A salvação, uma questão de percepção

Foto: Reprodução

A Igreja de Cristo não tem que imitar o mundo, basta ser a ferramenta que Ele criou para ligar na terra e ligar no céu

Em um determinado momento do filme “O Protetor”, o personagem Robert Mccal, interpretado pelo ator Denzel Washington, é interpelado por um oponente, Teddy, com a seguinte pergunta: “Quando você me olha, o que vê?”. Essa frase me levou a refletir sobre a capacidade da percepção humana. Paulo, em 1 Coríntios 13:12, escreve: “Agora vemos como espelho obscuramente” (ARA).

A capacidade de olhar e poder ver compõe uma capacidade muito maior: a da percepção. O que aquele personagem perguntou ao outro foi o que Mccal percebia e entendia nele; no caso, talvez um sofisma ameaçador. Tudo que nos rodeia – pessoas, coisas e atitudes – e estabelece estímulos flui para nossos centros de racionalização.

Apreendidos e compreendidos, tais estímulos geram as mais diversas sensações que são determinantes para nossas convicções decisões e comportamentos. No mundo, convivemos com estímulos que nos chegam nem sempre fiéis ao que demonstram, e essa forma de disfarce tem sido usada para iludir e arrastar muitas pessoas a terríveis equívocos.

No ambiente material, quando olhamos uns para os outros, com que olhos estamos percebendo o outro? Disse Jesus: “A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” (Mateus 6:22-23).

Nesse precioso texto, Jesus nos adverte não somente sobre aquilo que alcançamos perceber, mas também, e muito mais, sobre o conteúdo interior de cada um, estabelecendo uma predisposição julgadora com relação ao juízo que fazemos das pessoas ou do mundo exterior. É a combinação da predisposição interior ante os conteúdos exteriores.

Paulo afirma que hoje vemos como espelho em enigma; quando esse espelho está refletindo a nós mesmos, o que estamos percebendo? Percebemo-nos com menor valia ou nos superestimamos? O que estamos vendo? E quando olhamos para as outras pessoas? O que estamos percebendo nelas? Como espelho obscuro ou com a visibilidade do amor? Com olhar de admiração ou de censura? Estaremos compreendendo com exatidão o nosso próximo, seja marido, seja esposa, sejam filhos, sejam irmãos, sejam estranhos?

Por mais misterioso que seja o ambiente espiritual, a ponto de Paulo afirmar que vemos obscuramente ou em enigma, pela fé nossa percepção espiritual se aperfeiçoa e conseguimos absorver o maior sentimento humano, o amor. O amor a Deus e o amor ao próximo.

Nesse texto, o apóstolo sintetiza uma das mais belas páginas da Bíblia, discorrendo sobre o amor, metaforizando um paralelismo inusitado com relação ao amor. Na perspectiva espiritual que centraliza o amor, ao nos vermos refletidos em um espelho enigmático, a percepção como um dos maiores bens existenciais nos leva pela fé em um dia podermos nos perceber uns aos outros, com mais exatidão e justiça. E bem mais que isso, podemos ver com segurança a eternidade.

O uso da percepção pode aperfeiçoar nossa racionalidade, com “a renovação da nossa mente sem a qual não será possível compreender a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12). Lembrando: Deus é amor. Perceber esse amor foi a captação de Dimas na cruz, na última curva da sua estrada. A percepção dele seguida de profundo arrependimento ajudou-o a realizar essa última curva perfeitamente, sem derrapar e avançar na reta que o levou à eternidade.

O que estamos percebendo hoje em dia? A verdade subjetiva do amor? Ou a deformação de uma sociedade contaminada que impregna também nossa percepção? O mundo tem que ser transformado e ser ganho para Cristo, não simplesmente imitado. A Igreja de Cristo não tem que imitar o mundo, basta ser a ferramenta que Ele criou para ligar na terra e ligar no céu, (Mateus 16). Essa missão da Igreja não ficou restrita àquela época, mas estende-se até hoje e eternamente através da mensagem do Evangelho. Mesmo que seja difícil essa convivência nos dias modernos, a Igreja precisa se manter sendo um diferencial. Mas para isso temos que perceber como Cristo é. Quando você olha para JESUS, o que você está vendo? Dimas, quando o olhou, viu nEle a salvação. Quando eu olho, vejo o Autor e Consumador da fé (Hebreus 12).

Lemin Lemos é vice-presidente da Convenção Batista do Espírito Santo, presidente do Instituto Brasileiro Evangélico Memória Pastoral (IBEMP), advogado, capelão militar da União Nacional e internacional de Capelania Evangélica (UNISEVE)


Leia mais

As promessas de Deus para o cristão
Como defender a sua fé