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terça-feira, 30 novembro 2021

Roberto Covolan: fé e ciência para transformar a sociedade

Em meio à crise que estamos vivenciando, fundador da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, Roberto Covolan diz que “Deus tudo provê e jamais nos desampara”

Por Priscilla Cerqueira 

Na maior catástrofe humanitária que o mundo já vivenciou até hoje, uma pergunta que talvez muitos se fazem: onde está Deus? Por que Ele permite tantas mortes por covid19? Se Deus é o autor de todas as coisas, porque Ele tem que agir de uma maneira a intervir na natureza e violar as próprias leis sobre as quais Ele mesmo cria e sustenta?

A resposta é que: Deus tem o controle de tudo o que há no universo! Doutor em física, fundador da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência, ABC2, e atual vice-presidente da entidade, Roberto Covolan, defende que a fé é um fator fundamental, sobretudo neste momento que vivemos. Em tempos em que a ciência e a fé precisam estar ainda mais alinhadas, Roberto é enfático ao dizer que a ciência “foi o meio que Deus nos propiciou para descobrir remédios, desenvolver vacinas, equipamentos hospitalares e outros”.

O físico, que frequenta a Igreja Batista Fonte, de Campinas (SP), onde tem ministrado cursos sobre a relação entre Fé cristã e Ciência contemporânea, também afirma que fé e ciência são as maiores forças para transformação da sociedade e, ao mesmo tempo, principais fontes de inspiração para o aprimoramento pessoal e social. Confira a entrevista exclusiva à Comunhão!

Comunhão – Estamos em um momento em que a ciência está sob forte ataque por alguns líderes mundiais, reverberando alguns embates. A pandemia radicalizou ainda mais a questão ciência versus fé?

Roberto – Não diria que radicalizou, mas intensificou a forma como as pessoas já viam a relação entre fé e ciência. Aqueles que viam essa relação como sendo de conflito, provavelmente acentuaram o discurso do conflito. Nós criamos a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência a partir da perspectiva de promover o diálogo entre esses dois campos. Portanto, aqueles, como nós, que defendem uma relação de diálogo entre fé e ciência, passaram a acreditar mais ainda na necessidade de que se fortaleça essa postura do diálogo, propondo sempre que ele aconteça de forma honesta e respeitosa entre esses dois campos, para o benefício de toda a sociedade. Uma perspectiva importante, sempre enfatizada pelos estudiosos da relação entre fé e ciência, é que essas são duas das maiores forças para transformação da sociedade e, ao mesmo tempo, duas das principais fontes de inspiração para o aprimoramento pessoal e social. Portanto, promover a aproximação e o diálogo entre esses dois campos é algo extremamente importante para a sociedade como um todo. E isso tem sido mostrado de forma muito evidente por esse trágico período que estamos atravessando com a pandemia.

Roberto Covolan
“Falar em ciência comprovando a existência de Deus é algo muito equivocado, pois, entre outras coisas, significaria reduzir Deus ao nível do fenômeno”. Foto: Divulgação ABC2

Podemos dizer que a ciência desafia as ações de Deus?

De forma alguma. Precisamos lembrar que a ciência trata de fenômenos naturais. E não podemos equiparar as ações de Deus a fenômenos. A ciência estuda o que ocorre no mundo natural. E tudo o que ocorre está sob a soberania de Deus. Dentro dessa perspectiva, Aubrey Moore, que era cientista e teólogo em Oxford no século 19, já dizia: “Para a teologia cristã, os fatos da natureza são atos de Deus”. Portanto, ainda que a natureza pareça operar autonomamente, nada escapa à vontade soberana de Deus. Assim, o que a ciência faz, na verdade, é buscar revelar a forma como Deus constituiu o mundo natural, fazendo uso de capacidades e meios com os quais o Senhor mesmo nos dotou, a começar pela nossa inteligência e a própria inteligibilidade inerente ao mundo natural.

Se Deus é o autor de todas as coisas, das leis naturais, por que Ele tem que agir de uma maneira a intervir na natureza e violar as próprias leis sobre as quais Ele mesmo cria e sustenta?

Costuma-se fazer uma distinção entre a chamada ação divina ordinária, pela qual Deus sustenta os padrões regulares do mundo físico, através de leis e processos naturais, e a ação divina especial, quando Deus realiza prodígios, milagres e maravilhas. A pergunta presume que o segundo tipo de ação se daria em oposição ao primeiro. A perplexidade e ceticismo com que é vista, por exemplo, a realização de milagres decorre do fato de que, por força da cultura naturalista predominante, tendemos a ver o mundo natural como algo autônomo, fora da esfera divina, do qual temos conhecimento completo. Antes de se pensar em qualquer milagre específico, há algo muito maior a ser considerado, que é a existência em si. Que esta existência se dê de forma ordenada e regular, de acordo com leis naturais, é algo ainda mais surpreendente, que não pode ser aceito com um dado óbvio da realidade. Pelo contrário! É fácil constatar que a nossa compreensão científica dessa realidade é extremamente limitada. A partir disso, é possível presumir que Deus opera a partir de uma racionalidade (inacessível a nós), infinitamente mais ampla, pela qual suas ações não implicam em violações do que conhecemos hoje limitadamente como leis naturais.

Alguma vez na sua vida acadêmica, o senhor chegou a ‘se questionar’ e sentiu a necessidade de buscar um significado da própria existência? Como foi essa busca?

Independente da vida acadêmica, isso é uma questão que nós todos devemos encarar, quando entendemos que não há nada de óbvio na existência e que surpreendentemente coisas existem ao invés de não existir coisa alguma. O confronto com essa necessidade de significado, colocado como necessidade existencial extrema, me levou a Deus. Agora, uma coisa importante que o conhecimento acadêmico me ajudou a compreender é que a ciência não tem como dar respostas satisfatórias a essas questões últimas.

O senhor inclusive disse, em uma ocasião “se eu pudesse, eu teria resistido”, se referindo ao Evangelho. Como foi que você se rendeu à Cristo?

É verdade. A Bíblia ensina isso desde o seu início. Penso que a origem dessa resistência é a inclinação natural que todos temos, de declinarmos do generoso convite que o Senhor nos oferece de nos abrirmos a Ele, porque o que desejamos, no fundo, é autonomia, autossuficiência e autojustificação. E a graça de Deus às vezes é dolorida, mas é necessário para que as ilusões acerca de nós mesmos se desvaneçam e a gente compreenda que, queiramos ou não, dependemos radicalmente de Deus. E isso é muito bom, mas é algo que só entendemos quando experimentamos a graça de Deus. Foi esse o meu caminho.

Qual a importância da ciência para o mundo espiritual? Há como relacionar as duas para comprovar a existência de um Ser superior, dono de tudo e do universo?

Não acredito em comprovações científicas a respeito da existência de Deus. A ciência se ocupa de estudar fenômenos naturais. Agora Deus não tem existência nesse sentido. É errôneo afirmar ou pensar que Deus tenha existência no mesmo sentido que tem tudo o mais que existe. A existência de Deus não se enquadra em nada que sejamos capazes de conceber como existindo. Falar em ciência comprovando a existência de Deus é algo equivocado, pois significaria reduzir Deus ao nível do fenômeno. Mas, a ciência pode ajudar. Basta lembrar do Salmo 19: ‘Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos’ Esse texto aponta que o universo criado tem potencial para funcionar como fonte de revelação. Portanto, o conhecimento que advém do estudo científico dos cosmos pode, realmente, nos apresentar apontamentos e evidências de quem Deus é, mas isso jamais constituirá uma prova científica acerca de Deus. Se isso fosse possível, a fé deixaria de ser necessária.

Roberto Covolan
“O que podemos aprender com a ciência é que Deus, que tudo provê, inclusive a ciência, jamais nos desampara”. Foto: Divulgação ABC2

A ciência tem maneiras de descrever como o mundo funciona e as suas complexidades e apresenta alguns desafios para entendermos como esse mundo dialoga com aquilo que sabemos a respeito de Deus, por meio da revelação da Bíblia. Como essas novas descobertas interferem ou lançam novos desafios no campo da Teologia?

Isso me fez lembrar de uma frase do falecido rabino-chefe da Inglaterra, Jonathan Sacks: ‘A ciência separa as coisas em partes para ver como elas funcionam. A religião coloca as coisas juntas para ver o que elas significam’. Essa visão nos ajuda a entender que não é papel da ciência nos dar o significado das coisas ‒ o que, aliás, escapa às suas capacidades, mas ela, constantemente nos apresenta desafios para entendermos, de uma perspectiva ampla, o mundo em que vivemos. Segundo Jonathan, a religião teria esse papel de oferecer uma perspectiva mais ampla, que atenda ao nosso anseio por significado. E quanto à teologia? Preciso dizer que, atualmente, há sérias críticas a uma teologia natural que busque oferecer argumentos para a existência de Deus a partir dos padrões, regularidades e complexidade observadas no mundo natural. A perspectiva que julgamos hoje mais adequada é a que nos oferece, por exemplo, o teólogo Alister McGrath: ‘De uma perspectiva cristã, a teologia natural pode ser entendida principalmente como uma ‘teologia da natureza’ ‒ isto é, como uma compreensão cristã do mundo natural que reflete os pressupostos básicos da fé cristã’. Há, portanto, uma inversão aqui: ao invés de partirmos do mundo natural para dele inferirmos Deus, nosso dado de partida já é a perspectiva cristã, através da qual examinamos o mundo que vem sendo revelado pela ciência com olhos da fé.

O que nós crentes podemos aprender com a ciência, ainda mais nesse tempo tão difícil em que vivemos?

É que Deus não nos desampara. A ciência foi o meio que Deus nos propiciou para descobrir remédios, desenvolver vacinas, equipamentos hospitalares. Portanto, ele nos proveu antecipadamente de todos os meios para fazermos frente a esse enorme desafio. O custo dessa pandemia tem sido extremamente alto, sobretudo, pela incúria dos homens, mas pela graça de Deus a humanidade sairá desta crise muito melhor preparada no campo da saúde para enfrentar adversidades quem sabe maiores que essa. Portanto, o que podemos aprender com a ciência é que Deus, que tudo provê inclusive a ciência, jamais nos desampara.

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