Quase ninguém para pra cavucar

Quase ninguém para pra cavucar
Atilano Muradas é jornalista, teólogo, escritor e compositor

Pare para prestigiar o que os seus colegas, irmãos, pais, filhos, amigos, vizinhos, estão realizando

Há muitos anos, assisti a um documentário da vida de um compositor brasileiro que tem mais de 50 anos de carreira. Quase no final, quando perguntado se tem ouvido os compositores atuais, ele revelou algo impressionante: “Estou ouvindo as coisas que não ouvi no tempo em que estava fazendo sucesso e muitos shows”. Imagine o quanto ele terá de ouvir para se atualizar. Isso me fez refletir!

Por anos, fui professor de História da Música Cristã no Brasil. Infelizmente, há poucas publicações a respeito do assunto, por isso tive que “cavucar” bastante para encontrar conteúdo para meus alunos do seminário e formatar um currículo interessante. Quando relacionei os músicos que nos últimos 50 anos gravaram, pelo menos, um CD/LP, acredite, produzi uma lista de quase mil artistas e/ou bandas. Tentei escutar o máximo que pude e entender a arte de cada um. Foi aí que compreendi melhor o compositor do documentário.

Concluí que eu conhecia apenas “fragmentos” da obra dos artistas do meu tempo. Os motivos? Só ouvia as minhas próprias composições e o que me era apresentado pela mídia. Mais nada. Enquanto gravava os meus CDs e cumpria agendas de apresentações, praticamente não olhei para os lados a fim de escutar, a não ser superficialmente, o que os meus colegas realizavam.

Esse fenômeno não ocorre apenas entre músicos. Escritores também não param para ler o que outros autores produzem. Pastores nem sempre param para ouvir outros pregadores. Atores não param para assistir a peças dos colegas de profissão. E assim vai. Parabéns, se você for uma exceção, mas a verdade é que, apesar do aumento do tráfego de informações via internet, a ação de cavucar a obra alheia continua sendo iniciativa individual, e nem todo mundo está disposto a isso.

Atualmente, tento conhecer o “máximo” possível de artistas (novos e antigos), mas confesso que está difícil fechar essa imensa cratera de desconhecimento. Conhecer a “todos”, literalmente, se tornou tarefa impossível. Mas, não desanimo.

Apesar do aumento do tráfego de informações via internet, a ação de cavucar a obra alheia continua sendo iniciativa individual, e nem todo mundo está disposto a isso

Quem não conhece o máximo de um todo, corre o risco de emitir estatísticas incorretas e/ou ideias tendenciosas a respeito de um tema. Quem não conhece o máximo de um todo, ou fica soberbo, porque imagina ser o único do planeta que faz aquilo, ou não acredita em si porque ninguém faz o que ele faz. Quem não conhece o máximo de um todo é pobre de argumentos. É mais ou menos como aquele que só lê o livro de Salmos e fica “surpreso” com qualquer coisa que alguém lhe fala da Bíblia.

O desafio, então, é ter olhos e ouvidos atentos para conhecer mais o que está ao seu redor, sentar com calma para “degustar”, até o fim, canções, livros, filmes, “cavucando” sem ser dominado pela ansiedade. Pare para prestigiar o que os seus colegas, irmãos, pais, filhos, amigos, vizinhos, estão realizando. Isso também é ter cuidado uns dos outros (1 Co 12:25). Não olhe apenas para o seu umbigo. Entretanto, cuidado. Não fique a par do que o outro está realizando apenas para criticar e/ou falar mal (Tg 4:11). Ao contrário. Saiba elogiar, encorajar (Hb 3:13), aprender (Cl 3:16) e honrar (Rm 12:10). Agindo assim, sua vida será mais alegre, cheia de amigos e de conexões, e ainda rica em conhecimentos.

Pode ser que você tenha de ouvir 50 CDs de fulano, ler 35 livros de beltrano e ver 17 clipes de cicrano. Haja fôlego! Mas valerá a pena! E ainda descobrirá que cada um desses artistas também mereceria ser tema de documentário. Portanto, boas cavucadas para nós!


Atilano Muradas é jornalista, teólogo, escritor e compositor

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