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domingo, 24 outubro 2021

Rodolfo Amorim: “Somos cristãos de uma mesma pátria”

Em meio a embates extremos por movimentos de “direita” e de “esquerda”, permitindo divisão entre patriotas e “inimigos da pátria”, onde está o Brasil nisso? Cadê o patriotismo? E a igreja, o que tem feito?

Por Priscilla Cerqueira

Um quais os nossos deveres cristãos para com a nossa Pátria? Considerando uma população onde quase 40% é evangélica no Brasil, o peso do evangelismo tem sido evidente. A Bíblia ensina que devemos contribuir para a melhoria ética, moral, social e espiritual da sociedade.

Mas no atual contexto onde há um embate extremo por movimentos de “direita” e “esquerda”, permitindo uma suposta divisão entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro, uma pergunta faz-se necessário: cadê o patriotismo? Onde está o Brasil nisso? E a igreja, o que tem feito.

Rodolfo Amorim, um dos mais expressivos pensadores no Brasil na área de cosmovisão cristã, co-fundador do L’ Abri Brasil, um centro de estudos que combina vida em comunidade, hospitalidade, oração e pensamento, mestre em Ciências Sociais, aponta caminhos de um futuro mais promissor no país, mediante um cenário político crítico.

Em entrevista à Comunhão, o cientista, que também é presbítero licenciado da Igreja Presbiteriana de Buritis, em Belo Horizonte (MG), fala dos desafios do cristão na sociedade pós-moderna, da necessidade de a igreja, que reflete Cristo, ser relevante para salvar o Brasil, afinal somos cristãos de uma mesma pátria. Confira!

Comunhão – Não é de hoje que o Brasil vive um apagão ético e moral. Escândalos de toda sorte são noticiados diariamente e a população se vê cada vez mais descrente quando o assunto é honestidade, valores e civilidade na convivência social. O que a igreja tem feito para mudar esse quadro?

Rodolfo Amorim – O Brasil sempre apresentou dificuldade no que diz respeito a coisa pública. E a classe política tem pouco zelo em realmente beneficiar a população. Esse presidencialismo de coalização com o centrão sendo a sua marca principal delata muito dessa realidade.

Quando o evangelho é pregado, ensinado de forma coerente gera virtudes que reflete numa maior capacidade de produção de bens. A igreja tem capacidade de gerar capital moral por meio da infusão da disciplina em várias áreas. São dimensões morais que hoje, no discurso mais progressista, não entram na conta de um Brasil melhor, mas que no dia a dia das pessoas fazem muita diferença. A maior contribuição da igreja é o fortalecimento da capacidade de disciplina e virtude pessoal.

A igreja é um agente importante de mudança na esfera pública. O desafio é quando o evangelho não é pregado e nem ensinado de forma coerente ou quando pessoas mal intencionadas se utilizam da credulidade das pessoas e abusam disso para se beneficiar, seja por um evangelho que focaliza mais a prosperidade do que Cristo ou por igrejas que sugam o que as pessoas mais simples conseguem produzir a duras penas. E isso reflete em alguns setores como na política evangélica. No geral a igreja tem sido um agente da potencialização das virtudes do povo brasileiro.

Está faltando exemplo da própria igreja para que a ética cristã possa influenciar positivamente a sociedade?

A ética cristã foi o motor que impulsionou áreas da emancipação humana de liberdade e de melhoria da qualidade de vida sem qualquer paralelo na história da humanidade. O que precisamos hoje é de uma liderança na igreja que se conscientize de que o evangelho é uma porta de entrada para um novo modo de vida. Grande parte das lideranças, por falta de uma formação teológica mais madura, coerente e rigorosa, acabam deixando de lado princípios que a fé cristã tem que são muito preciosos. Se olharmos hoje para os vários benefícios que temos na nossa vida em relação a direitos, proteção, liberdade, existem cristãos por trás de movimentos que originaram esses processos.

Muitos acham que não amar o mundo é não ter nenhum tipo de engajamento com essa realidade que nós estamos e acabam deixando passar uma oportunidade de glorificar a Deus como Cristo nos ensina. A igreja é o único referencial que este mundo tem. Jesus disse que nós somos a luz do mundo, então temos que apontar caminhos e conduzir processos culturais sem nenhum tipo de intenção do poder pelo poder e colocar a nossa vida a serviço de Deus.

É tempo de a igreja romper obstáculos e fazer frente aos desafios sociais, tão grandiosos, frutos de uma realidade onde a sociedade encontra-se perdida em seus valores morais e éticos?

Esse é o mandamento do Senhor. O mundo não tem o referencial suficiente para apontar caminhos de dignidade humana, de vida plena. Mas o evangelho traz tanto a promessa do porvir como também um claro testemunho de uma vida plena dessa vida, ainda que seja por perseguições com acusações injustas da sociedade, ou que cristãos não sejam coerentes com os seus princípios, nós temos por parte de Cristo um apontamento de que a igreja deve ser essa referência.

A igreja apontou caminhos das artes, passando pelas ciências até a política e a tecnologia. Temos que ter o interesse de descobrir esses grandes heróis do passado que tornaram nossa vida hoje mais digna. Se modelarmos pelo exemplo que eles nos deram poderemos passar para as próximas gerações os frutos do reino que a gente produz e que podemos produzir hoje também.

O profeta Miquéias foi incisivo quanto à responsabilidade de inversão de valores morais provocados pelos políticos, líderes religiosos e falsos profetas, pois eles optaram em aborrecer o bem por amor ao mal. Está faltando patriotismo entre os crentes?

Interpreto essa falta de patriotismo a partir do mandamento central que Cristo nos deixou que é amar o próximo como a si mesmo e amar a Deus acima de todas as coisas. Todo envolvimento social de um cristão pode ser resumido do seu núcleo a esse mandamento.

Quando um político se dedica a sua tarefa com o fim de promover justiça pública, que é o chamado específico para o político, ele está amando o próximo como a si mesmo, fazendo o bem para a nação, glorificando a Deus nesse processo e dessa forma também está anunciando o reino de Deus. Não adianta o político querer falar de Jesus no púlpito do congresso se ele não produz bons projetos de política pública. O cristão precisa ser coerente com as suas práticas.

A igreja evangélica é ativista, mas há uma necessidade de que essa paixão seja mais bem direcionada, principalmente quando ela alcança algumas instâncias de poder. Como a igreja sempre passou por momentos de crise, foi reformada e se recuperou, também é possível ocorrer isso no Brasil.

Como cidadãos possuidores de direitos e deveres com esse país, que nos foi dado por Deus como pátria, e se Deus nos deu o livro arbítrio e legitima as autoridades escolhidas, como o cristão pode influenciar na vida do seu país?

O cristão precisa reconhecer que é cidadão de um país e a vida no país é a vida de uma sociedade. A luta que nós temos tido nos últimos anos é conscientizar o cristão de que ele deve buscar o benefício da sociedade em que Deus o semeou. A igreja é uma instituição transnacional, mas quando Cristo se encarnou, veio como judeu, de uma etnia específica, e visou também o benefício da sua nação que era o povo escolhido de então.

Devemos buscar o bem comum da sociedade, produzir bens, famílias fortes, empresas que geram bens e serviço qualidade e que também gera oportunidade de emprego, na política, a produção de justiça para a sociedade como um todo. Temos de nos conscientizar de que somos cidadãos de uma pátria celestial.

O bem comum da nação brasileira é o bem comum também da igreja. Temos que nos envolver como bons cidadãos, zelar pelo bem-estar da nossa rua, cuidar daqueles que estão em situação de vulnerabilidade nas nossas vizinhanças, zelar para que haja uma igreja forte no contexto brasileiro, cobrar dos políticos e se conscientizar do que está sendo realizado na esfera política e assim por diante.

Devemos ser cidadãos exemplares. Nossa esperança em última instância é o reino eterno de Deus, mas a manifestação desse reino já começa aqui. A igreja já fez muita diferença na história, mas pode continuar a fazer e a minha convicção é de que isso também vai ser feito no contexto brasileiro.

Quais são nossos deveres para com a nossa Pátria?

Reino de Deus não se expressa só no momento de congregação da igreja, mas de que vamos servir no reino e a igreja local precisa do trabalho voluntário liberal. Deus se manifesta na vida da criação como um todo. Os talentos que Deus nos deu agora pra nós exercermos serão averiguados pelo criador diante da perspectiva de eternidade.

Devemos servir alegremente ao Senhor em todas dimensões da vida. Esse conceito de vocação do cristão foi muito perdido por essa privatização da fé, que é muito típica do século 20, principalmente entre os evangélicos, mas a recuperação desse zelo de servir a Deus pode acontecer. Se os evangélicos serão o maior grupo religioso do Brasil a partir da próxima década, podemos transformar o país na política, ciência, academiam esporte, lazer, comércio, indústria, dimensão jurídica, psíquica e produção de justiça social. O que ocorre hoje é que o evangélico se tornou muito visado, é uma moeda muito valiosa em termos políticos.

O que temos que fazer é se envolver com a política, onde ela se inicia, que é na organização das relações de poder no nível mais próximo da nossa vida: dentro de casa, na igreja, estarmos conscientes do que nós podemos fazer pra melhorar. Todos os cristãos podem ser políticos, ter consciência de que o bem da cidade é o bem não só das nossas vidas como dos nossos descendentes e também do nosso próximo, na qual somos chamados a amar.

“Não adianta o político querer falar de Jesus no púlpito do congresso se ele não produz bons projetos de política pública”

Diversos líderes evangélicos se manifestaram em relação ao aumento de prisões e exclusões de contas nas redes sociais de pessoas “conservadoras”, afirmando para a possibilidade de uma “guerra civil” no país. O senhor acredita que a liberdade religiosa e de expressão estão ameaçadas no Brasil?

Os evangélicos tendem a se unir e se mobilizar somente quando se vê perseguido, quando de fato o envolvimento poderia ser mais amplo do que só defender o conservadorismo de costumes, até porque conservar aquilo que há no nosso passado se torna relativo quando pensamos numa nação como o Brasil, que padeceu de injustiças seculares e pouco envolvimento consciente de cristãos pra combater esses males. Essa dimensão de perseguição existe, mas não é principal. Devemos ter um olho em relação a ela, mas não considerá-la como principal.

Como devemos nos posicionar?

A forma de posicionar é se conscientizar dos valores fundamentais em relação a liberdade de expressão, a origem desses princípios, como eles são defendidos e pautados por cartas de direitos humanos, proclamada pela ONU em 1946. Existe essa ameaça, mas isso não deve ser a preocupação do cristão na esfera política hoje.

Qual é a maior preocupação do cristão na esfera política hoje?

Maior ameaça vem da aplicação jurídica de princípios atrelados às políticas identitárias em sua expressão no campo da sexualidade. A ética sexual cristã tem se tornado, neste contexto, como discurso discriminatório e homofóbico, sendo crescentemente enquadrado como crime. Está ocorrendo um conflito entre liberdade de expressão e crença e uma suposta discriminação por orientação sexual.

Este conflito emerge de uma incompreensão quanto ao status das políticas identitárias em sua expressão sexual. O posicionamento cristão deve se dar principalmente na denúncia deste erro ideológico e jurídico. Devemos nos inteirar do assunto e exercer pressão cidadã para reorientar a compreensão e aplicação do tema na esfera política e social.

Devemos nos calar diante dos erros dos governantes?

O cristão nunca deve se calar diante do erro de nenhum governante porque a nossa lealdade é ao Rei dos Reis e Senhor dos senhores. Denunciar os erros e abusos dos governantes deve ser uma praxe cristã metódica. Todo governante está ali como magistrado autorizado por Deus para promover o bem e a justiça. Temos profundas bases teológicas e sociológicas pra sermos profetas da denúncia de abusos no poder.

Há uma tendência crescente de apropriação de símbolos nacionais por movimentos de extrema direita no Brasil, intensificando o movimento “esquerda” e “direita”, permitindo uma suposta divisão da população entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro. Perdeu-se o patriotismo? Onde está o Brasil nisso?

Lamento muito essa fissura que os evangélicos têm admitido na sociedade hoje entre direita e esquerda. A pauta cristã histórica da igreja que está nos evangelhos não está contida nessas ideologias e nenhuma delas representa o que o evangelho é. Os cristãos devem buscar pautar a sua agenda política de envolvimento social pelo evangelho e pelo testemunho histórico da igreja. Quando fazemos isso descobrimos que esses pacotes minúsculos restritos – que hoje são o conservadorismo progressivo no Brasil – nunca conseguem conter a riqueza que o evangelho pode expressar em termos políticos.

É possível salvar o Brasil?

Cristo é o único que pode salvar alguma coisa. Nada vai estar permanente seguro de possíveis influências de pecado e de uma ordem que se corrompe até que Cristo retorne. Então, nesse sentido, o Brasil vai morrer como cada um de nós, mas enquanto a igreja estiver aqui Cristo pode trazer curas substanciais.

O reino na Sua presença traz vislumbres da glória futura. Por isso, creio que o Brasil pode ter vislumbres da glória do reino de Cristo por meio de uma igreja madura. Se a igreja de Cristo refletir o que Cristo é, o Brasil pode ser curado de suas mazelas.

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