Segurança pública: A crise que abalou o Espírito Santo

O Estado do Espírito Santo vivenciou nos primeiros dias de fevereiro deste ano a sua maior crise de segurança pública, com momentos de terror e medo, sem precedentes em sua história. Os fatos já foram exaustivamente contados pela mídia. Mas uma pergunta não se cala. Como isso foi acontecer justamente no estado com maior percentual evangélico do Brasil? Tem algo errado com a forma que nós, cristãos, estamos vivendo nossa fé? Será que não estamos conseguindo promover a transformação social por meio de nosso testemunho?

Sexta-feira, 3 de fevereiro, por volta das 15 horas. Começam os rumores de que a Polícia Militar capixaba faria paralisação de suas atividades no dia seguinte.
No sábado (4) e no domingo (5), já se sente a insegurança diante do número de mortes, que cresceu assustadoramente – aproximadamente 20 de um dia para o outro, segundo o Sindicato dos Servidores Policiais Civis do Estado do Espírito Santo (Sindipol-ES). Na segunda-feira (6), continuando impedidos de trabalhar por seus familiares, os policiais não foram às ruas, e o caos se instalou de vez por todo o Estado. Lojas foram saqueadas, supermercados, assaltados, e mais homicídios foram somados aos terríveis índices dessa crise.

Não se sabia ao certo o que estava acontecendo diante de tanta informação desencontrada. Isso porque as redes sociais estavam tomadas por incontáveis vídeos e áudios, deixando todos ainda mais alarmados e amedrontados. Diante desse cenário, a população ficou presa dentro de casa, refém da precariedade na segurança.As aulas foram suspensas, os postos de saúde não abriram, o transporte coletivo parou de funcionar, e estabelecimentos comerciais mantiveram suas portas fechadas.

O governador em exercício, César Colnago, e o secretário de Segurança Pública, André Garcia, deram início às ações anticrise, já que Paulo Hartung, titular da cadeira do Executivo, havia ido a São Paulo para fazer exames, para remoção de um tumor, no dia 3. Mesmo sob cuidados médicos, Hartung voltou ao Estado e reuniu a imprensa para falar sobre as medidas que seriam tomadas e conclamar os policiais a voltarem ao trabalho. Em paralelo, o governo federal enviou inicialmente 1,2 mil homens das Forças Armadas e da Guarda Nacional ao Espírito Santo, num total de 3,5 mil soldados. Sem dar ouvidos à solicitação do governador, as famílias dos PMs permaneceram acampadas em frente aos quartéis, impedindo a saída deles. As negociações continuaram, mas uma solução não surgia.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, veio por duas vezes ao Estado para acompanhar os desdobramentos dos fatos.  Na ocasião, ele assegurou a permanência das Forças Armadas enquanto fosse necessário para garantir a segurança da população. Após 21 dias de impasse, o governo e o movimento entraram em acordo, e a “greve” se dissipou.

De acordo com o especialista em segurança pública Pablo Lira, os efeitos da crise foram atenuados graças à atuação das Guardas Municipais, da Polícia Civil e das Forças Nacionais, que exerceram parcialmente as atividades de responsabilidade da Polícia Militar, naquele momento de excepcionalidade.

O número oficial de mortes chegou a 143, durante o período da crise, segundo a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp-ES), dado menor do que o da lista divulgada pelo Sindipol-ES, com 199 óbitos.  O caos na segurança causou prejuízos que ultrapassaram R$ 300 milhões para varejo, que manteve suas portas fechadas por vários dias, conforme a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Espírito Santo (Fecomércio). Esse montante não inclui as depredações e os assaltos: pelo menos 300 lojas foram saqueadas e depredadas, e o dano calculado nesses casos gira em torno de R$ 30 milhões. Além do comércio, toda a economia capixaba sofreu com perdas milionárias.

Igreja Transformadora
Diante do impasse e da violência, os cristãos iniciaram uma série de atividades a fim de despertar a compaixão e pedir paz. Caminhadas, campanhas de oração e cultos foram realizados por denominações de todas as partes do Estado e de todo o país.

O Pr. Hernandes Dias Lopes, da Igreja Presbiteriana (IPB), foi enfático ao dizer que a comunidade cristã, como agente transformador da sociedade, tem o papel de socorrer. “Temos que ajudar e mostrar em meio a essa tragédia no Espírito Santo a bondade e a misericórdia de Deus. Precisamos levar a Palavra a todos. Precisamos levar luz para onde há trevas.” “Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor; porque na sua paz vós tereis paz” (Jr 29:7).” Essa orientação, escrita pelo profeta Jeremias pouco depois do ano 597 a.C., tem a ver com a realidade vivida pela população de Judá por ocasião do cativeiro babilônico.

O povo, que sofria o drama da invasão estrangeira e da deportação em massa, precisava compreender que Deus estava no controle da situação e aceitar que Ele poderia reverter aquela tragédia coletiva em bem.

Segundo o pastor da Igreja Adventista Célio Barcellos, para os antigos hebreus era necessário passar pela tribulação, mesmo que falsos profetas insistissem em dizer que Deus não permitiria esse mal sobre Seu povo (Jr 29:8,9). “Atualmente, não é muito diferente. Por uma semana, a população capixaba sofreu a onda de violência e saques. Vinte e seis séculos separam os habitantes do reino de Judá na época do profeta Jeremias dos que vivem hoje no Espírito Santo. São enormes as diferenças culturais, históricas e geográficas entre os judeus da Antiguidade e os capixabas hoje. A nação hebraica estava sob o comando direto de Deus. Nesse regime teocrático, o próprio rei devia se submeter à autoridade divina. Por sua vez, a sociedade espírito-santense está organizada em um modelo republicano. Por melhor que seja o governo democrático, são pessoas, muitas delas sem qualquer temor a Deus, que norteiam os rumos da sociedade”, comparou.

De acordo com ele, o profeta Jeremias manteve sua mensagem, apesar da impopularidade de seu conteúdo, mas não deixou de transmitir a esperança que só Deus pode dar (v. 10). “Hoje, o Senhor também conta com pessoas dispostas para advertir a respeito do juízo vindouro e propagar a esperança para este tempo”, lembrou.

“A mensagem de Jeremias se aplica a você, morador do Espírito Santo ou de qualquer lugar do planeta. Deus quer que onde você estiver procure a paz da cidade, ore por ela e na sua paz você tenha paz. O medo, o desespero e a revolta com a situação podem ser os sentimentos mais espontâneos quando o caos se instala. Como cristãos, porém, podemos ter pela graça de Deus outra reação: orar, intercedendo a Deus pela paz”, disse.
Na opinião do Pr. Eduardo Vieira,  da Igreja da Assembleia de Deus Nova Vida, em Vila Velha, precisamos disseminar ainda mais o Evangelho e semearmos o bem.

“E como povo de Deus no estado com maior percentual evangélico do Brasil, precisamos fazer mais pela transformação da sociedade através de nosso testemunho e da pregação da Palavra. É necessário viver a nossa fé genuinamente”, completou.

Tempo de ser luz
O diretor dos Cursos de Paternidade da Universidade da Família, Dinart Barradas, desperta-nos para algo importante. Ele afirma que a Palavra de Deus nos sugere que o tempo será agravante e não atenuante da degradação do gênero humano (Gn 6:11, 18:20). “No decorrer da história bíblica, era sempre um tempo de juízo divino que se incumbia de pôr um freio no galope da transgressão, no domínio da violência e na deterioração dos valores morais e espirituais não só do povo de Deus (Dt 9), mas também de nações pagãs. Foi assim com os povos que habitavam Canaã (Dt 9:1 a 3, 20.16,17; cf. Nm 33.51-53) e com muitos outros povos e culturas. O nosso mundo e sociedade estão sendo fragmentados. Este colapso que vemos no Brasil está acontecendo em níveis diferentes e por outros motivos em todo o planeta. O que aconteceu no Espírito Santo é uma convulsão, uma forte reação de repulsa e rejeição a um monte de coisas que causam perplexidade em uns e ações inesperadas em outros.

É o que o Senhor chamou de princípio das dores (Mt 24), uma explosão de contrações, espasmos e desconfortos que precedem outro advento. Ainda há os fenômenos naturais, as crises econômicas, as disfunções relacionais e, não menos importante, o já tão perceptível esfriamento da fé”, explicou.

Dinart pondera que a crise da segurança no Espírito Santo é apenas mais uma peça nesse truncado quebra-cabeças. “Fomos advertidos para sermos cautelosos (Mt 24:4); para observarmos atentamente a atitude dos líderes religiosos que se levantam messianicamente nestes períodos conturbados, discursando e oferecendo cura para o incurável e livramento para o inevitável (vs 5 e 11); para não nos assustarmos com tudo que pode nos causar pavor e dor, isso ainda não é o pior (vs 6 a 8)”, analisou.
Pastor da Bola de Neve em Vila Velha, Wanderley Piccinini avalia que os acontecimentos no Estado não atingem só a economia, mas também a moral. “A humanidade viveu um ambiente de terror, em parte porque o homem tem sido amante do dinheiro, tem sido ganancioso. As Escrituras relatam que o amor ao dinheiro tem sido a raiz de todos os males. E por trás do amor ao dinheiro há opressão, impiedade e injustiça. A Bíblia diz em 2 Timóteo, capitulo 3, que ‘os tempos finais seriam trabalhosos, os homens seriam varentos, profanos, desobedientes, ingratos, caluniadores, cruéis, sem amor para com os bons, obstinados mais dos eleitos do que amigos de Deus’. Então, por meio dessa crise, a gente vê um homem afastado de Deus. Mas os que têm esperança sabem que toda crise traz consigo modificações. Há vários sinais de que os tempos estão se abreviando. O poder de Deus é mais forte do que essa crise que vivemos.”
“O problema é o quanto o ser humano está corrompido. O pecado destruiu a imagem de Deus no ser humano. A partir do momento que o cidadão precisa da repreensão da lei para andar de forma honesta, ele já deixou de ser civilizado. O mundo caminha para o fim, mas não podemos fazer desse fato uma desculpa para o homem não se sentir responsável pelos seus atos. O papel da Igreja nesses casos está relacionado esclarecimento e compreensão das coisas. A instituição deve expressar a sua misericórdia aos que foram atingidos pela crise e consolá-los. O papel da Igreja é do bom samaritano, que ajuda o ferido sem se importar com a cultura dele. O fato é que o seu poder de transformação, que move os cristãos a praticar o bem e assim mudar o que está ao seu redor, é um caminho. Aquele que tem esperança sabe que toda crise pode gerar mudanças e renovo, ou seja, pode-se abrir espaço para Cristo”, conclui o Pr. Hernandes Dias.

O Pr. José Ernesto Conti afirma “não estamos livres de viver outra crise de segurança, ou conflito de outra natureza.  Na verdade, vivemos no meio de uma profunda ruptura ética e moral em nosso país.” “Nós, cristãos, estamos deixando de cumprir nosso papel de ser sal da terra e luz do mundo (Mt 5:13-14). Temos que fazer diferença e ocupar o espaço que Deus nos comissionou.  O alerta para o povo de Deus, em terras capixabas e em qualquer lugar em que se professe a fé em Cristo, é que não podemos ser omissos e que precisamos viver o que pregamos”, finalizou.