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quinta-feira, 20 junho 2024

Se há feridos entre nós?

Se o amor entre nós for frágil, a nossa união também será. Quando cuidamos do outro estamos cuidando de nós mesmos

Por Clóvis Rosa Nery

Se há feridos entre nós? Há. Inclusive, eles deveriam ser tratados como amigos, com amor, e não preteridos, porque muitos, com espinhos cravados em seus corações, caminham em silêncio tentando nos falar com os olhos. E nós, tomados pelas preocupações da vida moderna que passa veloz, nem sempre os percebemos.

Fato é que nossas interações sociais nas comunidades cristãs não diferem muito das seculares. Temos dificuldades nessa área em que o falar apenas não basta, pois para ocorrer mudança e crescimento é necessário compartilhar. Isso faz a diferença. Ajuda o outro a se ver como ele, realmente, é: único, distinto e com sua beleza singular. Falta- nos tempo. Que pena!

Estressados, correndo atrás de algo, na luta pela sobrevivência, tal como o sacerdote e o levita de Lucas 10, apresentamos um comportamento distante daquele do samaritano que lhe permitiu parar e envolver-se diretamente com a dor de seu próximo.

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Acresce-se ainda que, uma vez absortos em problemas pessoais, nem sempre intercedemos ao Senhor, conforme orientação do profeta, com a intensidade necessária, em favor de nossos irmãos na fé, para que sejam poupados (Joel 2: 17).

Questões afetivas e aflitivas não deveriam ser tratadas com receitas prontas. Toda ferida deve ser submetida a uma assepsia criteriosa, uma atenção personalizada e especial.

Restaurar o ferido, desde que ele queira ser curado, deveria ser meta prioritária, mas dá trabalho e demanda tempo, algo raro hoje em dia.

Descartar o ferido é mais cômodo, mas é impiedoso, mesmo quando praticado inconscientemente, ou por razões “justificáveis”. Ademais, há casos em que se verificam agravantes, especificamente naquelas feridas recebidas em casas de irmãos e “amigos”. Se toda ferida sangra e dói, essas dilaceram a alma, arrancam a alegria de viver como uma árvore expurgada do solo com as suas raízes.

É certo que nada nos separará do amor de Deus; mas, se os laços de nosso amor fraterno forem frágeis a nossa união sofrerá os seus respectivos impactos negativos. Lamentavelmente, somos ocupados demais e, por isso, às vezes, permanecemos insensíveis à dor emocional do irmão que caminha ao nosso lado. Um dia desses, ouvi alguém dizer que “depressão, síndrome do pânico e transtorno bipolar não são doenças”. Que infeliz afirmação!

Uma questão básica aqui é que se o nosso Deus não for maior que a nossa religião não atravessaremos a fronteira que divide teoria & prática. Consequentemente, indiferentes, com o sentimento embotado, não seremos solidários com o outro, porque o amor será retórico, constituindo-se em um sinal de que também estamos doentes.

Um Deus que se encaixa por completo e totalmente em nossos conceitos não seria Deus. Se O concebermos assim cometeremos a heresia do reducionismo. Ofuscaremos a nossa visão espiritual, e não passaremos de meros teóricos narcizistas.

Deus é muito maior do que aquilo que agora conhecemos d’Ele e sobre Ele (I Coríntios 13:12). Ele Se revela aos puros (Mateus 5:8), e age no mundo por meio deles. Que Ele tenha misericórdia de nós, e nos desperte para essa realidade.

Assim, repensando nosso proceder, certamente, arrumaremos tempo para importarmos um pouco mais com os feridos de alma que estão entre nós. E então compreenderemos que, se somos um pelos laços do amor, quando cuidamos do outro estamos cuidando de nós mesmos.

Clovis Rosa Nery é Psicólogo, pesquisador e escritor.

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