Semeando a Palavra em libras

“O mover do Senhor no trabalho de surdos foi para que eles venham, compreendam e entendam” Pastor Marco Medina

Grupo de Trabalho da Igreja Cristã Maranata muda a realidade da comunidade surda no Brasil

Desde 2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida no Brasil como meio legal de comunicação e expressão. A lei prevê atendimento adequado aos surdos e portadores de deficiência auditiva em instituições públicas e empresas. Porém, na prática essa legislação não é cumprida em todos os lugares.

Desde 2005, a Instituição desenvolve várias ações inclusivas para atender a essa população. Em 2015, a ICM instituiu o Grupo de Trabalho de Assistência a Surdos e Surdocegos.

“O mover do Senhor no trabalho de surdos foi para que eles venham, compreendam e entendam” – Pastor Marco Medina

A Igreja Cristã Maranata está entre as denominações em que o espiritual e o social andam de mãos dadas para alcançar a população com o Evangelho. Por conta da demanda de surdos que passaram a frequentar as igrejas, o ensino de Libras começou a ser ofertado nas igrejas.

“Já existiam várias iniciativas independentes nos templos da ICM para os surdos, então resolvemos juntar todas as pessoas que desenvolviam trabalhos nas igrejas e criamos um grupo”, explicou o pastor Marco Medina, um dos membros do grupo.

O objetivo do grupo é garantir que o surdo tenha conhecimento da Bíblia. “Nós queremos sair da falta de comunicação e chegar à comunicação, pois quando isso acontece eles aprendem a Palavra”, completou. “O mover do Senhor no trabalho de surdos foi para que eles venham, compreendam e entendam“, acrescentou.

O trabalho de Libras da Igreja Cristã Maranata está implantado em todas as regiões do Brasil, e todas as principais cidades têm intérpretes nos templos, mas a expectativa é a de ampliar cada vez mais. Hoje, há pastores no país que pregam nos cultos e ministram aulas das doutrinas bíblicas da igreja usando a língua de sinais. Mas vários outros membros da instituição já estão estudando.

Durante o ano são realizados seminários em Libras, nas quais são apresentadas as doutrinas da igreja. “Além de treinar os membros para a obra, esses seminários aprimoram o trabalho que já é feito e dá total assistência aos surdos”, explica pastor Sebastião Braz da Silva, de Cariacica (ES), que também integra o grupo de trabalho.

Além da participação presencial do intérprete de línguas, os eventos são transmitidos simultaneamente via satélite. E os vídeos das aulas ficam disponibilizados no site da Rádio Maanaim.

Intérpretes de Libras

Várias igrejas Maranata do Brasil contam com pelo menos uma pessoa com formação na área de interpretação de Libras, que fica disponível durante o culto para realizar esae trabalho para pessoa surda. “Nesses locais, há uma placa indicando que ali a pessoa tem
acessibilidade à língua de sinais”, complementou o pastor Braz.

Wanessa Raylla, 35 anos, que é membro da ICM da Serra (ES), está entre os intérpretes e participa tanto no culto quanto nas transmissões via satélite da igreja e nos seminários.
“Comecei a aprender Libras em 2006 e entendi que queria evangelizar com a língua de sinais. Estudei e fiz cursos para aprimorar a prática. Por muito tempo os surdos chegavam à igreja e não tinham intérprete, mas hoje está mudando”, explicou.

O maior objetivo de toda a equipe de Libras é levar o surdo a conhecer Jesus e entender a mensagem do Evangelho. “Nosso trabalho vai além da acessibilidade. Quando vejo os surdos alcançando o entendimento da Palavra, relatando experiências e aprendendo, é uma alegria imensurável. Queremos que eles sejam transformados pela Palavra do Senhor”, relatou.

“Oportunidade única”
“Sou de Goiânia (GO), nasci surda, mas fui oralizada pela minha mãe desde criança. Às vezes consigo entender pela leitura labial. Quando me converti, em 2013, na Igreja Maranata, nem sempre conseguia compreender os cultos, então senti a necessidade de aprender a língua de sinais. Participei de oficinas promovidas pela ICM, fiz curso superior de Letras/Libras, participei de seminário da igreja e hoje evangelizo pessoas usando Libras. Quero ser um canal na igreja como intérprete da língua de sinais, para que mais pessoas surdas sejam alcançadas pelo Evangelho.” Cinthia Miguel, Goiânia (GO)Cínthia Miguel, de Goiânia (GO) foi uma das contempladas com o curso de Libras na ICM e conta como a Língua de sinais impactou a sua vida.

No caso da ICM, o trabalho também é feito com as crianças. Há 17 anos, Maria Amin, que é neurologista infantil, desenvolve a língua de sinais com essa faixa etária na igreja em que congrega, em Belo Horizonte (MG). Amin percebeu a necessidade de chegar às crianças surdas a partir de uma lacuna que deveria ser preenchida por pessoas que pudessem se comunicar com elas. Então fez cursos e uma pós-graduação em Libras.

“Tenho pacientes que são surdos e para entendê-los tive de aprender Libras. Na igreja, o ensino de Libras foi importante para que as crianças tivessem acesso à língua de sinais. Com esse trabalho, aproveito para evangelizá-las, proporcionando-lhes acesso à palavra e ao vocabulário bíblico.

Quanto maior número de crianças aprendendo, mais famílias serão alcançadas para o Evangelho”, pontuou.

Dificuldades e adaptações

Segundo o IBGE, 4,5% da população brasileira é surda. A perda da audição é a terceira maior causa de deficiência que atinge a população no país e pode estar relacionada a doenças ou acidentes. Existem os que já nasceram ou adquiriram a surdez e os deficientes auditivos, que escutavam e, por algum motivo, ficaram surdos.

Raquel Martins foi acometida com meningite aos 27 anos e curada. Mas um vírus de uma doença degenerativa comprometeu vários sentidos de seu corpo, um deles foi a audição. E Raquel se tornou surdocega.

Aos 37 anos, ela recuperou apenas parte dos movimentos. Entendendo que a doença foi parte de um grande projeto de Deus em sua vida, Raquel vem conseguindo melhorar aos poucos. O progresso veio com o ensino de Libras da igreja.

O Grupo de Trabalho de Assistência a Surdos e Surdocegos permite a membros da ICM de todo o Brasil participar de oficinas para aprender a Língua Brasileira de Sinais

“No começo foi bem difícil, tentei aprender na escola, mas não deu certo. Foi na igreja que desenvolvi a comunicação. O senhor usou servos para me ajudar nesse processo. Aprendi o básico sobre a língua e consegui entender o que é ministrado nos cultos. Libras transformou minha vida”, declarou.

Diante desse e de outros desafios é que a igreja precisa estar cada vez mais preparada. “Não necessariamente a pessoa precisa ser intérprete, mas a igreja incentiva qualquer membro a aprender o básico da língua para poder receber e conversar com o surdo de forma que ele seja acolhido. Hoje temos gente se disponibilizando a trabalhar na obra e aos poucos o trabalho vai sendo ampliado”, completou Amin.


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