Ser não ter

Que Sejamos mais e tenhamos menos. Então, vamos levar Cristo para igreja?

Nem sempre fui cristão. Por um tempo ouvi falar de Jesus, mas nunca me aprofundei em quem seria essa pessoa que morreu na cruz. Até que chegou o ano de 2004. Tinha 19 anos de idade. Lembro bem de quando comecei frequentar a igreja, mas, principalmente, lembro do meu batismo. O sentimento foi inexplicável.

No começo da minha caminhada ouvi muitas coisas. Entre elas, uma se repetia: estão trazendo o mundo para a igreja. Isso me intrigava. Não entendia bem esse termo. Ouvi falar de meninas usando calça, homens usando brinco e outras coisas mais. Nesse contexto, continuava as leituras que gostava de fazer.

Claro, acrescentei a bíblia, mas continuava lendo sobre a segunda guerra mundial, que aconteceu entre 1939 e 1945, e, consequentemente, li algumas coisas sobre a guerra fria. O assunto ainda estava fresco na mente, pois tinha estudado recentemente na escola. Falando de forma superficial, logo depois da guerra, Estados Unidos e União Soviética combatiam pelo poder econômico do mundo. Na américa falava-se sobre capitalismo e pelo lado do país europeu, socialismo. Essa disputa chegou ao fim em 1991 com o fim da URSS.

A intenção não é entrar no mérito político, mas chamar atenção para um ponto. O capitalismo é um sistema econômico que trata a meritocracia. O pensamento basicamente é: você pode ter tudo, basta correr atrás. Isso é verdade, mas, como tudo na vida, acho que possui os efeitos colaterais. Atualmente, por exemplo, enxergo um ponto como algo prejudicial: ter.

Vivemos basicamente em busca de conquistar coisas. Quando entramos na escola, ainda crianças, estamos nos preparando para isso. Estudar para ter um bom trabalho, ganhar bem, comprar a casa própria, carro, conhecer o amor da vida, ter filhos e garantir o futuro deles. Entenda, isso não é um problema. O problema é quando tornamos isso a razão de tudo. E, infelizmente, é o que geralmente acontece.

Isso está intrínseco. Está em nós. Quando nos convertemos, levamos conosco para igreja. Lá buscamos bênção, oferta, profecia, esposa, marido, cargo. Continuamos com essa essência. Vai além de calças ou brincos. Em Mateus 21:12 Jesus entra no pátio do templo e expulsa todos que faziam o local de comércio, não de oração. Claro, temos que respeitar o contexto histórico dessa passagem, mas tenho o entendimento que Jesus já lutava contra a necessidade de ter.

Ter as coisas é a motivação da humanidade hoje. As redes socias evidenciam isso. As plataformas são uma grande vitrine das coisas que possuímos. Tudo uma grande rede de mentiras. Lá não existe problema, briga, falta de dinheiro. Muita gente olha isso e acredita na veracidade de cada postagem. Ao não se enxergar inserido nessas conquistas, o que acontece? Entre outras coisas, abatimento emocional. Transtorno de ansiedade, depressão, suicídio.

Também têm o outro lado. Existem aqueles que planejam e conseguem uma boa vida. Mas, depois que conquistá-la, percebe que falta algo. E aqui voltamos a menção da guerra-fria, pois acho que vivemos isso constantemente. A carne grita: tenha, compre, conquiste, ganhe, exibe, gaste, coma, compre de novo. Já o espírito clama: mude, transforme e ame. Sinta empatia, compaixão e, principalmente, SEJA.

Na segunda parte de João 10:10, Jesus fala sobre abundância de vida. Isso não tem haver com dinheiro, coisas. Tem relação com o que de fato tem valor na vida: o próximo. Que voltemos a enxergá-los como homens novamente. Não uma coisa. Que Sejamos mais e tenhamos menos. Então, vamos levar Cristo para igreja?

Evandro Jales é Jornalista, escritor e roteirista do Projeto Maraberto


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