Por Pr Josias Vieira Kaeté
O trabalho da fé cristã em nosso tempo confronta-se com um obstáculo gigantesco: a permanência da colonialidade. Ela não se encerrou com o fim do sistema colonial oficial, mas se enraizou em estruturas utilitaristas e de consumo que instrumentalizam a religião. Diante do público cristão, buscam legitimação teológica para seguir o rastro da exploração dos corpos humanos e não humanos na Criação. Essa é a essência de uma Teologia Colonial , que, com seu léxico unívoco e eurocentrado, adestra a comunidade de fé para a manutenção do controle institucional.
Eu me arrisco ao descrédito para trilhar outro caminho, um percurso de desobediência epistêmica. É urgente semear prefácios para a construção de uma Ecoteologia Cristã Decolonial, partindo dos territórios e das vozes dos povos subalternizados. É preciso sair da pretensão de uma civilização iluminada pela racionalidade eurocêntrica – e, por isso, antropocêntrica – que absolutiza seu ponto de vista.
Nossa proposta se apresenta como uma alternativa, uma posição transversal à hermenêutica hegemônica, exigindo de nós uma postura de ouvinte. A Ecoteologia, etimologicamente, convoca-nos a sentipensar o Oikos (a casa comum, o todo criado), o Theos (a essência da verdade) e o Logos (o Verbo que cria e diz sobre a Criação que é “muito bom” — Gn 1:31). Ela não se contenta em ser apenas práxis, mas acentua o caráter contemplativo, silenciando e sintonizando-se com o mistério de Deus na biosfera.
O instrumental da Decolonialidade é vital. Ele não busca anular o saber do Norte Global, mas descentrá-lo, povoando o intelecto produtor de conhecimento com a maior diversidade de vozes possível.
A Ecoteologia Cristã Decolonial demarca seu lugar de operação e sua fonte de conceitos na cosmovivência indígena e afro-diaspórica.
Se a teologia colonial imputou desonra e sofrimento às nossas ancestrais , é pela espiritualidade dos deslocados que geramos a ecoteologia dos deslocados.
Essa nova forma de fazer teologia, com os pés no chão, nos permite reinterpretar a radicalidade do Reino de Deus. A meritocracia é sinônimo de exploração. A lógica do esgotamento para “merecer algo” é uma ferramenta do mundo que jaz no maligno. A dignidade do Reino de Deus se manifesta na graça que contraria o utilitarismo.
Carnaval, a alegria do inferno - Antes de responder se podemos ou não pular o carnaval, devemos responder as duas questões que Paulo coloca na frente
A mulher que Deus chamou não precisa viver esgotada - O equilíbrio entre fé e inteligência emocional como fundamento da saúde integral da mulher cristã A parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20:1–16) nos ensina que a Justiça não quer dizer igualdade, mas que a solução deve se ajustar à necessidade gerada pelo problema. Nela, a dor do outro deve ser sentida como a nossa. Em um contexto de cosmovivência, onde a coletividade é o sujeito, o que se tem de alimento, vestuário e cura é para todos e todas. O valor da pessoa não está no que ela produz, mas em seu ser.
Portanto, a semente primordial da Ecoteologia Cristã Decolonial é a compreensão profética: Para o Senhor, você não é o que você produz.
O que proponho é que a autonomia das espiritualidades não brancas seja lida com a legitimidade que lhes é inerente, sem o cristianismo eurocentrado como parâmetro para tutelá-las. Essa Ecoteologia Cristã Decolonial busca a coexistência harmônica na Criação e em constante relação com o Criador, apontando caminhos possíveis para a sua implementação a partir do Sul Global. É uma Ecoteologia com os pés no chão.
Josias Vieira Kaeté é ecoteólogo e pastor fundador do Movimento Nós na Criação


