Líderes detalham as origens históricas dos 40 dias e por que a maioria dos evangélicos não adota a tradição litúrgica
Por Cristiano Stefenoni
Assim que os últimos confetes do Carnaval tocam o chão e os trios silenciam, o calendário cristão vira a página. Na Quarta-Feira de Cinzas começa a Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa e se encerra no Domingo de Ramos, abrindo caminho para a Semana Santa. Para os católicos, trata-se de uma jornada marcada por penitência, oração, jejum e abstinência. Já entre os evangélicos, a prática não se tornou tradição consolidada, embora a Páscoa ocupe hoje lugar central em muitas comunidades.
O teólogo e historiador, pastor Wagner Augusto Vieira Aragão, explica que a Quarta-Feira de Cinzas “marca o início da Quaresma, um período de 40 dias (excluindo os domingos) que antecede a Páscoa”. Ele detalha que o nome remete ao antigo costume de marcar a testa dos fiéis com cinzas em formato de cruz. “Na tradição bíblica, as cinzas simbolizam arrependimento e a fragilidade humana. É um lembrete da frase: ‘Pois tu és pó e ao pó tornarás’ (Gênesis 3:19)”, afirma.
Sobre a origem do termo, Aragão esclarece que “Quaresma” vem do latim “quadragesima dies”, que significa “quadragésimo dia”. O número 40, segundo ele, é carregado de simbolismo bíblico: “os 40 dias do dilúvio, os 40 anos de Israel no deserto e, principalmente, os 40 dias de jejum de Jesus no deserto antes de iniciar Seu ministério”. Historicamente, a prática remonta ao século IV, consolidando-se como tradição litúrgica na Igreja.
Embora seja mais fortemente associada ao catolicismo, a observância da Quaresma não se restringe a ele. Aragão lembra que “outras denominações como Anglicanos, Luteranos e alguns Metodistas também observam a Quaresma”. Ele explica, porém, que a maioria das igrejas evangélicas, incluindo a Igreja Adventista do Sétimo Dia, não a celebra formalmente por razões teológicas e históricas.
Entre essas razões está o princípio da Sola Scriptura. “Os evangélicos buscam basear suas práticas litúrgicas estritamente no que está ordenado na Bíblia. A Quaresma, como calendário fixo e obrigatório, é uma tradição eclesiástica que se consolidou séculos após a era apostólica”, pontua.
Ele acrescenta que, para muitos evangélicos, “o arrependimento e a consagração não devem estar confinados a um período específico do calendário litúrgico, mas devem ser uma prática diária”.
Aragão também destaca a preocupação com a compreensão da graça: “Há uma cautela para que práticas como o jejum ou a abstinência de carne não se tornem ‘obras’ para alcançar o favor de Deus, mas sim respostas de amor à Graça já recebida”. Ainda assim, ele ressalta que a Bíblia valoriza momentos específicos de busca espiritual.
“Jesus buscava o isolamento: Ele frequentemente se retirava para lugares solitários para orar (Lucas 5:16). Se o próprio Filho de Deus sentia necessidade de períodos de consagração, quanto mais nós”, explica.
O pastor observa que o jejum, embora não determinado como um período coletivo anual de 40 dias, é incentivado nas Escrituras. “A Bíblia não ordena um jejum coletivo de 40 dias por ano, mas incentiva o jejum quando buscamos clareza espiritual ou intercessão (Mateus 6:16-18)”, afirma.
Ele também menciona a necessidade de renovação constante: “Paulo nos exorta a não nos conformarmos com este mundo, mas nos transformarmos pela renovação da nossa mente (Romanos 12:2). Isso exige paradas estratégicas para ‘recalibrar’ o coração.”
O pastor Josué Ebenézer de Sousa Soares, da Comunidade Batista Atos 2, de Nova Friburgo (RJ), reforça que a observância da Quaresma é mais comum em igrejas protestantes históricas.
“A Quarta-Feira de Cinzas marca o início da Quaresma, um período de 40 dias que antecede a celebração da Páscoa. Nas igrejas protestantes históricas – aquelas mais ligadas à Reforma, como a Anglicana e a Luterana – a tradição litúrgica é mais seguida, à semelhança do que ocorre no catolicismo”, explica.
Segundo ele, há também fatores históricos e teológicos para a não adesão ampla entre evangélicos. “Não seguir a Quaresma é uma questão histórica, mas também teológica. Por se tratar de um movimento mais recente, o evangelicalismo não teve tempo nem interesse em desenvolver liturgias mais aprofundadas e elaboradas”, afirma. E complementa:
“Outro ponto é a questão teológica. O catolicismo é sacramental. O evangelicalismo segue as boas-novas do Evangelho e busca o novo nascimento, seguido de uma vida de santificação. Assim, os valores cristãos, o cumprimento dos mandamentos bíblicos e a comunhão com Deus são práticas cotidianas, e não apenas abordagens litúrgicas específicas.”
Soares lembra ainda que, até a década de 1970, a própria celebração da Páscoa era pouco expressiva no meio evangélico. “Havia o entendimento de que a Páscoa – inaugurada com o êxodo do Egito – era uma festa estritamente judaica, comemorativa da libertação do povo judeu do cativeiro egípcio, equivalente ao nosso 7 de Setembro. Ou seja, a Páscoa seria uma data nacional dos judeus e não dizia respeito aos cristãos”, explica.
A partir dos anos 1970, esse entendimento passou por revisão. “A Páscoa cristã celebra a ressurreição de Cristo. É uma data em que os evangélicos se voltam para a celebração da vitória sobre a morte, estabelecida por Jesus Cristo na cruz e no túmulo vazio. A cruz evangélica não é um crucifixo. É uma cruz sem Cristo morto. A cruz ficou vazia, e o túmulo também”, afirma o pastor.
Ele acrescenta que o sentido da celebração também difere. “Nossa celebração de Páscoa é uma comemoração de vitória, alegria e esperança. João, o apóstolo amado, fala de uma tríplice esperança do cristão: Jesus vai voltar, os salvos o verão e seremos tornados semelhantes a Ele (1Jo 3.1-3)”, diz.
Entre as práticas mais comuns nas grandes igrejas evangélicas estão cantatas com corais ensaiados, produções cenográficas e, em alguns casos, encenações teatrais. “Outras formas incluem cultos na madrugada do domingo, para simbolizar o momento da ressurreição, celebração de ceia especial com encenação da última Páscoa, conforme celebrada por Jesus no cenáculo, entre outras práticas”, conclui.
Para Wagner Aragão, no entanto, a essência vai além do calendário. “Para o cristão, o foco não deve estar na data em si, mas na atitude. Seja na Quaresma ou em qualquer outra época, tirar um tempo para silenciar o barulho do mundo, estudar as Escrituras com mais profundidade e praticar o autoexame é o que mantém a nossa identidade como discípulos de Jesus viva e relevante”, conclui.

