Ter um diagnóstico não anula a fé, não invalida a pessoa e não define sua identidade. Pelo contrário: o autoconhecimento liberta

Por Patrícia Pedro
Vivemos uma era de excesso de informação e, paradoxalmente, de pouco aprofundamento. Termos como TDAH, TEA, TOC, Transtorno Borderline, Bipolaridade, Psicopatia, Narcisismo e tantos outros passaram a circular com enorme facilidade, seja nas redes sociais, em conversas informais, ou até mesmo dentro das igrejas. Mas até que ponto esse uso indiscriminado desses rótulos tem feito bem?
Atribuir diagnósticos a si mesmo ou aos outros sem o respaldo de uma avaliação clínica adequada é um desserviço — não só para quem convive com uma condição real, mas também para a saúde mental coletiva. Quando banalizamos termos clínicos, reduzimos a complexidade do sofrimento psíquico a caricaturas. Pior: alimentamos preconceitos, medos e estigmas que afastam as pessoas da ajuda de que precisam.
Na igreja, infelizmente, essa realidade tem sido ainda mais sensível. Durante muito tempo, condições de saúde mental foram tratadas como sinal de fraqueza espiritual ou até de possessão demoníaca. Isso feriu muitos. A boa notícia é que estamos amadurecendo — e esse amadurecimento passa pela escuta, pela empatia e pelo conhecimento.
Jesus jamais condenaria alguém por seu sofrimento. Ao contrário, Ele se aproximava, tocava, acolhia. A série The Chosen retrata isso de forma tocante ao apresentar Mateus com características claras de TEA (Transtorno do Espectro Autista), ainda que isso não seja explicitado. E por quê? Porque na época nem se sabia o que era. Hoje, nós sabemos — e isso nos dá responsabilidade.
Cuidar da saúde mental é um ato de coragem. Ter um diagnóstico não anula a fé, não invalida a pessoa e não define sua identidade. Pelo contrário: o autoconhecimento liberta. Quanto mais nos conhecemos, mais nos entendemos, mais livres somos para viver aquilo que Cristo nos chamou para viver.
Sejamos, portanto, canais de encorajamento e não de julgamento. O mundo já está cheio de dedos apontando. Que sejamos braços estendidos.
Patricia Pedro é psicanalista, terapeuta e supervisora clínica, com formação técnica e humanística. Atua com foco no acolhimento e na escuta qualificada. É escritora e doutora em Psicanálise, com especializações em Neurociência Clínica, Psicologia Social e Terapia do Processo de Luto, Narcisista e idosos (TPN). Possui ainda formações em Terapias Holísticas, Programação Neurolinguística (PNL) e Capelania


