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quinta-feira, 20 junho 2024

Reforma e Igreja – Organização ou Organismo Vivo?

A instituição da igreja como organização, e não apenas como organismo (espiritual) vivo, estabeleceu um aio secular, levando os membros das comunidades cristãs a viverem sob o governo dos homens, ficando-lhes sujeitos, deixando para segundo plano o que deveria ser um tipo de viver totalmente dependente do governo de Deus

Por João Carlos Marins

Eu me lembro dos meus tempos de infância, de quando, principalmente, nos Dias de Natal a gente ia para a casa dos nossos avós. Eles tinham oito filhos, quase todos casados, e seus respectivos filhos. Era uma festa maravilhosa. Havia uma grande varanda na parte dos fundos da casa, com uma grande mesa, que comportava quase todos nós. Nossos tios, no início da manhã, cuidavam de matar o leitão, que havia sido engordado ao longo do ano, exatamente para este fim.

Vovô e Vovó, Calute e Conceição, se incumbiam de cuidar, durante todo o ano, deste presunto vivo, para que ele estivesse apto para dar a sua vida em favor dos nossos prazeres da hora do almoço. Ainda pela manhã, as mulheres cuidavam do resto, e as crianças brincavam.

É assim que fazem as famílias, uma, duas, cinco ou mais vezes durante todos os anos, e, então, conversam sobre tudo, ‘lavam as roupas sujas’, ‘ficam de mal’, depois ‘ficam de bem’, ajudam-se nas coisas rotineiras, olham os filhos uns dos outros, discutem sobre partilha de herança, choram juntas, riem juntas, vão construindo, ou consolidando, a sua cultura própria, pagam suas contas e tudo o mais.

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Nas famílias, as coisas vão acontecendo, alguns são mais proeminentes, outros mais passivos e dependentes, as decisões são tomadas, isolada ou democraticamente etc. Famílias não precisam de CNPJ – Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, pois não há necessidade alguma em se cadastrar uma família num eventual CNF – Cadastro Nacional de Famílias.

Se uma família tivesse que ter seu CNF, à exemplo do CNPJ, deveria ter um Estatuto, uma Ata de Composição e Posse de uma Diretoria e um Regimento Interno. Por Diretoria teríamos um Presidente, um ou mais Vice-Presidentes, Diretor Disto, Diretor Daquilo, Primeiro e Segundo Tesoureiros, Primeiro e Segundo Secretários. Os demais membros da família seriam meros figurantes. Quase que poderíamos dizer que os demais seriam irrelevantes, apenas um número naquele núcleo familiar formal. E a família seria como uma Empresa.

Assim são as nossas organizações cristãs, com os seus CNPJ, seus Estatutos Sociais, suas Atas de Eleição e Posses de Diretorias, Regimentos Internos, composições de Cargos em atenção a requisitos legais etc. Você já leu algum destes documentos de sua ‘organização religiosa’? Há membros de Diretoria que nunca exerceram efetivamente seus papéis estatutários; há Atas de Assembleias que nunca foram realizadas; há planilhas de custos com a descrição de despesas que muitos de nós nunca se deu conta de que foram feitas; muitas delas para sustentar a manutenção de estruturas organizacionais pesadas, e pouca destinação para as reais necessidades de assistência aos santos.

As Comunidades Cristãs mantêm sua identidade como um Organismo Vivo (representativo do Corpo de Jesus) ou mais se parecem unicamente com uma Organização Cristã, com finalidades sociais, e dependentes das bênçãos do Estado para poder continuar no exercício de suas funções legais? É correto inferir que as Comunidades Cristãs estão debaixo de rédeas oficiais ditadas pelas leis estabelecidas pelo Estado, devendo-lhes satisfação? A composição de uma Diretoria dentro de uma Comunidade Cristã ‘legal’ atende a uma eleição liderada pelo próprio Espírito de Deus ou é feita mediante critérios meramente humanos, muitas vezes, apenas para responder às exigências das leis locais vigentes? Os custos desta organização estão alinhados às finalidades sugeridas pelas Sagradas Escrituras quanto ao uso dos recursos da igreja?

Enfim, se a nossa dependência de Deus, enquanto Comunidade Cristã, não é total, então ela não existe, pois, em relação ao Senhor, não é adequado um nível de Dependência Parcial.

No entanto, e concluindo, não estamos num definitivo inferno organizacional, e nem chegamos, ainda, ao fim do mundo. As Comunidades Cristãs podem revisitar a sua essência, redecifrar a Palavra de Deus para este tempo, ressignificar suas condutas (todas) à luz das Escrituras, sobretudo as do Novo Testamento, ser transparente com relação aos membros, jogando a luz mais clara sobre todas as questões que dizem respeito às dinâmicas do Corpo, como um Organismo Vivo e não mais (e apenas) como uma Instituição Legal.

Nisto pensai!

João Carlos Marins é pastor e especialista no tema responsabilidade social.

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