O peso emocional enfrentado por mães, pais e responsáveis influencia o tratamento e o bem-estar de crianças com câncer
Por Patrícia Esteves
Quando uma criança adoece, alguém aprende a ser forte sem nunca ter escolhido isso. Receber o diagnóstico de câncer em um filho provoca um abalo que ultrapassa o campo médico e reorganiza toda a vida emocional, prática e social da família. A rotina passa a girar em torno de consultas, exames, internações e decisões complexas, enquanto o medo da perda e a incerteza se instalam de forma permanente. Nesse processo, quem cuida costuma ocupar o lugar da força ininterrupta, mesmo quando está emocionalmente exaurido.
Quem cuida também adoece em silêncio. O sofrimento psíquico de mães, pais e responsáveis impacta diretamente a adesão ao tratamento, a continuidade do cuidado e o bem-estar da própria criança. Ainda assim, essa dor costuma ser vivida de forma silenciosa, sem espaço para escuta ou acolhimento.
Para Bianca Provedel, CEO do Instituto Ronald McDonald, a saúde emocional de quem cuida faz parte do tratamento. “A notícia do câncer paralisa. A gente entra em um estado de alerta permanente, vivendo entre a esperança e o medo. E, com o tempo, percebe que nem sempre há espaço para falar dessa dor. As pessoas seguem, mas quem está cuidando fica ali, tentando ser forte o tempo todo”, afirma.
A sobrecarga emocional do cuidado
O câncer infantojuvenil atinge crianças e adolescentes de 0 a 19 anos e é a segunda principal causa de morte por doença nessa faixa etária no Brasil. Entre 2023 e 2025, são esperados cerca de 7.930 novos casos por ano no país, o que amplia o número de famílias atravessadas por uma rotina intensa de tratamento e incertezas.
Pesquisas internacionais indicam que muitos cuidadores enfrentam níveis elevados de estresse, ansiedade e sofrimento psicológico prolongado ao longo da jornada. Estudos também apontam que esses responsáveis frequentemente dedicam mais de 140 horas semanais ao cuidado da criança, negligenciando a própria saúde e comprometendo a qualidade de vida e a capacidade de tomar decisões importantes.
A importância do acolhimento ao longo do tratamento
Reconhecer esse sofrimento, avalia Bianca, é essencial para atravessar o processo de cuidado. “Cuidar de uma criança com câncer exige força emocional constante. Quando não há acolhimento psicológico, esse peso se acumula. A saúde mental do cuidador não é um detalhe, ela interfere diretamente na continuidade do tratamento e no bem-estar da criança”, destaca.
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Cuidar de quem cuida como responsabilidade coletiva
Iniciativas de apoio estruturado mostram que o tratamento vai além da dimensão médica. Alimentação adequada, moradia digna e suporte emocional reduzem o peso da jornada e ajudam as famílias a manter o cuidado ao longo do tempo. “Sem olhar para essas necessidades, o tratamento fica mais pesado e as chances de cura diminuem”, ressalta Bianca.
No Janeiro Branco e ao longo de todo o ano, o cuidado com a saúde mental de quem cuida se impõe como parte indissociável do enfrentamento do câncer infantil. “Cuidar de quem cuida é um ato de responsabilidade e humanidade. A força que tanto se espera dessas famílias só existe quando elas não precisam enfrentar tudo sozinhas”, conclui.

