é tarefa simples. Requer coragem, discernimento e, sobretudo, presença. Em uma sociedade onde tudo pode ser deletado com um clique, como criar filhos que estejam no mundo sem pertencerem a ele?
Pais cristãos se veem diante da missão silenciosa e urgente de transmitir um legado que resista ao tempo. Não estamos falando de herança material ou conquistas visíveis, mas de algo que ecoa na eternidade: fé, caráter e identidade em Cristo. Todos, em algum nível, desejam deixar algo de si para os filhos seja um nome, uma história, um exemplo. Mas, afinal, o que realmente permanece quando tudo o mais passa?
A Bíblia ensina que o homem sábio constrói sua casa sobre a rocha. Talvez não haja herança mais sólida do que formar filhos que caminhem sobre essa fundação segura, sobre a Pedra Angular, Jesus Cristo. Filhos que não apenas resistam, mas que também influenciem suas gerações.
Fé que transborda para o cotidiano
Mais do que proteger, educar na fé é um ato de entrega. Não significa blindar os filhos da realidade, mas prepará-los para enfrentá-la sem perder a própria essência. É tornar a espiritualidade algo que reveste o lar, que aparece no tom das conversas, na maneira como se resolve um conflito, nas escolhas que se celebram e até na forma como se lida com as dores. Em outras palavras, é fazer da fé algo tangível, cotidiano, vivido com naturalidade.
Nesse contexto de transformação acelerada, a cultura contemporânea avança sobre as famílias, moldando comportamentos e redefinindo valores. Diante de tantas vozes que disputam a atenção das novas gerações, ensinar quem se é, de onde se veio e, sobretudo, a quem se pertence, tornou-se um dos maiores desafios da paternidade cristã. Como formar corações firmes e mentes convictas num tempo que entroniza o relativismo e desmantela os absolutos?
Marcas emocionais são deixadas quando os pais falham na presença e na palavra. “Às vezes, parece bobeira para o adulto, mas para a criança, é a raiz de sentimentos de abandono e autoestima baixa”, destaca Cris Poli, pedagoga da Escola do Futuro. Promessas quebradas, ausências em momentos importantes, reações inconsistentes, tudo isso molda a forma como a criança enxerga os pais, a si própria e até mesmo a Deus.

O pastor Gilson Bifano, do Ministério Oikos, do Rio de Janeiro/RJ, alerta para um desequilíbrio comum: pais que investem fortemente em aspectos acadêmicos e físicos, mas negligenciam a formação espiritual. “Não há problema em cursos de inglês ou aulas de esporte, desde que a espiritualidade não fique em segundo plano. O lar é o contexto primário da nossa formação espiritual, para melhor ou para pior”, explica. Para ele, a fé precisa ser incorporada ao cotidiano, conforme o princípio bíblico: “O que aprendestes, ouvistes e vistes em mim, isso praticai” (Fp 4.9).
Quando a fé se torna concreta
Essa prática diária, segundo Cris Poli, passa pelo exemplo e pelo afeto. “Você não ensina gritando que não se grita.
Educar com amor dá trabalho, mas é isso que conquista a criança. Ela precisa perceber que tem a sua atenção não só quando grita ou bate na irmã, mas quando desenha, quando chama para brincar”, resume ela. Mais do que atenção pontual, a coerência entre discurso e prática é essencial. Não adianta falar que não é bom mentir e, de repente, você pega o telefone e o filho te ouve mentindo. Tem que haver uma coerência entre aquilo que você fala para o seu filho e aquilo que você vive. Ele tem que ver em você o que você fala”, destaca a especialista.
O pastor e escritor Tiago Tozzi também vê que a construção da identidade se dá no contraste entre o que a criança vive em casa e o que encontra no mundo. “Filhos são câmeras com perninhas, fazem o que fazemos, e não o que falamos. Se a criança vê incoerência entre o discurso e a prática dos pais, ela assimila que o Cristianismo é uma capa. Mas se ela vê o Evangelho sendo vivido, seja na forma como os pais lidam com o dinheiro, com o próximo, com os erros, então, a fé se torna crível e desejável”, reforça.
Na mesma linha, o pastor Dario Brunet, pai de três filhos que servem no ministério, compartilha sua própria experiência.
“Eu investi muito na primeira infância. A infância é o ‘chão’ onde pisamos pelo resto da vida. Reunir a família ao redor da mesa, contar histórias bíblicas, profetizar sobre o futuro dos filhos, tudo isso cria raízes profundas no Reino de Deus”, ensina o pastor.
Ele acredita que tempo de qualidade e presença ativa são marcas que moldam uma identidade cristã sólida, que perdura como herança.

Cris Poli acrescenta que a disciplina também tem papel formativo, desde que seja coerente. “Não adianta você prometer três dias sem videogame e no mesmo dia oferecer lanche no quarto. Isso mina a autoridade. A criança precisa entender que toda ação tem uma consequência. Pode ser boa, pode ser ruim, mas precisa acontecer”, lembra.
“Hoje, mais do que nunca, os pais precisam lutar pela espiritualidade e identidade de seus filhos”, afirma o pastor Marcelo Aguiar, da Igreja Batista da Mata da Praia, em Vitória/ES.
Ele cita Neemias 4.14 como um chamado à resistência espiritual: “Pelejai por vossos filhos, vossas filhas, vossas mulheres e vossas casas”. Para ele, essa luta precisa ser travada com fé, esperança e amor, as três maiores virtudes cristãs, e com uma intencionalidade que não pode ser terceirizada.
Presença que forma, exemplo que molda
É nesse mesmo tom que a psicopedagoga Cris Poli, conhecida como a Supernanny, reforça a importância da presença contínua desde os primeiros anosCom uma visão pastoral e prática, Sérgio Leoto, do Ministério Fortalecendo a Família, defende que a transmissão da fé precisa ser relacional e fluida. “Mais importante do que o culto doméstico protocolar é conversar com os filhos à mesa, no carro, no caminho da escola. Deuteronômio 6 nos exorta a ensinar em todo tempo, em todos os lugares”, diz.
Bifano concorda e adiciona que “a espiritualidade não está compartimentada. Ela permeia toda a vida. Precisamos ensinar nossos filhos a enxergar todas as áreas sob a lente da fé cristã, inclusive temas como dinheiro, sexualidade e política”.
Mas como isso se concretiza na rotina? O pastor Marcelo Aguiar sugere ações simples, porém intencionais: espalhar versículos pela casa, ouvir músicas cristãs em família, praticar a gratidão nas refeições. “A casa precisa exalar o bom perfume de Cristo”, resume.
De forma prática, Cris Poli reforça a importância de orientar as crianças sobre o que esperar em cada situação. “A criança não tem que adivinhar o que o adulto espera dela. Vai ao shopping? Explique antes que não vai comprar brinquedo. Vai viajar? Conte como será o trajeto. Isso reduz a ansiedade, ensina esponsabilidade e respeita a inteligência da criança”, exemplifica.
A infância como solo fértil
Outro aspecto vital é apresentar Jesus como salvador pessoal. Gilson Bifano cita dados do Barna Group que indicam que crianças entre 5 e 13 anos têm 32% de chance de aceitar Cristo, enquanto essa probabilidade cai para apenas 4% na adolescência. “Esse é o tempo ideal para formar uma fé genuína”, pontua.
Para Brunet, o essencial é que Cristo esteja no centro, e não a religiosidade. “Religião por si só não transforma. Mas quando a Palavra se torna carne e sangue na vida da família, Satanás treme”, afirma.
E quando os filhos crescem? A missão não acaba. “Você, pai ou mãe, deve orar por seus filhos por toda a vida”, afirma Bifano. “Ore para que sejam tementes a Deus, para que passem o bastão da fé aos seus filhos, os seus netos”, afirma. E Cris Poli arremata dizendo que “a maioria dos problemas que trato tem raiz na infância. Amor, atenção e exemplo não são luxo. São a base de uma identidade cristã firme”.
Legado vivo
Entre todas as falas, uma verdade se sobressai, a de que os pais são os principais discipuladores dos filhos. Nenhuma igreja, escola ou conteúdo substitui o impacto da fé vivida no cotidiano familiar. “Quanto mais próximos estivermos dos nossos filhos, mais longe eles estarão do erro”, diz Dario Brunet.
Formar filhos firmes na fé não exige perfeição, mas requer presença, constância, intenção e verdade. Mesmo num mundo em instável, há uma certeza inabalável de que quando o lar é firmado sobre a Rocha, os filhos encontram abrigo, direção e propósito.
A urgência da Janela 4/14
Por que evangelizar crianças é essencial? A Janela 4/14 se refere à faixa etária entre 4 e 14 anos, período em que o coração e a mente estão mais abertos para o evangelho. Diversos estudos cristãos indicam que até 80% dos adultos que seguem a fé cristã decidiram por Cristo nessa fase da vida.
Esse tempo representa não só uma oportunidade, mas uma responsabilidade. Segundo a Aliança pela Evangelização Mundial, mais de 2 bilhões de pessoas no mundo estão dentro dessa faixa etária, o que destaca o potencial de transformação global por meio da evangelização infantil.
A Associação de Evangelização das Crianças (APEC) também aponta que 86% das conversões acontecem até os 14 anos, reafirmando o impacto duradouro do ensino bíblico precoce.
Investir em ministérios infantis, discipulado infantil e ações voltadas às famílias é mais do que estratégico, é essencial. Quais estratégias a sua igreja está adotando para alcançar estes pequenos?
Na Bíblia está escrito
“Ensina a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Pv 22:6)
“Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração. Tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te” (Dt 6:6-7)
“Desde a infância sabes as Sagradas Escrituras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3:15)
“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá” (Sl 127:3)

